{"id":2311,"date":"2025-12-09T08:00:00","date_gmt":"2025-12-09T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/art100.in\/?p=2311"},"modified":"2025-11-27T12:53:15","modified_gmt":"2025-11-27T12:53:15","slug":"tales-frey","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/art100.in\/pt-br\/tales-frey\/","title":{"rendered":"Tales frey"},"content":{"rendered":"\n<p>Tales Frey (Catanduva, 1982) \u00e9 um artista transdisciplinar cujo trabalho desafia as normas convencionais sobre g\u00eanero, corpo e espa\u00e7o. Sua jornada art\u00edstica come\u00e7ou no teatro, onde explorou v\u00e1rios pap\u00e9is, desde atua\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o at\u00e9 figurino e cenografia. Contudo, foi na performance que Frey encontrou n\u00e3o s\u00f3 um meio de express\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma plataforma para experimenta\u00e7\u00e3o pessoal e social. Em suas performances, o corpo assume um papel protagonista, servindo como ferramenta para questionar e desafiar conceitos de identidade, g\u00eanero e express\u00e3o corporal. Na entrevista, o artista explora as diferentes formas de documenta\u00e7\u00e3o de suas performances ao vivo, como a videoarte, fotografia e objetos de arte, e como suas experi\u00eancias pessoais moldaram sua abordagem \u00e0s artes perform\u00e1ticas e visuais. Confira:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"2560\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Tales-Frey_Photo_-Carlos-Campos-2-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2320\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Tales-Frey_Photo_-Carlos-Campos-2-scaled.jpg 2560w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Tales-Frey_Photo_-Carlos-Campos-2-300x300.jpg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Tales-Frey_Photo_-Carlos-Campos-2-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Tales-Frey_Photo_-Carlos-Campos-2-150x150.jpg 150w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Tales-Frey_Photo_-Carlos-Campos-2-768x768.jpg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Tales-Frey_Photo_-Carlos-Campos-2-1536x1536.jpg 1536w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Tales-Frey_Photo_-Carlos-Campos-2-2048x2048.jpg 2048w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Tales-Frey_Photo_-Carlos-Campos-2-650x650.jpg 650w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Tales-Frey_Photo_-Carlos-Campos-2-1300x1300.jpg 1300w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tales, primeiramente, muito obrigado por separar esse tempo para falar com a gente. Eu queria pedir para voc\u00ea se apresentar, com qualquer informa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea ache relevante para um p\u00fablico que ainda n\u00e3o conhece a sua pr\u00e1tica art\u00edstica.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Meu nome \u00e9 Tales Frey, eu tenho 41 anos, nasci no interior de S\u00e3o Paulo, no noroeste do estado de S\u00e3o Paulo, numa cidade chamada Catanduva. Eu sa\u00ed muito cedo de l\u00e1 para viver com o meu pai na capital de S\u00e3o Paulo e depois me mudei para o Rio de Janeiro, onde eu fiz a minha gradua\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o teatral na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). At\u00e9 ent\u00e3o, eu tinha como principal meio de express\u00e3o art\u00edstica as artes c\u00eanicas, o teatro propriamente dito. E o teatro n\u00e3o era um meio de express\u00e3o atrav\u00e9s do qual eu s\u00f3 me realizava trabalhando como ator ou como diretor, eu tamb\u00e9m trabalhava como figurinista, como cen\u00f3grafo, experimentava fun\u00e7\u00f5es diversas. Comecei muito cedo, com 11 anos de idade. Comecei fazendo teatro amador, mas, j\u00e1 nesse momento, eu estava muito atento a todas as etapas do processo de cria\u00e7\u00e3o at\u00e9 a concretiza\u00e7\u00e3o de uma pe\u00e7a. E, embora eu gostasse muito dos processos todos, sentia falta de desenvolver um projeto completamente autoral. Ent\u00e3o, busquei a dire\u00e7\u00e3o teatral \u00e0 procura dessa possibilidade de criar trabalhos mais autorais.<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente, estudei tamb\u00e9m indument\u00e1ria, ent\u00e3o acabei desenvolvendo habilidades nessa \u00e1rea, que me fez ter contato com outras t\u00e9cnicas e, inclusive, com trabalhos que est\u00e3o nos bastidores. At\u00e9 2008, o meu principal meio de express\u00e3o era o teatro, mas eu j\u00e1 gostava da linguagem da performance. Em 2002, eu comecei a experimentar a performance sem ter muita no\u00e7\u00e3o do que era o g\u00eanero art\u00edstico ainda, sem conhecer a teoria e hist\u00f3ria da performance. Eu passei a entender o que era essa express\u00e3o art\u00edstica, no sentido de conhecer conceitualmente a performance, em 2006, quando fui aluno da Eleonora Fabi\u00e3o, que \u00e9 uma grande refer\u00eancia do campo. E, nesse momento, eu tinha muito interesse pela performance, mas, \u00e0quela altura, isso n\u00e3o me rendia grande coisa financeiramente e, ent\u00e3o, para sobreviver, eu trabalhava no teatro e, paralelamente, com o dinheiro que eu ganhava, criava meus projetos autorais em performance.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2008, eu me mudei para o Porto, em Portugal, para fazer o meu mestrado em Teoria e Cr\u00edtica da Arte, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Depois, acabei ficando no pa\u00eds para o meu doutorado em Estudos Teatrais e Performativos, que eu fiz pela Universidade de Coimbra. At\u00e9 hoje (2024) eu moro na cidade do Porto e aqui eu tamb\u00e9m mantenho meu ateli\u00ea. Eu trabalho aqui na cidade, mas n\u00e3o s\u00f3. Eu, na verdade, fa\u00e7o v\u00e1rias resid\u00eancias art\u00edsticas, apresento trabalho em diversas localidades, ent\u00e3o, no fim das contas, estou em contextos variados sempre. Mas eu posso dizer que tem dois contextos em que frequentemente estou fazendo ou produzindo algo: por exemplo, quando eu vou para o estado de S\u00e3o Paulo, o interior \u00e9 meu ref\u00fagio, \u00e9 a casa dos meus pais, onde eu tenho minhas coisas, tenho meu acervo, espa\u00e7o para trabalho, enquanto, na capital do estado de S\u00e3o Paulo, eu tenho a galeria que me representa no Brasil, que \u00e9 a Verve. No Porto, eu tenho o meu ateli\u00ea e minha casa. Ent\u00e3o, esses dois lugares \u2013 o estado de S\u00e3o Paulo e a cidade do Porto \u2013 s\u00e3o lugares em que realmente estou sempre.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E, al\u00e9m de artista, eu sou professor na Universidade do Minho \u2013 uma excelente universidade p\u00fablica do norte de Portugal \u2013 e isso sublinha uma maneira como sempre gostei de trabalhar, conciliando investiga\u00e7\u00e3o te\u00f3rica com a pr\u00e1tica art\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pensando na performance e na forma como a sua obra se desdobra tamb\u00e9m no v\u00eddeo e no objeto, como \u00e9 para voc\u00ea essa negocia\u00e7\u00e3o entre diferentes elementos que, talvez, podemos argumentar, criam diferentes corpos de trabalho?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<div class=\"wonderpluginaudio\" id=\"wonderpluginaudio-57\" data-audioplayerid=\"57\" data-width=\"24\" data-height=\"600\" data-skin=\"button24\" data-progressinbar=\"false\" data-showinfo=\"false\" data-showimage=\"false\" data-autoplay=\"false\" data-random=\"false\" data-autoresize=\"false\" data-responsive=\"false\" data-showtracklist=\"false\" data-tracklistscroll=\"true\" data-showprogress=\"false\" data-showprevnext=\"false\" data-showloop=\"false\" data-stopotherplayers=\"true\" data-preloadaudio=\"true\" data-noncontinous=\"false\" data-showtracklistsearch=\"false\" data-saveposincookie=\"false\" data-wptracklist=\"false\" data-removeinlinecss=\"true\" data-enabletabindex=\"false\" data-showtime=\"false\" data-showvolume=\"false\" data-showvolumebar=\"false\" data-showliveplayedlist=\"false\" data-stoponpausebutton=\"false\" data-reloadstream=\"false\" data-playpausefontcircle=\"true\" data-prevnextfontcircle=\"true\" data-showtitleinbar=\"false\" data-showloading=\"false\" data-enablega=\"false\" data-titleinbarscroll=\"true\" data-donotinit=\"false\" data-addinitscript=\"false\" data-imagewidth=\"100\" data-imageheight=\"100\" data-loop=\"0\" data-tracklistitem=\"10\" data-titleinbarwidth=\"80\" data-gatrackingid=\"\" data-ga4account=\"\" data-playbackrate=\"1\" data-playpauseimage=\"playpause-24-24-2.png\" data-playpauseimagewidth=\"24\" data-playpauseimageheight=\"24\" data-cookiehours=\"240\" data-prevnextimage=\"prevnext-24-24-0.png\" data-prevnextimagewidth=\"24\" data-prevnextimageheight=\"24\" data-volumeimage=\"volume-24-24-2.png\" data-volumeimagewidth=\"24\" data-volumeimageheight=\"24\" data-liveupdateinterval=\"10000\" data-maxplayedlist=\"8\" data-playedlisttitle=\"Last Tracks Played\" data-loopimage=\"loop-24-24-2.png\" data-loopimagewidth=\"24\" data-loopimageheight=\"24\" data-playpausefontwidth=\"32\" data-playpausefontheight=\"32\" data-playpausefontsize=\"12\" data-playpausefontradius=\"0\" data-playpausefontcolor=\"#fff\" data-playpausefontbgcolor=\"#333\" data-playpausefonthovercolor=\"#fff\" data-playpausefonthoverbgcolor=\"#555\" data-prevnextfontwidth=\"32\" data-prevnextfontheight=\"32\" data-prevnextfontsize=\"12\" data-prevnextfontradius=\"0\" data-prevnextfontcolor=\"#fff\" data-prevnextfontbgcolor=\"#333\" data-prevnextfonthovercolor=\"#fff\" data-prevnextfonthoverbgcolor=\"#555\" data-infoformat=\"\" data-tracklistscroll=\"false\" data-jsfolder=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/plugins\/wonderplugin-audio\/engine\/\" style=\"display:block;position:relative;margin:0 auto;width:24px;height:auto;\"><ul class=\"amazingaudioplayer-audios\" style=\"display:none;\"><li data-artist=\"\" data-title=\"Tales Frey - Audio site 1-esv1-75p\" data-album=\"\" data-info=\"&quot;Tales Frey - Audio site 1-esv1-75p&quot;.\" data-image=\"https:\/\/art100.in\/wp-includes\/images\/media\/audio.svg\" data-duration=\"33\"><div class=\"amazingaudioplayer-source\" data-src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Tales-Frey-Audio-site-1-esv1-75p.wav\" data-type=\"audio\/mpeg\" ><\/div><\/li><\/ul><\/div><script>function wonderaudio_57_appendcss(csscode) {var head=document.head || document.getElementsByTagName(\"head\")[0];var style=document.createElement(\"style\");head.appendChild(style);style.type=\"text\/css\";if (style.styleSheet){style.styleSheet.cssText=csscode;} else {style.appendChild(document.createTextNode(csscode));}};wonderaudio_57_appendcss(\"#wonderpluginaudio-57 { \tbox-sizing: content-box; 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Eu n\u00e3o tenho muitas t\u00e9cnicas espec\u00edficas. Ou, melhor dizendo, eu posso at\u00e9 falar que eu sou um artista indisciplinado, porque eu trabalho sem, necessariamente, uma t\u00e9cnica. Ent\u00e3o, como eu disse, o meu meio principal de express\u00e3o art\u00edstica por muito tempo foi a performance e, sendo uma pessoa habilitada para fazer arte ao vivo, o que acaba acontecendo \u00e9 que as minhas principais t\u00e9cnicas v\u00eam das artes c\u00eanicas.<\/em><\/strong> E a\u00ed eu posso ainda dizer que, tendo forma\u00e7\u00e3o em teoria e cr\u00edtica da arte, eu tenho tamb\u00e9m t\u00e9cnica para produzir escrita. Juntando essas duas habilita\u00e7\u00f5es, da escrita e da pr\u00e1tica nas artes c\u00eanicas, digamos assim, com as forma\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas que foram adquiridas, eu acabo desdobrando esses saberes para me atrever em cria\u00e7\u00f5es que s\u00e3o amparadas por linguagens variadas. Ent\u00e3o, a partir de cria\u00e7\u00f5es em performance, por exemplo, por conta das necessidades de documenta\u00e7\u00e3o das situa\u00e7\u00f5es ef\u00eameras, das a\u00e7\u00f5es ao vivo, surgiram os meus primeiros experimentos em v\u00eddeo e fotografia. Eu comecei a desdobrar de fato a minha pesquisa para a apresenta\u00e7\u00e3o do trabalho em formato de v\u00eddeo e fotografia de 2010 em diante, mas eu filmava e fotografava as minhas a\u00e7\u00f5es desde 2006 \u2013 e eu fazia isso sem pensar no potencial do desdobramento como um trabalho aut\u00f4nomo, ou seja, ainda n\u00e3o pensava na fotografia, no v\u00eddeo e em outras documenta\u00e7\u00f5es apresentadas autonomamente como linguagens espec\u00edficas que j\u00e1 se diferenciavam da performance original.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Minhas primeiras materializa\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o mais escult\u00f3ricas, objetuais, surgiram tamb\u00e9m das minhas cria\u00e7\u00f5es em performance. E os primeiros objetos que eu elaborei inicialmente eram indumentos, trajes que serviam para as performances. Depois, eu fui percebendo que alguns tinham essa tal autonomia de que eu falei, que eles podiam carregar tra\u00e7os das a\u00e7\u00f5es ao vivo e, ao mesmo tempo, que eles poderiam tamb\u00e9m ser expostos de modo independente, como obras independentes.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-video\"><video height=\"1080\" style=\"aspect-ratio: 1920 \/ 1080;\" width=\"1920\" controls src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/be_on_you-1080p.mp4\"><\/video><figcaption class=\"wp-element-caption\">Be (On) You, 2016 I V\u00eddeo, 2\u201947\u201d<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Talvez possamos falar um pouco sobre a obra <em>Estar a par <\/em>(2017). Acredito que ela toca em todos esses pontos. Como essa obra come\u00e7a? A partir do objeto ou da performance?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 curioso o modo como essa obra surge. Em 2016, eu estava fazendo uma performance na Bienal Horas Perdidas, em Monterrey, no M\u00e9xico, onde fui apresentar um trabalho de performance que consistia em beijar por uma hora ininterruptamente um espelho de dupla face com a participa\u00e7\u00e3o da Hilda de Paulo, com quem eu sou casado. Isso aconteceu antes da transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero dela, portanto, a Hilda era apresentada publicamente, naquela situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, como uma identidade masculina cisg\u00eanera. Ent\u00e3o, a leitura que as pessoas faziam dessa situa\u00e7\u00e3o \u2013 duas pessoas beijando o mesmo espelho \u2013 era de que havia a composi\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o homoafetiva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa a\u00e7\u00e3o duracional, para a qual dei o t\u00edtulo de <em>Be (on) You<\/em> (2016), o espelho subvertia o beijo, propondo um jogo narcisista, pois n\u00e3o havia um beijo em que os nossos l\u00e1bios se tocavam; est\u00e1vamos intermediados pelo espelho. E, enquanto eu executava essa a\u00e7\u00e3o com a Hilda, comecei a perceber que o meu corpo estava muito bem ajustado ao dela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Anteriormente \u00e0 a\u00e7\u00e3o do M\u00e9xico, eu havia feito uma a\u00e7\u00e3o parecida em outros contextos, mas sob outro t\u00edtulo, por abarcar significados bem distintos de <em>Be (on) You<\/em>. Os trajes eram trocados de acordo com certas conven\u00e7\u00f5es sociais e, ent\u00e3o, na tal proposta anterior, <em>F2M2M2F<\/em> (2015), eu usava salto alto, roupas e acess\u00f3rios considerados femininos, e n\u00e3o contava com a colabora\u00e7\u00e3o da Hilda de Paulo, mas sim com a de alguma outra parceira, e elas eram sempre muito menores do que eu e usavam roupas ditas &#8220;masculinas&#8221;, ou seja, sapatos baixos. A movimenta\u00e7\u00e3o, no caso de <em>F2M2M2F<\/em> era mais desajustada devido \u00e0s alturas distintas, real\u00e7adas pelos sapatos usados por cada performer, e, ainda, n\u00e3o havia tanta familiaridade entre mim e as parceiras que executavam a a\u00e7\u00e3o comigo, pelo menos n\u00e3o do mesmo modo como tenho com a Hilda, com quem sou casado h\u00e1 16 anos. Ent\u00e3o, quando eu fiz a performance <em>Be (on) You<\/em> com a Hilda, tudo ficou muito mais simples e, devido \u00e0 facilidade gerada pela harmonia dos nossos corpos, pelo uso dos trajes masculinos (sapatos baixos, portanto), de repente, n\u00f3s come\u00e7amos a transitar pelo espa\u00e7o com os p\u00e9s quase conectados pelas pontas; est\u00e1vamos em total sintonia.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi ent\u00e3o que eu tive o <em>insight<\/em> de criar uns sapatos que for\u00e7assem os nossos corpos ao conv\u00edvio. Naquele instante, enquanto eu fazia a performance por uma hora, eu concebi um trabalho de um modo muit\u00edssimo intuitivo. E <em>Estar a par<\/em> \u00e9 justamente o primeiro trabalho objetual que eu criei, que pode realmente ser apresentado independentemente da performance. Posso dizer que, inicialmente, elaborei os sapatos de <em>Estar a par<\/em> para servirem a uma performance, por\u00e9m, os sapatos foram pensados conceitualmente durante uma performance que nem era a que tinha os sapatos como elementos fundamentais.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho surgiu em 2017 e, a partir dele, consegui criar uma s\u00e9rie de indumentos dentro dessa tem\u00e1tica de colocar corpos em conv\u00edvio. A ideia \u00e9 pensar em harmoniza\u00e7\u00f5es entre diferen\u00e7as, em colocar pessoas, singularidades distintas, para conviver e viver uma experi\u00eancia desafiadora, na qual tenham que se harmonizar para que a situa\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a da melhor maneira poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-9d6595d7 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:100%\">\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-2 is-cropped has-lightbox wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1696\" data-id=\"2327\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Estar-a-Par-2017-scaled.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2327\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Estar-a-Par-2017-scaled.jpeg 2560w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Estar-a-Par-2017-300x199.jpeg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Estar-a-Par-2017-1024x679.jpeg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Estar-a-Par-2017-768x509.jpeg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Estar-a-Par-2017-1536x1018.jpeg 1536w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Estar-a-Par-2017-2048x1357.jpeg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1696\" data-id=\"2325\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Estar-a-Par-20171-scaled.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2325\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Estar-a-Par-20171-scaled.jpeg 2560w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Estar-a-Par-20171-300x199.jpeg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Estar-a-Par-20171-1024x678.jpeg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Estar-a-Par-20171-768x509.jpeg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Estar-a-Par-20171-1536x1017.jpeg 1536w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Estar-a-Par-20171-2048x1357.jpeg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption wp-element-caption\">Estar a Par, 2017<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ent\u00e3o esse trabalho come\u00e7ou com o objeto, depois se transformou em uma performance e resultou em um v\u00eddeo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Eu pensei o objeto n\u00e3o para que fosse apresentado autonomamente, mas para que servisse a uma performance. Toda vez que a gente fazia a a\u00e7\u00e3o, o p\u00fablico ficava fascinado com a nossa facilidade de transitar juntos pelo espa\u00e7o, e me pedia para usar o par de sapatos. Sempre que acontecia isso da audi\u00eancia querer experimentar o par de sapatos, eu tinha a ideia de possibilitar que eles o utilizassem. E como a numera\u00e7\u00e3o dos sapatos \u00e9 grande, muitos p\u00e9s se ajustam ali dentro. Pode acontecer de ficar um pouco apertado ou um pouco largo. Os p\u00e9s de quem quiser usar os sapatos podem n\u00e3o ficar perfeitamente ajustados, mas o trabalho em si tamb\u00e9m pode carregar um outro signo, visto que nossos corpos n\u00e3o necessariamente v\u00e3o estar bem ajustados a todos os espa\u00e7os. Surge assim uma camada simb\u00f3lica nova para esse mesmo trabalho.E a realiza\u00e7\u00e3o em v\u00eddeo \u00e9 porque eu sou o &#8220;man\u00edaco da documenta\u00e7\u00e3o&#8221;. Gosto de documentar tudo e depois ver se aquilo tem algum potencial para ser apresentado de modo separado do trabalho ao vivo. Eu gostei muito de uma das primeiras experi\u00eancias que fiz com Hilda, que foi num estacionamento, e nessa situa\u00e7\u00e3o surgiu um v\u00eddeo que adoro, mas depois n\u00f3s desenvolvemos tanta habilidade com os sapatos que desdobrei o trabalho para v\u00e1rios outros formatos. Eu o apresento como d\u00edptico fotogr\u00e1fico, como uma \u00fanica foto em que eu estou com a Hilda, e fiz ainda dois outros v\u00eddeos da a\u00e7\u00e3o: uma documenta\u00e7\u00e3o da apresenta\u00e7\u00e3o que fiz na BienalSur, em Buenos Aires, no MUNTREF, em 2019, e um v\u00eddeo realizado em est\u00fadio \u2013 para o qual dei o t\u00edtulo de <em>Estar a par \u2013 Passo a passo<\/em> (2019), onde apresento somente os p\u00e9s mostrando todos (ou quase todos) os passos que descobrimos ao longo do processo. \u00c9 importante mencionar que realizamos a a\u00e7\u00e3o sempre sem nenhum ensaio pr\u00e9vio. Tudo que \u00e9 descoberto acontece continuamente durante cada apresenta\u00e7\u00e3o dessa a\u00e7\u00e3o. E, durante as experi\u00eancias, houve um ac\u00famulo de passos descobertos. Esse ac\u00famulo foi todo compactado em <em>Estar a par &#8211; Passo a passo<\/em>, que \u00e9 um dos muitos desdobramento de um mesmo trabalho.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-video\"><video height=\"1080\" style=\"aspect-ratio: 1920 \/ 1080;\" width=\"1920\" controls src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/estar_a_par_passo_a_passo-1080p.mp4\"><\/video><figcaption class=\"wp-element-caption\">Estar a Par &#8211; Passo a Passo, 2019 I V\u00eddeo, 1\u201949\u2019\u2019<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voltando um pouco, quando voc\u00ea comentou de algumas das performances do espelho, em que voc\u00ea trocou as vestimentas, eu queria conectar isso com o trabalho <em>Vestido <\/em>(2014), que \u00e9 um pouco mais antigo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O <em>Vestido<\/em> \u00e9 um trabalho bem interessante, que ainda ressoa bastante nos meus projetos. Comecei a conceb\u00ea-lo em 2014, enquanto visitava v\u00e1rias lojas de vestidos de casamento numa mesma rua aqui da cidade do Porto. Queria fazer um trabalho novo, mas n\u00e3o sabia bem o que, ent\u00e3o decidi buscar uma nova metodologia de cria\u00e7\u00e3o. Fui como algu\u00e9m que vai fazer uma experi\u00eancia antropol\u00f3gica. Fui tentar sondar se conseguiria provar o vestido que estivesse na vitrine. A ideia era, com isso, coletar informa\u00e7\u00f5es ali, quaisquer que me inspirassem para um trabalho. Coloquei um gravador no bolso e pedi para fazer a prova. Foi surpreendente, porque o processo me ensinou muita coisa, e minha linguagem foi sendo transformada a cada experi\u00eancia. Na primeira loja, entrei e falei: \u201cah, eu queria provar aquele vestido\u201d. E a\u00ed a pessoa disse: \u201co de noivo?\u201d E a\u00ed eu falei: \u201cn\u00e3o, o de noiva\u201d. De modo autom\u00e1tico, eu estava dando g\u00eanero para um objeto (o vestido). Com isso, entendi que n\u00e3o poderia falar \u201cvestido de noiva\u201d, e sim \u201cvestido de casamento\u201d. Ent\u00e3o, no processo, aprendi v\u00e1rias coisas, e tamb\u00e9m me surpreendeu positivamente como as pessoas nunca perguntavam se eu estava procurando o vestido para teatro ou para qualquer outra finalidade art\u00edstica. Logo na primeira loja, a pessoa me perguntou apenas a data do casamento. Eu percebi que, para ela, estava tudo bem, ela n\u00e3o criou nenhum impedimento. Isso me mostrou uma sociedade com uma certa abertura naquele contexto de 2014 para 2015. Foi durante o processo que eu fui percebendo que algumas lojas poderiam negar. E quando negassem? O que eu ia acumular de documenta\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia? Ent\u00e3o, eu decidi fotografar o vestido na vitrine, caso n\u00e3o permitissem que eu o provasse. Quando eu conseguisse fazer a prova, coloquei como regra que deveria fazer uma selfie vestindo o traje. No final de tudo, o dispositivo do trabalho ficou sendo uma compila\u00e7\u00e3o das fotografias com uma narrativa sint\u00e9tica de cada uma das imagens, o que resume cada experi\u00eancia vivida.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, estou trabalhando em um novo projeto, que consiste em provas de sapatos de salto alto. Eu vou at\u00e9 as lojas especializadas e, muitas vezes, eu me deparo com afirma\u00e7\u00f5es do tipo: \u201ca numera\u00e7\u00e3o feminina vai at\u00e9 o 39\u201d. Dificilmente (posso dizer que nunca) encontro sapatos de salto da vitrine que sirvam nos meus p\u00e9s. Percebi que a prova de sapatos faz at\u00e9 mais sentido do que o vestido de casamento para tais discuss\u00f5es, porque normalmente consigo realmente vestir os trajes de casamento que se ajustam ao meu corpo, mas os sapatos eu nunca consigo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full has-lightbox\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1707\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Vestido_2014-1-scaled.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2330\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Vestido_2014-1-scaled.jpeg 2560w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Vestido_2014-1-300x200.jpeg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Vestido_2014-1-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Vestido_2014-1-768x512.jpeg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Vestido_2014-1-1536x1024.jpeg 1536w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Vestido_2014-1-2048x1365.jpeg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Vestido, 2014<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ent\u00e3o essa performance dos sapatos \u00e9 feita com um processo similar, ir at\u00e9 a loja, pedir a numera\u00e7\u00e3o&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O processo \u00e9 similar, mas o dispositivo desse projeto, chamado<em> Cal\u00e7ado <\/em>(2024),<em> <\/em>acaba sendo esteticamente mais arrojado, porque tem uma composi\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima da colagem. No caso, eu n\u00e3o tiro fotos de sapatos nas vitrines, porque, em geral, as pessoas me permitem experiment\u00e1-los, mas os sapatos nunca cabem perfeitamente nos meus p\u00e9s. Os textos que narram as experi\u00eancias vividas s\u00e3o bem mais sint\u00e9ticos e, quase sempre, s\u00e3o resumidos a determinada afirma\u00e7\u00e3o absurda dirigida a mim. Na composi\u00e7\u00e3o, eu dei um tratamento est\u00e9tico diferenciado em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro projeto, que era simplesmente a apresenta\u00e7\u00e3o de fotografias e textos ladeados. Nesse segundo caso, eu pensei de fato na composi\u00e7\u00e3o de corpos mais h\u00edbridos, conectando p\u00e9s, formando muitas duplas estranhas e alguns p\u00e9s solit\u00e1rios. Inclusive, essa jun\u00e7\u00e3o de pernas e\/ou de p\u00e9s \u00e9 algo muito recorrente nos meus exerc\u00edcios est\u00e9ticos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Me parece que tamb\u00e9m existe um aspecto temporal na forma como acessamos lojas e produtos. Por exemplo, se eu quisesse comprar um sapato feminino hoje, provavelmente compraria online. Ouvir voc\u00ea falar sobre ir \u00e0 loja e pedir um n\u00famero me lembra muito mais da minha inf\u00e2ncia. Ent\u00e3o, existe esse reconhecimento temporal de como o consumo acontece e como ele tem mudado ultimamente.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, ele \u00e9 menos presencial. A nossa rela\u00e7\u00e3o com a vida em geral \u00e9 menos presencial. Eu tenho essa tend\u00eancia de gostar de ver e tocar. Muito raramente eu compro coisas online, principalmente vestu\u00e1rio, a n\u00e3o ser que eu quisesse mesmo um sapato que me servisse, a\u00ed sim eu buscaria lojas especializadas online. Mas isso \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o de como h\u00e1 uma exclus\u00e3o para determinados corpos na sociedade, porque um corpo que n\u00e3o se enquadra num padr\u00e3o hegem\u00f4nico n\u00e3o pode simplesmente transitar por uma cal\u00e7ada e se apaixonar por um par de sapatos e querer comprar os tais sapatos da mesma forma que os corpos que atendem aos padr\u00f5es podem. H\u00e1 uma diferencia\u00e7\u00e3o que est\u00e1 expl\u00edcita nessa rela\u00e7\u00e3o, e \u00e9 ela que eu quero denunciar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1707\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Calcado-2024-scaled.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2340\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Calcado-2024-scaled.jpeg 2560w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Calcado-2024-300x200.jpeg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Calcado-2024-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Calcado-2024-768x512.jpeg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Calcado-2024-1536x1024.jpeg 1536w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Calcado-2024-2048x1365.jpeg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cal\u00e7ado, 2024<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como voc\u00ea percebe essa den\u00fancia? Ela ocorre em v\u00e1rios n\u00edveis. Voc\u00ea observa essas exclus\u00f5es somente no \u00e2mbito do masculino e feminino, ou tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o a tamanhos e formas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que \u00e9 para al\u00e9m do masculino e feminino. \u00c9 um padr\u00e3o corp\u00f3reo que deve atender \u00e0 exig\u00eancia capitalista, no sentido de constru\u00e7\u00e3o do corpo. N\u00e3o se trata apenas do que consumimos, mas tamb\u00e9m de como constru\u00edmos nosso corpo. Somos induzidos o tempo todo a buscar a magreza, o corpo sarado. Somos bombardeados por informa\u00e7\u00f5es para buscar esse corpo dito \u201cideal\u201d. Percebemos isso at\u00e9 nesse tipo de adestramento que existe quando vamos comprar algo e n\u00e3o tem o nosso tamanho. J\u00e1 \u00e9 uma maneira de nos fazer entender que tipo de corpo dever\u00edamos ter. O modo de funcionamento capitalista nos condiciona, nos adestra e nos obriga a estar de acordo com formas j\u00e1 dispon\u00edveis, j\u00e1 dadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Inclusive, nesse projeto em que eu crio rela\u00e7\u00f5es com sapatos, eu estou construindo uma escultura em grande escala que eu chamo de <em>Stiletto Dance <\/em>(2024), algo in\u00e9dito na minha pr\u00e1tica, e que est\u00e1 em processo de elabora\u00e7\u00e3o para uma exposi\u00e7\u00e3o que vai abrir em abril. [A exposi\u00e7\u00e3o foi inaugurada no espa\u00e7o Maus h\u00e1bitos, na cidade do Porto, em Portugal, e ficou em cartaz de 6 de abril at\u00e9 11 de maio de 2024].<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Essa escultura fala, de certo modo, sobre uma exclus\u00e3o que eu vivenciava quando era crian\u00e7a. A minha m\u00e3e possu\u00eda uma academia de gin\u00e1stica e dan\u00e7a feminina entre os anos 1980 e 1990. Eu queria fazer parte daquela academia porque a percebia como um ambiente de arte. Minha m\u00e3e criava coreografias de dan\u00e7a e eu a tinha como importante refer\u00eancia. Eu via as mulheres dan\u00e7ando e desejava pertencer \u00e0quele universo tamb\u00e9m. Tamb\u00e9m queria dan\u00e7ar, participar das apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo, mas eu n\u00e3o podia, pois era um ambiente exclusivamente feminino. Ressalto que a minha m\u00e3e n\u00e3o tinha a consci\u00eancia que tem hoje, mas, naquele contexto, estava reproduzindo o que a sociedade era. A academia de gin\u00e1stica e dan\u00e7a era para mulheres de uma classe social espec\u00edfica, contemplando mulheres cis, brancas, magras. Hoje, o trabalho que a minha m\u00e3e desenvolve, dentro da \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, \u00e9 completamente inclusivo, considera as diferen\u00e7as, inclui todas as idades, g\u00eaneros para al\u00e9m do binarismo. Ent\u00e3o, \u00e9 muito bonito ver como ela foi se transformando para muito melhor. Ao mesmo tempo, percebo como essa minha experi\u00eancia da inf\u00e2ncia ainda ecoa em mim, seja pela inspira\u00e7\u00e3o que a minha m\u00e3e sempre foi para mim (com suas habilidades nos desenhos de trajes, na coreografia de dan\u00e7a, na edi\u00e7\u00e3o de m\u00fasica), seja pela exclus\u00e3o que eu sentia, n\u00e3o s\u00f3 nesse contexto que narrei. Isso tudo acaba transparecendo de algum jeito nas minhas cria\u00e7\u00f5es. E eu exprimo atrav\u00e9s da arte essas reflex\u00f5es e, inevitavelmente, as cr\u00edticas aos costumes engessados das sociedades em que vivo acabam vindo \u00e0 tona.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1707\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Stiletto-Dance-20241-scaled.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2342\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Stiletto-Dance-20241-scaled.jpeg 2560w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Stiletto-Dance-20241-300x200.jpeg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Stiletto-Dance-20241-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Stiletto-Dance-20241-768x512.jpeg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Stiletto-Dance-20241-1536x1024.jpeg 1536w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Stiletto-Dance-20241-2048x1365.jpeg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Stiletto Dance, 2024<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Eu gostaria de perguntar sobre a s\u00e9rie <em>Memento mori.<\/em> S\u00e3o v\u00e1rias performances que voc\u00ea sempre faz no seu anivers\u00e1rio, certo? De onde veio essa ideia? Desde quando voc\u00ea a executa? Ela acontece todos os anos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, eu fa\u00e7o todos os anos desde 2013, quando estava prestes a concluir meu doutorado. A pesquisa que eu realizava era sobre ritualiza\u00e7\u00e3o e envolvia tanto a cren\u00e7as circunscritas na religiosidade quanto as que est\u00e3o relacionadas \u00e0 moda (a tese foi desenvolvida principalmente a partir da moda), levando em conta como essas for\u00e7as podem provocar altera\u00e7\u00f5es not\u00e1veis nos corpos. Eu queria falar sobre modifica\u00e7\u00e3o corporal e como ela ocorre atrav\u00e9s dessa cren\u00e7a em algo entendido como superior, como uma for\u00e7a maior que governa nossas vidas. Nesse per\u00edodo, eu estava experimentando diversos rituais e comecei a perceber que, para um ritual se caracterizar como tal, deve existir nele uma efic\u00e1cia transformadora, deve haver uma mudan\u00e7a efetiva. Ent\u00e3o, comecei a pensar em rituais que realmente possibilitem transforma\u00e7\u00f5es irrevog\u00e1veis, que n\u00e3o permitam retorno, e a explorar rituais do nosso cotidiano, como o anivers\u00e1rio, o casamento, e inclu\u00ed tamb\u00e9m o vel\u00f3rio. Se eu me caso, nunca mais vou ter o estado civil de solteiro de volta, porque poderei ser divorciado ou vi\u00favo, mas solteiro, nunca mais. A\u00ed, pensei em explorar os anivers\u00e1rios tamb\u00e9m.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro pormenor que pode ter me motivado a criar a s\u00e9rie <em>Memento mori<\/em> \u00e9 o fato de eu ter nascido no dia do anivers\u00e1rio de um ano de uma das minhas irm\u00e3s. Passei a vida comemorando meus anos junto com ela, sempre entendendo esse evento como uma colagem de dois rituais, nos quais duas pessoas cumpriam seus ritos de passagem numa mesma data. Todos os anos, havia essa conjuga\u00e7\u00e3o de duas festas de anivers\u00e1rio na mesma casa, com dois grupos distintos de amigos que, com o tempo, passaram a ser o mesmo nicho de amizades.<em>Memento mori<\/em> \u00e9 uma colagem de rituais porque \u00e9 arte e vida, \u00e9 um ritual estrito, mas \u00e9 tamb\u00e9m ritual art\u00edstico. Acho v\u00e1lido mencionar que fiz um projeto de performance para o meu vel\u00f3rio, que consistir\u00e1 na finaliza\u00e7\u00e3o dessa s\u00e9rie de anivers\u00e1rios. N\u00e3o tenho controle sobre o modo como vai acontecer, mas deixei uma instru\u00e7\u00e3o feita.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea deixou as indica\u00e7\u00f5es para o seu vel\u00f3rio como uma performance?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Sim. Eu tenho uma instru\u00e7\u00e3o, mas quero que seja revelada s\u00f3 quando acontecer mesmo [risos]. A vida \u00e9 muito louca, a gente n\u00e3o sabe quem vai antes, mas deixei dito na minha fam\u00edlia. O meu casamento tamb\u00e9m foi explorado. Eu me casei com a Hilda dentro de uma galeria, e durante tr\u00eas dias fizemos esse processo de ritual de casamento tamb\u00e9m. As performances com os anivers\u00e1rios surgiram no mesmo ano, 2013, depois do meu casamento. Meu anivers\u00e1rio \u00e9 no dia 20 de junho, e decidi fazer uma festa que tamb\u00e9m pudesse parecer um vel\u00f3rio na primeira a\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie, ent\u00e3o busquei juntar elementos festivos de um anivers\u00e1rio convencional e c\u00f3digos m\u00f3rbidos que vemos em vel\u00f3rios de culturas variadas. Assim, codifiquei esses signos festivos e m\u00f3rbidos no meu corpo, criando uma figura que se assemelhava a uma m\u00famia, com bal\u00f5es para dar a ilus\u00e3o de ascens\u00e3o, de levita\u00e7\u00e3o. Mas, ao mesmo tempo, se olharmos com ceticismo \u2014 ou at\u00e9 mesmo desconfian\u00e7a, considerando dados mais concretos, mais cient\u00edficos \u2014, essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 constru\u00edda apenas para criar ilus\u00f5es. O corpo vai continuar ali, os bal\u00f5es murcham, a festa acaba. Nesse sentido, h\u00e1 tamb\u00e9m uma constru\u00e7\u00e3o, para que possamos ter um entendimento mais c\u00e9tico sobre a morte.Eu criei esse primeiro evento de performance\/anivers\u00e1rio sob o t\u00edtulo de <em>Proxim(a)idade<\/em> (2013 &#8211; ), e determinei que isso seria uma s\u00e9rie. Fiz isso como um desafio e, ent\u00e3o, todo ano eu tenho que criar uma performance nova. Todo ano eu fa\u00e7o o anivers\u00e1rio como performance e penso muito no modo de transforma\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio projeto art\u00edstico, porque eu crio um ritual art\u00edstico que \u00e9 tamb\u00e9m um rito de passagem, mas quando eu repito esse ritual art\u00edstico em outros lugares e momentos, ele \u00e9 transformado e deixa de ser o tal rito de passagem inicial. Quando eu repito a a\u00e7\u00e3o, isso cria a ilus\u00e3o de que eu estou fazendo mais um anivers\u00e1rio, e mais um anivers\u00e1rio. Ent\u00e3o, se eu fosse contabilizar o n\u00famero de anos que eu tenho hoje a partir das repeti\u00e7\u00f5es, tenho mais de cem anos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"575\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Proximaidade.-Performance-realizada-em-Guimaraes-Portugal.-Junho-de-2013.-Fotografia-de-Hilda-de-Paulo-100-x-562-cm.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2332\" style=\"width:1100px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Proximaidade.-Performance-realizada-em-Guimaraes-Portugal.-Junho-de-2013.-Fotografia-de-Hilda-de-Paulo-100-x-562-cm.jpg 575w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Proximaidade.-Performance-realizada-em-Guimaraes-Portugal.-Junho-de-2013.-Fotografia-de-Hilda-de-Paulo-100-x-562-cm-168x300.jpg 168w\" sizes=\"(max-width: 575px) 100vw, 575px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Proxim(a)idade, 2013<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 interessante observar esse aspecto banal, digamos, do anivers\u00e1rio, do casamento, do vel\u00f3rio, desses rituais que a gente cria, que s\u00e3o extremamente perform\u00e1ticos. A a\u00e7\u00e3o \u00e9 extremamente perform\u00e1tica.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n<div class=\"wonderpluginaudio\" id=\"wonderpluginaudio-58\" data-audioplayerid=\"58\" data-width=\"24\" data-height=\"600\" data-skin=\"button24\" data-progressinbar=\"false\" data-showinfo=\"false\" data-showimage=\"false\" data-autoplay=\"false\" data-random=\"false\" data-autoresize=\"false\" data-responsive=\"false\" data-showtracklist=\"false\" data-tracklistscroll=\"true\" data-showprogress=\"false\" data-showprevnext=\"false\" data-showloop=\"false\" data-stopotherplayers=\"true\" data-preloadaudio=\"true\" data-noncontinous=\"false\" data-showtracklistsearch=\"false\" data-saveposincookie=\"false\" data-wptracklist=\"false\" data-removeinlinecss=\"true\" data-enabletabindex=\"false\" data-showtime=\"false\" data-showvolume=\"false\" data-showvolumebar=\"false\" data-showliveplayedlist=\"false\" data-stoponpausebutton=\"false\" data-reloadstream=\"false\" data-playpausefontcircle=\"true\" data-prevnextfontcircle=\"true\" data-showtitleinbar=\"false\" data-showloading=\"false\" data-enablega=\"false\" data-titleinbarscroll=\"true\" data-donotinit=\"false\" data-addinitscript=\"false\" data-imagewidth=\"100\" data-imageheight=\"100\" data-loop=\"0\" data-tracklistitem=\"10\" data-titleinbarwidth=\"80\" data-gatrackingid=\"\" data-ga4account=\"\" data-playbackrate=\"1\" data-playpauseimage=\"playpause-24-24-2.png\" data-playpauseimagewidth=\"24\" data-playpauseimageheight=\"24\" data-cookiehours=\"240\" data-prevnextimage=\"prevnext-24-24-0.png\" data-prevnextimagewidth=\"24\" data-prevnextimageheight=\"24\" data-volumeimage=\"volume-24-24-2.png\" data-volumeimagewidth=\"24\" data-volumeimageheight=\"24\" data-liveupdateinterval=\"10000\" data-maxplayedlist=\"8\" data-playedlisttitle=\"Last Tracks Played\" data-loopimage=\"loop-24-24-2.png\" data-loopimagewidth=\"24\" data-loopimageheight=\"24\" data-playpausefontwidth=\"32\" data-playpausefontheight=\"32\" data-playpausefontsize=\"12\" data-playpausefontradius=\"0\" data-playpausefontcolor=\"#fff\" data-playpausefontbgcolor=\"#333\" data-playpausefonthovercolor=\"#fff\" data-playpausefonthoverbgcolor=\"#555\" data-prevnextfontwidth=\"32\" data-prevnextfontheight=\"32\" data-prevnextfontsize=\"12\" data-prevnextfontradius=\"0\" data-prevnextfontcolor=\"#fff\" data-prevnextfontbgcolor=\"#333\" data-prevnextfonthovercolor=\"#fff\" data-prevnextfonthoverbgcolor=\"#555\" data-infoformat=\"\" data-tracklistscroll=\"false\" data-jsfolder=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/plugins\/wonderplugin-audio\/engine\/\" style=\"display:block;position:relative;margin:0 auto;width:24px;height:auto;\"><ul class=\"amazingaudioplayer-audios\" style=\"display:none;\"><li data-artist=\"\" data-title=\"Tales Frey - Audio site 2-esv2-70p-bg-0p\" data-album=\"\" data-info=\"&quot;Tales Frey - Audio site 2-esv2-70p-bg-0p&quot;.\" data-image=\"https:\/\/art100.in\/wp-includes\/images\/media\/audio.svg\" data-duration=\"44\"><div class=\"amazingaudioplayer-source\" data-src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Tales-Frey-Audio-site-2-esv2-70p-bg-0p.wav\" data-type=\"audio\/mpeg\" ><\/div><\/li><\/ul><\/div><script>function wonderaudio_58_appendcss(csscode) {var head=document.head || document.getElementsByTagName(\"head\")[0];var style=document.createElement(\"style\");head.appendChild(style);style.type=\"text\/css\";if (style.styleSheet){style.styleSheet.cssText=csscode;} else {style.appendChild(document.createTextNode(csscode));}};wonderaudio_58_appendcss(\"#wonderpluginaudio-58 { \tbox-sizing: content-box; 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E \u00e9 claro que, ao dizer que algo \u00e9 perform\u00e1tico, a gente coloca um signo ali que deixa claro que aquela situa\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m um projeto art\u00edstico, que a desloca desse corriqueiro para o art\u00edstico. Mas a gente tem muito gesto performativo no nosso cotidiano, e s\u00e3o confirma\u00e7\u00f5es que s\u00e3o realizadas nesses rituais. A gente repete do mesmo modo as coisas, a gente faz e nem sabe por que est\u00e1 fazendo algo, mas a gente est\u00e1 reproduzindo rituais e confirmando dados atrav\u00e9s desses rituais.<\/em><\/strong> Ent\u00e3o, isso me interessava demais. Eu passei a desconstruir o modo de comemora\u00e7\u00e3o, pensando em fazer o meu jeito de comemorar o anivers\u00e1rio, meu modo de fazer um casamento e meu modo de fazer um vel\u00f3rio, n\u00e3o cumprindo necessariamente esse que \u00e9 socialmente entendido como o modo de se fazer.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pensando nesses rituais do <em>Memento mori,<\/em> que s\u00e3o bastante sociais, e voltando para a quest\u00e3o do vestido, voc\u00ea v\u00ea nas suas performances essa diferencia\u00e7\u00e3o entre o pol\u00edtico, o social, a cr\u00edtica e a celebra\u00e7\u00e3o, ou \u00e9 tudo um pouco mais flu\u00eddo nesse sentido?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que est\u00e1 tudo sempre imbricado, eu nunca consigo separar est\u00e9tico e pol\u00edtico. Sempre tudo \u00e9 pol\u00edtico. E at\u00e9 esse tipo de ritual art\u00edstico que fa\u00e7o, que parece tratar de uma situa\u00e7\u00e3o muito espec\u00edfica minha, que \u00e9 o meu anivers\u00e1rio, o meu casamento, acaba virando um evento tamb\u00e9m com muitos signos sobre pol\u00edtica. Quando eu me casei com a Hilda, eu fiz o casamento na Secretaria de Cultura da cidade de Catanduva, e n\u00e3o foi uma escolha em v\u00e3o. \u00c9 claro que a proposi\u00e7\u00e3o acaba virando um debate p\u00fablico, porque \u00e9 um casamento homoafetivo dentro de um \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico. Isso, de fato, gerou debate e gerou tamb\u00e9m revolta de um grupo mais conservador, que depois foi se manifestar dizendo que a prefeitura local estava financiando o casamento, o que n\u00e3o era verdade. Eu decidi fazer o casamento, e eles apenas me cederam o espa\u00e7o. Esse jogo pol\u00edtico aconteceu de modo muito claro nessa situa\u00e7\u00e3o do casamento. E em anivers\u00e1rios tamb\u00e9m acontece muito porque, como se trata de um modo de ruptura a respeito de como a gente comemora um anivers\u00e1rio, o modo como ele ocorre \u00e9 completamente distinto. As pessoas chegam para o evento e n\u00e3o necessariamente conseguem contato com o aniversariante. O aniversariante est\u00e1 em performance, ent\u00e3o nem os parab\u00e9ns eu recebo mais. Esse jogo, que faz parte do jogo pol\u00edtico tamb\u00e9m, n\u00e3o acontece.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para fechar, eu queria perguntar se voc\u00ea gostaria de dividir com a gente alguma dificuldade, algum empecilho, algum problema que voc\u00ea encontrou ao longo da sua carreira.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Tive que lidar com censuras, o que n\u00e3o foi nada positivo. Tamb\u00e9m lidei com falta de \u00e9tica no percurso. A falta de recursos tamb\u00e9m aconteceu e, em muitos momentos, ter que fazer algo que eu almejava sem ter muito apoio financeiro foi um grande desafio. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m h\u00e1 o desafio de entender que, muitas vezes, n\u00f3s precisamos ser estrat\u00e9gicos no modo como fazemos negocia\u00e7\u00f5es com pessoas do mesmo circuito, com as institui\u00e7\u00f5es, com artistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 tamb\u00e9m um desafio positivo, do qual eu particularmente gosto, o de n\u00e3o conhecer uma determinada t\u00e9cnica e ter que aprend\u00ea-la para materializar algum trabalho, alguma ideia. Atualmente, estou vivendo exatamente isso, \u00e9 uma grande empolga\u00e7\u00e3o, estou dormindo pouco, fico ansioso porque estou realizando um projeto que nunca fiz antes, que \u00e9 de uma escultura de grande escala, com material muito sofisticado, e estou fazendo isso com uma f\u00e1brica local chamada ArtWorks. Eles produzem grandes obras para grandes artistas de Portugal e tamb\u00e9m artistas internacionais. Ent\u00e3o, eu me sinto muito respons\u00e1vel pelos passos que s\u00e3o dados por uma equipe enorme de pessoas e eu tenho que dar a palavra final para dizer &#8220;isso vai funcionar, eu quero desse modo&#8221;, e de repente eu vejo a coisa sendo constru\u00edda. \u00c9 fascinante, \u00e9 estimulante, mas, ao mesmo tempo, \u00e9 um grande desafio.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Entrevista realizada em 23 de Fevereiro<\/em> <em>de 2024 remotamente via Zoom<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-4 is-cropped has-lightbox wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1707\" data-id=\"2330\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Vestido_2014-1-scaled.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2330\" 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