{"id":2027,"date":"2025-09-01T14:59:04","date_gmt":"2025-09-01T14:59:04","guid":{"rendered":"https:\/\/art100.in\/marcelo-cidade\/"},"modified":"2025-11-27T13:10:52","modified_gmt":"2025-11-27T13:10:52","slug":"marcelo-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/art100.in\/pt-br\/marcelo-cidade\/","title":{"rendered":"Marcelo Cidade"},"content":{"rendered":"\n<p>Marcelo Cidade (S\u00e3o Paulo, 1979) \u00e9 um artista cujo trabalho est\u00e1 enraizado na experi\u00eancia urbana e nas tens\u00f5es entre o p\u00fablico e o privado. Seu olhar sobre a cidade n\u00e3o se limita \u00e0 mera observa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m se estende a um engajamento ativo com ela, incorporando e questionando seus elementos em seu trabalho. Marcelo examina estruturas arquitet\u00f4nicas p\u00fablicas e privadas, em especial aquelas que poderiam passar despercebidas, por mais que tenham um impacto sobre como vivemos no ambiente urbano. Durante a conversa, o artista compartilha sobre seu processo criativo, a influ\u00eancia de S\u00e3o Paulo em sua arte e reflex\u00f5es sobre arquitetura hostil e mecanismos de exclus\u00e3o na paisagem urbana. Confira:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_7428-scaled.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1881\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcelo, muito obrigado por me receber no seu est\u00fadio. Gostaria de pedir que voc\u00ea se apresente, com qualquer informa\u00e7\u00e3o que desejar, pensando em um p\u00fablico que n\u00e3o conhece a sua pr\u00e1tica art\u00edstica.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Eu sou Marcelo Cidade. Nascido e criado em S\u00e3o Paulo, Cidade \u00e9 meu sobrenome de verdade, n\u00e3o \u00e9 um sobrenome art\u00edstico [risos]. Me formei em artes pl\u00e1sticas pela FAAP em 2002.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O seu trabalho \u00e9 bastante influenciado pela arquitetura e espa\u00e7os p\u00fablicos, especialmente os ambientes urbanos de S\u00e3o Paulo. Al\u00e9m dessa contraposi\u00e7\u00e3o entre as esferas p\u00fablicas e privadas, que s\u00e3o temas recorrentes. Como voc\u00ea v\u00ea a quest\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico em S\u00e3o Paulo em paralelo com a situa\u00e7\u00e3o em outras cidades ao redor do mundo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O meu trabalho acontece em viver as contradi\u00e7\u00f5es estruturais de uma cidade do sul global, como S\u00e3o Paulo, com todos os seus problemas sociais e a viol\u00eancia urbana cotidiana, traduzir essas quest\u00f5es atrav\u00e9s da arte. Me interesso pela vida cotidiana, por pequenos gestos, a\u00e7\u00f5es, que a princ\u00edpio podem parecer banais, mas que, quando se repetem, viram padr\u00f5es sociais, reinventando a realidade, rompem com a normalidade. Essa tradu\u00e7\u00e3o se d\u00e1 em trazer para o \u00e2mbito da arte situa\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e inverter polaridades entre o p\u00fablico e o privado. Grande parte dessas quest\u00f5es me interessa porque as vivo diariamente e percebo esse encolhimento do espa\u00e7o p\u00fablico atrav\u00e9s da privatiza\u00e7\u00e3o dele e uma perda de espa\u00e7o social comum e do bem-estar social. A cidade hoje em dia s\u00f3 \u00e9 \u201cp\u00fablica\u201d para quem tem dinheiro para consumir esse espa\u00e7o dito \u201cp\u00fablico\u201d. Um espa\u00e7o cada vez mais relacionada \u00e0 especula\u00e7\u00e3o e ao espet\u00e1culo do consumo.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o Paulo \u00e9 uma cidade com uma estrutura dos anos 1960, que cresce horizontalmente de uma maneira muito grande, e o capital vai indo de acordo com algumas quest\u00f5es. Isso est\u00e1 muito relacionado \u00e0 dificuldade de conseguir ter uma prefeitura com capital que vai para o espa\u00e7o p\u00fablico. Sempre h\u00e1 uma marca por tr\u00e1s ou um empreendedor privado, e os erros v\u00e3o acontecendo, porque, do meu ponto de vista, n\u00e3o h\u00e1 outra sa\u00edda. Os problemas sociais de fome e moradia popular s\u00e3o t\u00e3o absurdos, s\u00e3o urgentes!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O espa\u00e7o p\u00fablico est\u00e1 cada vez mais nas m\u00e3os de empreendedores e do capital privado. Vemos isso no Ibirapuera, no Anhangaba\u00fa e agora no Pacaembu. Isso cria essas zonas cinzas, onde pessoas que foram criadas em condom\u00ednios, que utilizam sa\u00fade privada, que t\u00eam carros particulares, cujos filhos frequentam escolas privadas, desenvolvem uma aporofobia do espa\u00e7o p\u00fablico. S\u00e3o condicionadas a isso, evitam o espa\u00e7o p\u00fablico por medo de assaltos, sujeira, moradores de rua e de tudo que \u00e9 visto como mau na sociedade. Quando essas pessoas v\u00e3o para a Fran\u00e7a, falam que andam no metr\u00f4 de Paris, que visitaram museus. Aqui, as pessoas n\u00e3o v\u00e3o aos museus, n\u00e3o usam o metr\u00f4, por uma quest\u00e3o de classe e elitismo, do meu ponto de vista. E o meu trabalho vem nessa provoca\u00e7\u00e3o. Porque eu fui criado em um condom\u00ednio, eu estudei em uma escola privada, queria ir para a escola p\u00fablica, mas minha m\u00e3e n\u00e3o gostava muito da ideia. A minha maneira de escapar dessa lobotomia social foi pegar meu skate e sair de casa, ir andar no Anhangaba\u00fa ou no Parque do Ibirapuera. Fiz amizades com pessoas de diferentes partes da cidade, de diferentes classes sociais, e percebi que existe vida al\u00e9m do muro do condom\u00ednio. Vejo que, em S\u00e3o Paulo, as pessoas tendem a levar uma vida muito privada, e a vida p\u00fablica vai diminuindo cada vez mais. Por exemplo, durante a pandemia, ningu\u00e9m usava mais o espa\u00e7o p\u00fablico em fun\u00e7\u00e3o do isolamento. As pessoas que ainda moravam em seus quitinetes foram perdendo seus empregos e acabaram indo para a rua, por causa da crise econ\u00f4mica gerada pela covid. O lugar p\u00fablico se transformou em uma gigantesca moradia popular no centro de S\u00e3o Paulo. Agora, com um governo mais para a esquerda, mais assistencialista, junto com as institui\u00e7\u00f5es de moradia popular, como o MSTC, que organizam as ocupa\u00e7\u00f5es, essa situa\u00e7\u00e3o tem melhorado, mas mesmo assim ainda se percebe a privatiza\u00e7\u00e3o desses espa\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Irregulares_Marina-Lima_2-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1887\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Irregular 02, 2022<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tornar o espa\u00e7o p\u00fablico reabit\u00e1vel \u00e9, na verdade, uma solu\u00e7\u00e3o mais barata do que equipar cada novo pr\u00e9dio com uma piscina, sal\u00e3o de festas e churrasqueira. No entanto, eu vejo um crescimento nos condom\u00ednios fechados, que se tornam quase cidades, minimizando a necessidade de intera\u00e7\u00e3o com o mundo exterior. Mesmo pr\u00e9dios populares das d\u00e9cadas de 1950, 1960 e 1970 ainda dependiam do espa\u00e7o p\u00fablico vizinho, como pra\u00e7as, piscinas p\u00fablicas e academias. Hoje, tudo est\u00e1 concentrado dentro dos pr\u00f3prios condom\u00ednios.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Existem alguns condom\u00ednios com mais de 20 pr\u00e9dios que t\u00eam tudo o que voc\u00ea precisa ali dentro. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio sair. S\u00e3o microcidades dentro das cidades, e voc\u00ea vai se isolando cada vez mais do mundo exterior. Quando a pessoa precisa sair do condom\u00ednio, ela sai furiosa.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Eu vivi muito tempo no centro devido ao trabalho, apesar de morar mais afastado. Naquela \u00e9poca, todos os espa\u00e7os gays e alternativos se concentravam no centro, na Augusta. Hoje em dia mudou totalmente, mas era um espa\u00e7o onde voc\u00ea tinha contato com outras pessoas, porque voc\u00ea precisava estar ali. N\u00e3o tinha aplicativo ainda, n\u00e3o tinha essa facilidade. Naquela \u00e9poca tamb\u00e9m existia muito mais preconceito do que hoje, em outros espa\u00e7os que agora conseguimos conviver com mais abertura. Hoje, n\u00e3o me surpreenderia ver grupos de amigos se reunindo em condom\u00ednios em vez de bares.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Meus pais moram em Tabo\u00e3o da Serra. Ent\u00e3o, passei minha adolesc\u00eancia inteira dentro de um \u00f4nibus na Francisco Morato. O que sinto um pouco \u00e9 que tamb\u00e9m existia, como voc\u00ea mencionou, essa necessidade de ir para o centro. Hoje em dia existe uma descentraliza\u00e7\u00e3o da cidade de S\u00e3o Paulo. P\u00f3s-covid, percebemos que o centro j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo. Vemos a Augusta, por exemplo. O centro ficou muito mais dif\u00edcil de sair \u00e0 noite. Durante a pandemia, depois das oito da noite, n\u00e3o era poss\u00edvel atravessar a Pra\u00e7a da Rep\u00fablica sem ser assaltado. As coisas ficaram muito mais <em>hardcore<\/em>. Pequenos assaltos e grupos de pessoas que chegavam te limpavam tudo e desapareciam. E a pol\u00edcia tamb\u00e9m desapareceu. N\u00e3o havia mais policiamento no centro. Agora a vida est\u00e1 retornando, mas, por meio de empreendimentos de revitaliza\u00e7\u00e3o, dos grandes grupos que est\u00e3o comprando pr\u00e9dios antigos e os reformando para a classe A com todas as concess\u00f5es de imposto para que esses empreendimentos possam acontecer. Circula um boato de que, na verdade, essa deteriora\u00e7\u00e3o do centro de S\u00e3o Paulo \u00e9 um motivo para primeiro expulsar a popula\u00e7\u00e3o para longe, porque ficou muito perigoso, ficou invi\u00e1vel morar no centro, e, segundo, especular, vender para um grupo. Dizem que aquilo vai bombar daqui a alguns anos, mas de uma maneira privada, como o Anhangaba\u00fa. O Anhangaba\u00fa, hoje em dia, eles fizeram aquela grande reforma, colocaram o cimento queimado, umas lumin\u00e1rias fascistonas. Eu cresci no Anhangaba\u00fa andando de skate, ent\u00e3o tinha uma rela\u00e7\u00e3o afetiva muito forte com aquele lugar. Eu ia para l\u00e1 andar de skate, fiz amigos, tinha uma rela\u00e7\u00e3o. E, de repente, jogaram tudo aquilo fora, cimentaram e lotearam. Agora est\u00e1 cheio de grades. Quando acontecem os eventos de m\u00fasica eletr\u00f4nica, eles fecham tudo. Voc\u00ea n\u00e3o consegue atravessar, \u00e9 preciso dar uma volta enorme. E ali virou um quintal de gente rica que paga R$ 700,00 para ver um show no Anhangaba\u00fa, quando antigamente era de gra\u00e7a. Concess\u00f5es p\u00fablico-privadas, que s\u00e3o sempre muito mais privadas do que p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sim, h\u00e1 uma certa perversidade nessa no\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o p\u00fablico, quase como se tivesse vida pr\u00f3pria, o que n\u00e3o \u00e9 verdade. Me lembrei de St. Andrews, uma cidade universit\u00e1ria no norte da Esc\u00f3cia, onde membros da fam\u00edlia real estudaram e \u00e9 considerada uma das melhores universidades do mundo. Havia uma esta\u00e7\u00e3o de trem l\u00e1, fechada em 1969, e atualmente uma nova est\u00e1 sendo constru\u00edda. Embora n\u00e3o seja uma pol\u00edtica p\u00fablica aberta, \u00e9 question\u00e1vel se isso foi feito para limitar o acesso.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Eu comecei a perceber essa rela\u00e7\u00e3o de arquitetura hostil n\u00e3o aqui em S\u00e3o Paulo, mas primeiramente na Holanda. Acredito que Amsterd\u00e3 e Roterd\u00e3 s\u00e3o cidades que tinham uma arquitetura t\u00e3o aberta, que, nos \u00faltimos tempos, com as privatiza\u00e7\u00f5es e os governos mais de direita, come\u00e7aram a privatizar esses espa\u00e7os p\u00fablicos. Tem um arquiteto de quem gosto muito, Aldo Van Eyck, que no p\u00f3s-guerra j\u00e1 trabalhava com a prefeitura de Amsterd\u00e3. Ele come\u00e7ou a usar os terrenos baldios entre pr\u00e9dios para fazer playgrounds. E n\u00e3o eram playgrounds para crian\u00e7as, mas para adultos, para retomar um espa\u00e7o de conviv\u00eancia, para que as pessoas traumatizadas por uma guerra pudessem voltar a conviver. Ent\u00e3o, ele projetou esses espa\u00e7os para conviv\u00eancia. Comecei a me interessar muito por ele e a estud\u00e1-lo bastante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/P_Concreto82_JL-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1891\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Projeto (re)contrutivo : Concreto 82, J.L, 2024<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>N\u00e3o tenho certeza se isso \u00e9 comum em S\u00e3o Paulo, mas existem alguns espa\u00e7os p\u00fablicos com \u00e1reas onde voc\u00ea poderia se sentar ou se deitar. Agora, eles colocaram pequenas pedras nesses espa\u00e7os. Voc\u00ea pode at\u00e9 se sentar, mas s\u00f3 por um curto per\u00edodo antes de ir embora. Isso tamb\u00e9m evita que algu\u00e9m durma l\u00e1.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, existem em diversos lugares de S\u00e3o Paulo, normalmente debaixo de viadutos. Por aqui, no centro, h\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o bem particular. Normalmente, eu chego aqui no ateli\u00ea e h\u00e1 pessoas dormindo ou usando crack perto da porta de a\u00e7o. Eu aprendi a lidar com essa situa\u00e7\u00e3o, mas algumas pessoas jogam \u00e1gua para mandarem essas pessoas embora. Algumas pessoas, cruelmente, jogam sab\u00e3o em p\u00f3 ao redor, entre espetos, grades, em frente ao port\u00e3o e tudo mais, para que n\u00e3o se deitem ali, tornando insalubre, respirar o sab\u00e3o em po. Outra situa\u00e7\u00e3o que percebi foi a aus\u00eancia de tudo que era feito de ferro e a\u00e7o na cidade. A quest\u00e3o econ\u00f4mica e a mis\u00e9ria estavam t\u00e3o grandes que os moradores de rua come\u00e7aram a roubar tudo, desde esculturas, corrim\u00e3os de pontos de \u00f4nibus, bancos de ferro, at\u00e9 tampas de bueiros. Eles passavam de noite, arrancavam e levavam embora, inclusive, arquiteturas hostis. Virou uma subeconomia dentro da economia.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 um ato de rebeldia n\u00e3o pensado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Totalmente n\u00e3o pensado. Quando cheguei aqui pela primeira vez (no meu ateli\u00ea aconteceu algo muito curioso: a trava da porta de a\u00e7o, que \u00e9 um grilh\u00e3o de lat\u00e3o, desapareceu. Quando eu vi, entrei em p\u00e2nico, mas tudo estava no lugar, ningu\u00e9m tinha entrado, os computadores estavam intactos. Fui at\u00e9 a loja onde comprei a trava, contei a hist\u00f3ria para o vendedor, e ele me disse que a pessoa se senta, pega um martelo, bate na trava e a abre. Perguntei: \u201cComo assim uma coisa que voc\u00ea me vende, que \u00e9 para segurar, abre t\u00e3o facilmente?\u201d. E ele explicou que em vez de abrir para arrombar e entrar, a pessoa apenas rouba e leva a trava para trocar por drogas nos pr\u00f3prios ferros-velhos, uma economia paralela. Eles n\u00e3o trocavam mais ferro-velho por dinheiro, mas diretamente por crack. Ent\u00e3o, aqui no centro, virou uma esp\u00e9cie de \u201ccorrida do ouro\u201d. Ao mesmo tempo que Bolsonaro incentivava as pessoas a irem para a Amaz\u00f4nia fazer o garimpo de ouro, aqui no centro o garimpo era por ferro. Ent\u00e3o, voc\u00ea tinha essa rela\u00e7\u00e3o super d\u00fabia, em que tudo de ferro desaparecia. At\u00e9 que, umas duas semanas atr\u00e1s, eu estava aqui trabalhando, ouvi um barulho de pancada, abri a porta e era um cara tentando arrombar. Eu falei: &#8220;Oh, meu amigo, voc\u00ea est\u00e1 louco!&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o para mim \u00e9 importante, estar aqui no centro, lidar com essas pessoas\u2026 Eu tentei entender essa problem\u00e1tica por uma raz\u00e3o mais humana. E, voltando ao ponto do trabalho, percebi que estava ficando um pouco em fun\u00e7\u00e3o de terceirizar a produ\u00e7\u00e3o. E isso estava me incomodando. Eu me sentava no ateli\u00ea com o meu assistente, desenhava um projeto, mandava fazer e chegava pronto. Eu perdia toda essa parte processual e a parte humana de p\u00f4r a m\u00e3o na massa, que \u00e9 algo de que eu gosto tanto, e estava perdendo. Eu estava ficando t\u00e3o frio como todas as rela\u00e7\u00f5es humanas. Estava trancado, sem ver amigos, sem ver pessoas, sem ter contato com ningu\u00e9m, numa depress\u00e3o maluca, terceirizando obra como se fosse uma empresa. Isso estava me incomodando. Ent\u00e3o, eu falei: \u201cEu gosto de pintar, eu gosto de spray, vamos reinventar isso\u201d. Acredito que o humanismo vem dessa pr\u00e1tica como sendo a m\u00e3o do artista, do ato de fazer\u2026 Mas tamb\u00e9m repensar uma pintura que fosse conceitual, onde eu n\u00e3o coloco a m\u00e3o, porque uso uma lata de spray. Eu tenho uma pr\u00e1tica que \u00e9 muito mais relacionada a uma pintura industrial de port\u00e3o. Na verdade, para mim, \u00e9 como se fosse mais uma gravura do que uma pintura. Eu redesenho o port\u00e3o no computador, com nitidez, projeto e tra\u00e7o com uma caneta fosca. Depois, venho com o n\u00edvel de bolha, tirando e dando as medidas exatas, mascaro tudo com fita-crepe e venho com tinta spray. Eu tento usar uma tinta spray ruim, n\u00e3o uma tinta spray profissional de grafite, pois elas s\u00e3o pl\u00e1sticas, s\u00e3o chapadas, parece que voc\u00ea adesivou algo. Para mim, interessava um pouco a sujeira. Me interessava ver um pouco a translucidez da tinta, \u00e0s vezes, a cor volta, porque a tinta n\u00e3o cobre tanto, que \u00e9 uma tinta industrial para pintar carro mesmo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Sociedade_Anonima_2-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1883\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Sociedade An\u00f4nima 2, 2024<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcelo, voc\u00ea poderia nos contar um pouco mais sobre a exposi\u00e7\u00e3o em que est\u00e1 trabalhando atualmente? Como voc\u00ea planeja apresentar as obras no espa\u00e7o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o vai se chamar &#8220;P\u00e2nico na zona sul&#8221;. Em princ\u00edpio, \u00e9 um t\u00edtulo em homenagem \u00e0 m\u00fasica do Racionais MCs, mas tamb\u00e9m me interessa trazer essa no\u00e7\u00e3o de que sul \u00e9 esse. O Mano Brown fala da zona sul do Cap\u00e3o Redondo. Eu vim da zona oeste, do Tabo\u00e3o, mas, no Rio de Janeiro, temos essa diferen\u00e7a geogr\u00e1fica do sul de S\u00e3o Paulo e o sul do Rio. No Rio de Janeiro, a zona sul \u00e9 a \u00e1rea mais rica. Ent\u00e3o, o p\u00e2nico na zona sul \u00e9 sobre trazer o p\u00e2nico de S\u00e3o Paulo e jogar na zona sul do Rio. O espa\u00e7o \u00e9 uma galeria no formato <em>cubo branco<\/em>, e a minha ideia, a princ\u00edpio, era anular o cubo branco enchendo a galeria de cobertores de doa\u00e7\u00e3o, mas andei repensando o projeto expositivo e acho que como as pinturas s\u00e3o de grande escala, poderia acontecer uma redund\u00e2ncia\u2026 Os trabalhos que vou mostrar s\u00e3o cinco pinturas de tinta spray branco sobre cobertores de doa\u00e7\u00e3o, aqueles usados por moradores de rua durante o inverno aqui em S\u00e3o Paulo. As pinturas s\u00e3o feitas a partir de uma tipologia de port\u00f5es de garagens de carros de casas e pr\u00e9dios da cidade que venho pesquisando j\u00e1 h\u00e1 algum tempo. Essa s\u00e9rie se chama \u201c Sociedad Anonima\u201d. E tenho tamb\u00e9m os trabalhos que sao pinturas em que reproduzo, usando tinta spray branca, pinturas concretistas, de artistas como Alfredo Volpi, Ivan Cerpa e Judith Lauand, tamb\u00e9m sobre os cobertores, que se chamam \u201cProjeto (re) construtivo\u201d. Quero explorar n\u00e3o apenas o lado construtivista, mas tamb\u00e9m a c\u00f3pia de, atrav\u00e9s da apropria\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de falso construtivismo. E um projeto na fachada da galeria, chamado \u201chiper memoria arquitet\u00f4nica\u201d (galeria Athena), que funciona como um <em>sight specific<\/em>. Vou contruir na fachada a forma da antiga casa que havia no terreno, antes de ser galeria, uma restitui\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria arquitet\u00f4nica, usando chapas met\u00e1licas. Dessas que vemos nos canteiros de obras aqui em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um dos motivos de eu perguntar como vai ser exposto \u00e9 pensando que, quando voc\u00ea coloca os trabalhos no cubo branco, e algu\u00e9m sugere \u201cah, legal, mas vamos colocar uma moldura, certo?\u201d, ao colocar uma moldura, um vidro, ca\u00edmos novamente na armadilha da prote\u00e7\u00e3o, da separa\u00e7\u00e3o, de um outro escudo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Exatamente, A minha ideia \u00e9 fixar no prego e pendurar na parede mesmo. Me interessa a rela\u00e7\u00e3o entra a pintura (r\u00edgida) em rela\u00e7\u00e3o ao material do cobertor, que \u00e9 mais org\u00e2nico, por isso n\u00e3o me interesso no uso de um chassi (nesse caso). Mas ainda tenho algumas d\u00favidas, porque o tecido pode desgastar. Me interesso nessa rela\u00e7\u00e3o entre a rigidez da pintura e a maleabilidade do material, a deformidade. Ele n\u00e3o tem uma forma r\u00edgida, \u00e9 tudo meio molenga. Ent\u00e3o, estou desenvolvendo e seguindo para esse lado.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pensando tamb\u00e9m nesse movimento, os trabalhos da exposi\u00e7\u00e3o \u201cA ret\u00f3rica do poder\u201d, inspirados nas <\/strong><strong><em>black paintings<\/em><\/strong><strong> de Frank Stella, foram feitos com suportes de sapato?<\/strong> <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Sim\u2026 Mas\u2026 Aquelas n\u00e3o eram pinturas, eram objetos, era uma chapa canaletada de cor preta. Aquilo \u00e9 usado em mercados, em lojinhas de 99 centavos, eles colocam o ferro e enchem de produtos. \u00c9 como se fosse uma canaleta para voc\u00ea pendurar coisas. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>E, tamb\u00e9m pensando nesse aspecto formal dessa arquitetura, especialmente nos Estados Unidos, \u00e9 interessante observar, em contraste com a sua obra <\/strong><strong><em>Expans\u00e3o por subtra\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><strong>, onde se t\u00eam as molduras com os vidros quebrados. Essa estrat\u00e9gia de quebrar o vidro, coloc\u00e1-lo nos muros, no cimento ainda molhado, cria algo que \u00e9 quase o oposto dessa estrat\u00e9gia de separa\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 muito mais org\u00e2nica.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Esse trabalho vem de um outro, em que eu desenho uma janela, dividindo o cubo branco entre dentro e fora, mas cujo interior e exterior s\u00e3o iguais, e a \u00fanica coisa que divide \u00e9 esse caco de vidro. Nesse trabalho, o caco de vidro \u00e9 muito agressivo, pois est\u00e1 voltado para n\u00f3s. Quando eu mostrei na galeria, era um de cada lado, ent\u00e3o voc\u00ea chegava no espa\u00e7o e ficava no centro. Qualquer um que passasse muito perto se rasgava. Criava-se uma situa\u00e7\u00e3o realmente impositiva, mas, ao mesmo tempo, havia uma rela\u00e7\u00e3o muito direta com a hist\u00f3ria da arte, mais ainda com a pintura, com a ideia da moldura que divide o interior e o exterior da pintura. E essa pintura renascentista que sempre vai tentar reproduzir a ideia de perspectiva ou trazer a paisagem para dentro. Por exemplo, a ideia de trazer a paisagem da Fran\u00e7a para dentro de um castelo e essas rela\u00e7\u00f5es entre dentro e fora que me interessam. Esse trabalho vem dessa situa\u00e7\u00e3o realmente de ter os cacos de vidro no muro, mas eu o fiz primeiramente na Bienal de S\u00e3o Paulo, da qual eu participei com a Lisette Lagnado, em 2006, em que coloquei o caco de vidro em cima da parede onde estavam os trabalhos do Gordon Matta Clark. Esse trabalho funcionava quase como uma coroa de vidro para o Matta Clark. No entanto, ele ainda ficava escondido. Era como se fosse uma parede de mentira que ficava com um caquinho de vidro em cima e as obras embaixo. Quase como um ornamento. A luz batia, ficava bonito, ele ficava longe. Era agressivo, mas n\u00e3o protegia nada, estava apenas ali. E, nesse segundo momento, ele foi muito mais agressivo, porque tinha rela\u00e7\u00e3o direta com o corpo. Eram duas situa\u00e7\u00f5es opostas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/2014-05a-Marcelo-Cidade-Expansao-Continua.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3229\" style=\"width:1100px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/2014-05a-Marcelo-Cidade-Expansao-Continua.jpg 1000w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/2014-05a-Marcelo-Cidade-Expansao-Continua-300x200.jpg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/2014-05a-Marcelo-Cidade-Expansao-Continua-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Expans\u00e3o por subtra\u00e7\u00e3o, 2014<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>E como voc\u00ea v\u00ea na sua pesquisa esses diferentes n\u00edveis de arquitetura sendo utilizados para essa separa\u00e7\u00e3o? Porque n\u00f3s falamos sobre o caco de vidro, que \u00e9 uma classe baixa, a classe m\u00e9dia com os port\u00f5es. Tamb\u00e9m tem a quest\u00e3o social, em que o governo coloca essas barreiras.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A classe alta mora bem longe. No topo de um pr\u00e9dio, em Alphaville, sempre existem essas dist\u00e2ncias. A dist\u00e2ncia \u00e9 uma quest\u00e3o muito interessante para percebermos como a arquitetura moderna pode ou n\u00e3o funcionar. Quando fui a Bras\u00edlia pela primeira vez, comecei a entender como o modernismo funciona e como as dist\u00e2ncias entre o pobre e o rico s\u00e3o uma quest\u00e3o. Nas superquadras, voc\u00ea v\u00ea a natureza entrando nos pr\u00e9dios sem grades, tudo \u00e9 vol\u00e1til. Quando voc\u00ea passa de um lugar para o outro, \u00e9 funcional, porque n\u00e3o se previa a classe trabalhadora ali. Niemeyer j\u00e1 sabia muito bem onde a classe trabalhadora estaria, tanto que os limites de Bras\u00edlia s\u00e3o muito vis\u00edveis. Quando se vem do metr\u00f4, vemos Bras\u00edlia acabar e a cidade-sat\u00e9lite come\u00e7ar. E quando se chega \u00e0 cidade-sat\u00e9lite, vemos uma cidade como qualquer outra, subdividida, com todas as suas problem\u00e1ticas e caracter\u00edsticas.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A dist\u00e2ncia \u00e9 um elemento interessante e bastante sutil. Existem casas nos Jardins com entradas abertas, grandes jardins. Claro, h\u00e1 c\u00e2meras. Ent\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio que, para uma pessoa que quer invadir a casa, h\u00e1 essa barreira em que voc\u00ea se sente quase em um campo aberto, onde algu\u00e9m pode atirar em voc\u00ea a qualquer momento.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o Paulo \u00e9 uma cidade muito maluca em rela\u00e7\u00e3o a isso. N\u00f3s vimos nos anos 1950, com os empreendimentos privados dos jardins ou do City Lapa, que j\u00e1 se previam essas cidades como esses bairros de Los Angeles com muitas casas, arborizados, com ruas n\u00e3o muito grandes, mas com lugares afastados, onde a periferia n\u00e3o entra muito bem. Voc\u00ea pega um carro e vai para a City Lapa ou para o Alto de Pinheiros, as ruas s\u00e3o t\u00e3o curvas, s\u00e3o t\u00e3o grandes, que voc\u00ea se perde ali dentro, voc\u00ea precisa de um carro para chegar ali. E eu estou falando isso porque eu fui ver um projeto da Carla Jua\u00e7aba numa casa modernista em Alto de Pinheiros. Era uma casa modernista, super linda, e o muro da casa pequeno. Era maravilhoso. E ao lado era um pared\u00e3o enorme, cheio de arame farpado, c\u00e2mera. E eu estava conversando com uma arquiteta, sobrinha da dona da casa, que disse que nunca invadiram, justamente porque \u00e9 toda aberta. Isso me lembra um pouco a Holanda tamb\u00e9m, essa rela\u00e7\u00e3o da arquitetura de, quanto mais vis\u00edvel, aberta, voc\u00ea deixa a sua vida, menos voc\u00ea deve para a sociedade. E, nessa din\u00e2mica, ningu\u00e9m vai te assaltar, porque eles sabem que ali dentro n\u00e3o tem nada. Agora, quanto mais voc\u00ea protege o seu castelo, adicionando mais elementos de seguran\u00e7a, placas e outros, mais interesse desperta na pessoa para invadir, mesmo que voc\u00ea n\u00e3o tenha nada. Para mim, essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 muito intrigante. Eu saio de chinelos, converso com moradores de rua, ofere\u00e7o \u00e1gua. A pessoa entra aqui, toma \u00e1gua, usa o banheiro. Eu n\u00e3o tenho medo de ser assaltado, pois a pessoa sabe que eu n\u00e3o estou aqui ostentando um Rolex. Ent\u00e3o, acredito que essa rela\u00e7\u00e3o entre viol\u00eancia e a invas\u00e3o do espa\u00e7o privado tem muito a ver com como voc\u00ea se comporta na sociedade. Se voc\u00ea anda em um carro importado com um Rolex em um lugar de baixa renda, est\u00e1 estimulando a raiva social e acentuando as diferen\u00e7as. E essa diferen\u00e7a muitas vezes \u00e9 o que gera a viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Isso acaba criando uma esp\u00e9cie de duplo antagonismo, essa discord\u00e2ncia da sociedade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>E essa \u00e9 uma quest\u00e3o de trazer o humano de volta. Na verdade, o meu grande projeto humano para S\u00e3o Paulo \u00e9 tentar tirar grades de todos os lugares. Um dia desses, eu estava vendo algumas fotos de Higien\u00f3polis dos anos 1950\/1960, fotos dos pr\u00e9dios modernistas, e nenhum tinha grade. Era tudo vazado, o jardim ia at\u00e9 a cal\u00e7ada, as pessoas podiam se sentar l\u00e1. Hoje em dia, \u00e9 tudo grade. Isso \u00e9 fruto de um medo social. A cidade \u00e9 realmente exaustiva, as pessoas vivem com medo e h\u00e1 falta de troca humana porque h\u00e1 cada vez menos espa\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Me faz lembrar de quando o Shopping Cidade Jardim foi inaugurado e n\u00e3o era poss\u00edvel chegar l\u00e1 sem carro. Porque, pensando agora nos novos projetos arquitet\u00f4nicos de S\u00e3o Paulo, mesmo aqueles que t\u00eam um interesse no p\u00fablico caem nessas armadilhas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia \u00e0 m\u00e3o armada \u00e9 a que menos me atinge, mas convivo com todos os outros tipos de viol\u00eancia gerados pela desigualdade social, por exemplo: no inverno, eu tenho que pular corpos para chegar aqui. Literalmente. Quando eu n\u00e3o venho de bicicleta, eu venho a p\u00e9, passo embaixo do Minhoc\u00e3o. Limpar fezes humanas aqui na porta do meu ateli\u00ea virou pr\u00e1tica comum. No come\u00e7o, eu me assustava muito. Hoje em dia, eu j\u00e1 dou conta, e me sinto muito bem. O que o cara vai fazer? N\u00e3o tem banheiro p\u00fablico. O cara precisa defecar. Eu adoraria chegar aqui e fazer uma pintura linda, a \u00f3leo, bonitinha, uma paisagem do mar. Mas n\u00e3o, minha vida \u00e9 lidar com esses contrastes e traduzi-los para a realidade do cubo branco, de colecionadores, de pessoas que consomem arte, e mostrar que isso tamb\u00e9m existe, que n\u00f3s vivemos isso. O meu trabalho \u00e9 viver essa situa\u00e7\u00e3o. Coexistir.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Entrevista realizada em 11 de mar\u00e7o de 2024, no est\u00fadio do artista localizado no bairro da Barra funda em S\u00e3o Paulo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-3 is-cropped has-lightbox wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" data-id=\"1901\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/MG_8164-copy-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1901\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Deus assima de todos<br>Painel Canaletado, suportes met\u00e1licos, escapamento de carro<br>231,5 x 200 x 51 cm<br>2021<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" data-id=\"1897\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Irregulares_Marina-Lima_2-1-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1897\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Irregular 02<br>Concreto, arma\u00e7\u00e3o de a\u00e7o, argila expandida<br>264 x 198 x 162 cm \/ 3 toneladas<br>2022<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" data-id=\"1895\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/P_Concreto82_JL-1-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1895\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Projeto (re)contrutivo: Concreto 82, J.L<br>Tinta spray sobre cobertor de doa\u00e7\u00e3o( Aglomerado T\u00eaxtil)<br>197 x 166 cm<br>2024<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" data-id=\"1893\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Sociedade_Anonima_2-1-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1893\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Sociedade An\u00f4nima 2<br>Tinta spray sobre cobertor de doa\u00e7\u00e3o (aglomerado t\u00eaxtil)<br>208 x 290 cm<br>2024<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"667\" data-id=\"3232\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/2014-05a-Marcelo-Cidade-Expansao-Continua-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3232\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/2014-05a-Marcelo-Cidade-Expansao-Continua-1.jpg 1000w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/2014-05a-Marcelo-Cidade-Expansao-Continua-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/2014-05a-Marcelo-Cidade-Expansao-Continua-1-768x512.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Expans\u00e3o por subtra\u00e7\u00e3o<br>Espelho<br>400 x 360 x 5 cm<br>2014<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcelo Cidade explora tens\u00f5es urbanas entre p\u00fablico e privado, examinando estruturas arquitet\u00f4nicas e seu impacto na cidade<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2028,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_coblocks_attr":"","_coblocks_dimensions":"","_coblocks_responsive_height":"","_coblocks_accordion_ie_support":"","inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[37,50],"class_list":["post-2027","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","tag-escultura","tag-sao-paulo-pt-br"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/art100.in\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2027","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/art100.in\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/art100.in\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/art100.in\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/art100.in\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2027"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/art100.in\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2027\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3234,"href":"https:\/\/art100.in\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2027\/revisions\/3234"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/art100.in\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2028"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/art100.in\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2027"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/art100.in\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2027"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/art100.in\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2027"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}