{"id":3099,"date":"2026-01-06T08:00:00","date_gmt":"2026-01-06T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/art100.in\/?p=3099"},"modified":"2026-05-29T16:42:43","modified_gmt":"2026-05-29T16:42:43","slug":"laercio-redondo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/art100.in\/pt-br\/laercio-redondo\/","title":{"rendered":"Laercio Redondo"},"content":{"rendered":"\n<p>Laercio Redondo (Paranava\u00ed, 1967) \u00e9 um artista brasileiro que explora hist\u00f3rias que permeiam as entrelinhas de grandes narrativas e personagens. Vivendo entre o Rio de Janeiro e a Su\u00e9cia, Redondo tem grande interesse em discutir o modernismo, tanto no contexto brasileiro quanto internacional, especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 arquitetura e \u00e0 arte. Seu trabalho frequentemente sinaliza os apagamentos e as intricadas rela\u00e7\u00f5es entre mem\u00f3ria coletiva e narrativas hist\u00f3ricas. No seu processo, o resultado torna aparente as camadas de tens\u00f5es, lacunas ou satura\u00e7\u00f5es que se sobrep\u00f5em, espacial e temporalmente, a pessoas, objetos e fatos tematizados nas suas obras. Na entrevista, o artista revela como utiliza uma variedade de m\u00eddias, incluindo esculturas, gravuras e instala\u00e7\u00f5es, para reexaminar o passado e refletir sobre sua influ\u00eancia cont\u00ednua no presente. Confira:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1372\" height=\"1374\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/LAERCIO-REDONDO-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3101\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/LAERCIO-REDONDO-2.jpg 1372w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/LAERCIO-REDONDO-2-300x300.jpg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/LAERCIO-REDONDO-2-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/LAERCIO-REDONDO-2-150x150.jpg 150w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/LAERCIO-REDONDO-2-768x769.jpg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/LAERCIO-REDONDO-2-650x650.jpg 650w\" sizes=\"(max-width: 1372px) 100vw, 1372px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Laercio, agrade\u00e7o muito por separar esse tempo para falar com a gente. Eu queria come\u00e7ar pedindo para voc\u00ea se apresentar, com qualquer informa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea ache relevante, pensando em um p\u00fablico que talvez ainda n\u00e3o conhe\u00e7a voc\u00ea e sua pr\u00e1tica art\u00edstica.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Meu nome \u00e9 Laercio Redondo, tenho 56 anos, vivo e trabalho entre o Rio de Janeiro e Estocolmo. Meu trabalho se desenvolve fundamentalmente a partir do meu interesse pela hist\u00f3ria e seus apagamentos. O processo de cria\u00e7\u00e3o geralmente envolve a busca por fatos hist\u00f3ricos, pessoas ou fissuras na hist\u00f3ria que considero interessante reinserir no nosso contexto, trazendo \u00e0 tona novos questionamentos sobre assuntos, momentos ou figuras que pens\u00e1vamos j\u00e1 conhecer muito bem. Minhas obras j\u00e1 tematizaram, ou giraram em torno de, Lina Bo Bardi e sua casa, Carmen Miranda, Athos Bulc\u00e3o e o Pal\u00e1cio Gustavo Capanema. S\u00e3o pessoas, fatos ou situa\u00e7\u00f5es que, de alguma forma, contextualizo na minha obra, criando nas minhas exposi\u00e7\u00f5es uma esp\u00e9cie de quebra-cabe\u00e7a \u2013 e eu convido o p\u00fablico a explor\u00e1-lo comigo, para que possamos chegar a novas perguntas, complexificando e at\u00e9 contrariando a nossa percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Podemos come\u00e7ar falando um pouco sobre a obra <em>Carmen Miranda<\/em>, de 2010?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O meu trabalho sobre a Carmen s\u00e3o m\u00f3biles que, na verdade, eu entendo como um retrato sem imagem. N\u00e3o trago a sua imagem <em>per se<\/em>, mas sim todos os seus adere\u00e7os para falar sobre ela na sua aus\u00eancia. E o que me interessava dizer sobre Carmen?<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, preciso dizer que essa \u00e9 uma obra muito importante para mim, e que aconteceu exatamente quando eu estava no Rio em 2009, num momento em que o Brasil aparecia nas capas das revistas internacionais e havia toda uma euforia em rela\u00e7\u00e3o ao nosso pa\u00eds como uma nova promessa de pot\u00eancia mundial. Algo que me chamou muito a aten\u00e7\u00e3o nessa abordagem midi\u00e1tica foi o fato de que, quando os editores precisavam de uma imagem para ilustrar o pa\u00eds, muitas vezes, era a imagem da Carmen que escolhiam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, vale lembrar que Carmen \u00e9 uma mulher que nasceu em Portugal, mas viveu no Brasil, mais precisamente na Lapa, regi\u00e3o central do Rio, nos idos de 1920. Seus pais eram donos de uma pens\u00e3o e serviam comida para os oper\u00e1rios daquela regi\u00e3o, e foi nesse contexto que ela teve seu primeiro contato com o samba. Se voc\u00ea pegar a discografia do come\u00e7o da sua carreira, vai ver que ela gravou com todos os sambistas mais incr\u00edveis da \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sociedade brasileira daquele momento, o samba ainda n\u00e3o tinha &#8220;chegado&#8221; \u00e0 Zona Sul do Rio de Janeiro, e ent\u00e3o aparece Carmen, uma mulher branca e, al\u00e9m disso, cantando samba. Se pensarmos que isso aconteceu no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, muita complexidade vem \u00e0 tona. Uma pessoa negra vista com um viol\u00e3o poderia ser interrogada e presa pela pol\u00edcia. Ent\u00e3o, \u00e9 curioso pensar que o samba &#8220;atravessa&#8221; o centro do Rio, que, no caso, engloba a popula\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica, e chega at\u00e9 a Zona Sul levado por uma pessoa branca que, em determinado momento, veste uma roupa de baiana e vai parar em Hollywood.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muitas fantasias, muitos disfarces, muitas camadas para pensarmos o que ou quem realmente foi Carmen Miranda. No in\u00edcio, aquele primeiro traje de baiana \u00e9 uma roupa com inspira\u00e7\u00e3o iorub\u00e1 e, quando ela chega em Hollywood, aquilo vai ser estilizado e pasteurizado, e se perde sem o contexto que existia no Rio. Mas \u00e9 interessante pensar nela trilhando esse caminho, partindo para os Estados Unidos como instrumento da pol\u00edtica de boa vizinhan\u00e7a entre os pa\u00edses e se tornando a figura que conhecemos hoje. Mas, apesar do sucesso, o que h\u00e1 por tr\u00e1s dessa imagem? Outro fato curioso sobre essa incurs\u00e3o de Carmen no exterior \u00e9 que estava estipulado no seu contrato que ela n\u00e3o deveria falar ingl\u00eas corretamente, apesar de ser fluente no idioma. Ela foi colocada pelo <em>showbiz<\/em> da \u00e9poca em um lugar em que precisava se comportar e atuar de uma maneira muitas vezes caricata, o que faz sentido naquele contexto hist\u00f3rico e na maneira como ela foi recebida, nos Estados Unidos, como mulher sul-americana que ganha a fama no pa\u00eds.Esse trabalho n\u00e3o \u00e9 uma cr\u00edtica \u00e0 Carmen, mas sim uma forma de pensar como funciona essa imagem, pensar os seus vazios e o que ela traduz ou esconde. Assim, quando as pessoas olham os m\u00f3biles e veem o t\u00edtulo da obra, imediatamente a reconhecem sem realmente v\u00ea-la: \u00e9 um corpo, mas sem imagem. Carmen Miranda \u00e9 um corpo dissidente. Al\u00e9m disso, havia algo <em>queer<\/em> em torno da imagem criada por ela, algo que \u00e9 dif\u00edcil de definir completamente numa s\u00f3 imagem. A obra, os elementos que comp\u00f5em os m\u00f3biles, seu movimento e sua est\u00e9tica evocam tudo isso.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"783\" height=\"1181\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/carmen-01.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3105\" style=\"width:1100px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/carmen-01.jpg 783w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/carmen-01-199x300.jpg 199w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/carmen-01-679x1024.jpg 679w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/carmen-01-768x1158.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 783px) 100vw, 783px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Carmen MIranda, 2010 \u2014 Cr\u00e9dito da foto: Thales Leite<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A arquitetura tamb\u00e9m \u00e9 bastante importante na sua pr\u00e1tica art\u00edstica. Quando a gente olha obras como <em>Carmen Miranda<\/em>, \u00e9 poss\u00edvel identificar esses pequenos elementos arquitet\u00f4nicos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Uma das coisas que mais mobilizam o meu trabalho \u00e9 a arquitetura, e acho que ela est\u00e1 presente o tempo inteiro. Na realidade, talvez a arquitetura seja o documento mais fiel para entender uma \u00e9poca, porque est\u00e1 sempre ligada ao poder. Seja a arquitetura da comunidade ou do Congresso Nacional, ambas possuem dados muito importantes para entender o tempo em que vivemos, os jogos de for\u00e7as sociais e as fantasias pol\u00edticas de uma \u00e9poca num determinado lugar. Ent\u00e3o, o meu interesse por arquitetura come\u00e7a especialmente na cidade: como ela se organiza, como as pessoas se encontram. Talvez seja nesse ponto que voc\u00ea faz a rela\u00e7\u00e3o entre a Carmen e arquitetura.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, retornando aos m\u00f3biles, eles surgiram depois de uma visita a um gabinete de curiosidades que vi em Uppsala, na Su\u00e9cia. Os gabinetes de curiosidades surgiram durante a \u00e9poca das grandes explora\u00e7\u00f5es e &#8220;descobrimentos&#8221;, nos s\u00e9culos XVI e XVII e, grosso modo, eles eram arm\u00e1rios compostos por v\u00e1rias gavetas. Ao abrir essas gavetas, revelava-se uma cole\u00e7\u00e3o \u00fanica de objetos ex\u00f3ticos coletados nas explora\u00e7\u00f5es e que eram expostos ao olhar dos visitantes, o que, de certa forma, deu origem aos primeiros museus. Era uma maneira de mostrar, pela primeira vez na hist\u00f3ria, a hist\u00f3ria do Outro, daquilo que n\u00e3o se conhecia.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu trouxe esse conceito do gabinete para o meu trabalho, mas decidi traduzir esse &#8220;Outro&#8221; no formato de um retrato abstrato de uma personalidade que me interessa. No in\u00edcio, isso me pareceu muito complexo e tive d\u00favidas, mas o trabalho acabou por encontrar seu rumo ao longo do processo.A instala\u00e7\u00e3o sobre a Carmen era composta de oito m\u00f3biles. Depois, em 2023, fiz uma grande instala\u00e7\u00e3o (<em>as maravilhas*<\/em>) em colabora\u00e7\u00e3o com meu companheiro, Birger Lipinski, apresentada no Museu de Arte Contempor\u00e2nea da Universidade de S\u00e3o Paulo (MAC\/USP), de 2 de setembro de 2023 a 28 de janeiro de 2024. Nessa exposi\u00e7\u00e3o, foram apresentados 17 m\u00f3biles, pensados como retratos de v\u00e1rias personalidades que me interessavam. Essa foi para mim uma verdadeira &#8220;prova de fogo&#8221; para entender a recep\u00e7\u00e3o do trabalho por um grande p\u00fablico em um museu.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas tamb\u00e9m, quando voc\u00ea v\u00ea tudo como um conjunto, acaba se tornando quase uma constela\u00e7\u00e3o de todas as possibilidades de leitura.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma constela\u00e7\u00e3o e, al\u00e9m disso, vira uma esp\u00e9cie de dan\u00e7a tamb\u00e9m. Eu vejo os m\u00f3biles como um tipo de performance que acontece no encontro com os espectadores que transitam pelo espa\u00e7o onde eles s\u00e3o exibidos. \u00c0 medida que as pessoas caminham e seus corpos se movimentam, os m\u00f3biles tamb\u00e9m se movem. Al\u00e9m disso, sempre que instalo os m\u00f3biles, costumo colocar nas paredes os verbetes relativos \u00e0s personalidades tematizadas. Na instala\u00e7\u00e3o <em>as maravilhas*<\/em>, no MAC\/USP, colaborei com a Alecsandra Matias, uma historiadora da arte incr\u00edvel, com quem mantenho novas colabora\u00e7\u00f5es at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>No espa\u00e7o, havia 17 m\u00f3biles, cada um trazendo seu n\u00famero escrito no piso do museu. Os espectadores precisavam olhar para a parede para encontrar os verbetes sobre cada um dos m\u00f3biles e as personalidades correspondentes. A meu ver, a visita ao trabalho se tornava uma esp\u00e9cie de &#8220;baile&#8221;, e as esculturas, seus n\u00fameros e verbetes criavam um movimento muito curioso dos espectadores dentro da exposi\u00e7\u00e3o. Algo muito bonito acontecia nessa intera\u00e7\u00e3o entre as pessoas e as obras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 curioso que, nos \u00faltimos anos, com o trabalho dos m\u00f3biles, meu est\u00fadio se tornou um grande acervo de objetos ins\u00f3litos. Isso acontece porque preciso ir recolhendo um n\u00famero enorme de artefatos sem saber exatamente onde ou para qual retrato eles servir\u00e3o. O fato \u00e9 que esses objetos, na sua maioria, n\u00e3o s\u00e3o facilmente encontrados em lojas comuns. Muitas dessas pe\u00e7as v\u00eam de leil\u00f5es, antiqu\u00e1rios, mercados de pulgas, brech\u00f3s ou s\u00e3o doa\u00e7\u00f5es de amigos. O que eles t\u00eam em comum \u00e9 que perderam seu lugar de origem e, muitas vezes, sua import\u00e2ncia. Muitas dessas pe\u00e7as foram descartadas da vida que tinham. Eu procuro ressignificar esses objetos, dar a eles uma sobrevida. Por isso, esse acervo \u00e9 muito particular, constru\u00eddo com muito afeto. N\u00e3o s\u00e3o objetos que posso simplesmente sair para comprar e resolver tudo rapidamente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1707\" height=\"2560\" data-id=\"3112\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Vista-sup-Foto-Elaine-Maziero-3-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3112\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Vista-sup-Foto-Elaine-Maziero-3-scaled.jpg 1707w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Vista-sup-Foto-Elaine-Maziero-3-200x300.jpg 200w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Vista-sup-Foto-Elaine-Maziero-3-683x1024.jpg 683w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Vista-sup-Foto-Elaine-Maziero-3-768x1152.jpg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Vista-sup-Foto-Elaine-Maziero-3-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Vista-sup-Foto-Elaine-Maziero-3-1365x2048.jpg 1365w\" sizes=\"(max-width: 1707px) 100vw, 1707px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1707\" height=\"2560\" data-id=\"3108\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero50-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3108\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero50-scaled.jpg 1707w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero50-200x300.jpg 200w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero50-683x1024.jpg 683w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero50-768x1152.jpg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero50-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero50-1365x2048.jpg 1365w\" sizes=\"(max-width: 1707px) 100vw, 1707px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1707\" height=\"2560\" data-id=\"3110\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero42-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3110\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero42-scaled.jpg 1707w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero42-200x300.jpg 200w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero42-683x1024.jpg 683w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero42-768x1152.jpg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero42-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero42-1365x2048.jpg 1365w\" sizes=\"(max-width: 1707px) 100vw, 1707px\" \/><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption wp-element-caption\">As Maravilhas, 2023 \u2014 Cr\u00e9dito da foto: Elaine Maziero<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pensando nesse elemento do retrato, voc\u00ea trabalha sempre com personalidades com quem tem uma conex\u00e3o, mas que preservam uma certa dist\u00e2ncia cultural, ou tamb\u00e9m inclui pessoas do seu cotidiano, mais pr\u00f3ximas a voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Geralmente, s\u00e3o personalidades que acho que mudaram nossa percep\u00e7\u00e3o sobre como o corpo se move no mundo, no espa\u00e7o que compartilhamos. Personagens como Elza Soares, Ney Matogrosso, Linn da Quebrada, Clementina de Jesus, Maria Beth\u00e2nia, Carmen Miranda, H\u00e9lio Oiticica\u2026 S\u00e3o pessoas que, de alguma forma, t\u00eam um corpo perform\u00e1tico que modificou nossa percep\u00e7\u00e3o sobre a exist\u00eancia de um corpo, s\u00e3o pessoas que romperam barreiras enormes para finalmente ser quem desejavam.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma curiosidade um pouco t\u00e9cnica: o que vem primeiro, decidir todos os elementos ou criar o m\u00f3bile?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>O processo \u00e9 exatamente como o de uma pintura, vai acontecendo: uma cor, uma textura, um volume\u2026 uma coisa puxa a outra. Eu venho da pintura, e pode parecer uma loucura o que estou dizendo, mas \u00e9 assim que vejo meu trabalho com os m\u00f3biles. Para mim, existe um pensamento sobre pintura, apesar de serem esculturas.<\/p>\n\n\n\n<p>A maneira como essa sele\u00e7\u00e3o de objetos acontece \u00e9 bonita, pois s\u00e3o as mesmas quest\u00f5es que vejo num retrato, numa pintura. Como traduzir a personalidade \u00e0 qual o m\u00f3bile ser\u00e1 atribu\u00eddo? Qual a cor? Com quais objetos se relaciona? Para mim, o caminho \u00e9 muito similar \u00e0s quest\u00f5es do retrato, mas resulta, aqui, numa quase abstra\u00e7\u00e3o, em que h\u00e1 apenas vest\u00edgios e \u00edndices, mas n\u00e3o exatamente semelhan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tantas dessas personalidades s\u00e3o moldadas a partir do relacionamento que desenvolvemos e das atribui\u00e7\u00f5es que fazemos a elas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Tem algo no encontro dos espectadores com os m\u00f3biles que acho muito interessante: o fato de que eles parecem suspender o tempo por alguns segundos. Por um instante, quando voc\u00ea os observa, parece perder a no\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 vendo. Voc\u00ea pode ficar fascinado e depois tentar entender: &#8220;ah, mas o que \u00e9 isso?&#8221; Algo vai ganhando forma na nossa mente quando observamos os m\u00f3biles, algo muito l\u00fadico que acho bonito.<\/p>\n\n\n\n<p>Acho importante contar algo que aconteceu em 2023. Fui a uma palestra no Moderna Museet, em Estocolmo, do te\u00f3rico americano Jack Halberstam. Ele falava sobre como a comunidade <em>queer<\/em> tratava a quest\u00e3o do retrato e que ele percebia uma tend\u00eancia curiosa: a abstra\u00e7\u00e3o nos retratos atuais dessa comunidade. Para ele, isso indicava que a comunidade se entendia \u201cem constru\u00e7\u00e3o\u201d, sem uma imagem fixa de si mesma.<\/p>\n\n\n\n<p>Achei isso muito revelador e foi algo que me ajudou bastante a seguir pensando sobre os m\u00f3biles. Para mim, ele abriu uma maneira de entender o que eu j\u00e1 estava fazendo. Apesar de os m\u00f3biles parecerem apenas articula\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas, existe uma homenagem a essas figuras que acho relevante, ent\u00e3o s\u00e3o articula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas tamb\u00e9m. Como disse no in\u00edcio, no encontro dos espectadores com os m\u00f3biles h\u00e1 uma pausa, e depois surgem os questionamentos: \u201ccomo isso \u00e9 Carmen Miranda? Como isso \u00e9 Elza Soares? Como isso \u00e9 Ney Matogrosso?\u201d Os m\u00f3biles abrem um espa\u00e7o para o pensamento, para associa\u00e7\u00f5es, para a reflex\u00e3o sobre a hist\u00f3ria de cada uma dessas personalidades. Algo acontece nesse encontro.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 uma esp\u00e9cie de representa\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica. Quando pensamos em representa\u00e7\u00f5es muito literais ou extremamente figurativas, percebemos que elas s\u00e3o falhas e podem n\u00e3o apresentar toda a complexidade que essas personalidades carregam.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Exatamente. A abstra\u00e7\u00e3o, neste caso, a meu ver, deixa um espa\u00e7o para constru\u00e7\u00f5es futuras, para um entendimento mais amplo do que \u00e9 imagem. Foi o que pensei sobre Carmen Miranda. O que acontece \u00e0 medida que eu tiro a imagem de Carmen e coloco apenas seus atributos? Voc\u00ea imediatamente come\u00e7a a buscar outras maneiras e associa\u00e7\u00f5es para se relacionar com essa imagem.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Essa abstra\u00e7\u00e3o pode abrir novas interpreta\u00e7\u00f5es ou maneiras de enxergar a pessoa. Isso tamb\u00e9m se reflete no objeto, ao pensarmos a sua exposi\u00e7\u00e3o \u201cThe Phantom Collection\u201d, de 2021. Conta um pouco para a gente sobre essa exposi\u00e7\u00e3o e as pe\u00e7as.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Na minha vida, meu trabalho me levou para muitos lugares. Vivi em contextos muito diferentes, e essa experi\u00eancia \u00e9 o que alimenta sempre novas perguntas. O trabalho <em>The Phantom Collection ou A cole\u00e7\u00e3o fantasma<\/em> \u00e9 sobre a Su\u00e9cia e a quest\u00e3o do <em>Folkhemmet<\/em>, que foi um sistema de bem-estar social criado no final dos anos 1920 e que buscava pensar uma engenharia social para que a sociedade funcionasse dentro de uma maior igualdade. O design foi uma das ferramentas importantes utilizadas para isso.<\/p>\n\n\n\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o \u201cThe Phantom Collection\u201d ou \u201cA cole\u00e7\u00e3o fantasma\u201d, tamb\u00e9m em colabora\u00e7\u00e3o com Birger Lipinski [exposi\u00e7\u00e3o apresentada na S\u00f6dert\u00e4lje Konsthall, em Estocolmo, de 23 de outubro a 4 de dezembro de 2021], \u00e9 uma narrativa ficcional sobre um colecionador que doa uma suposta &#8220;cole\u00e7\u00e3o\u201d de utilit\u00e1rios de vidro e cer\u00e2mica para n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Na fic\u00e7\u00e3o criada por n\u00f3s, a cole\u00e7\u00e3o existiria desde os anos 1930 \u2013 e, a partir disso, criamos uma narrativa para aproximar a hist\u00f3ria do design e do modernismo sueco \u00e0 complexidade dos dias atuais. A exposi\u00e7\u00e3o, em poucas palavras, fala sobre o significado social dessas pe\u00e7as que foram produzidas desde os anos 1930 e que, de alguma maneira, continuam a existir com a mesma forma at\u00e9 hoje, mas com muitas diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao que essa forma significa na sociedade atual. O conceito para o trabalho foi pensar sobre o que aconteceu nesta sociedade desde ent\u00e3o e questionar o que est\u00e1 por tr\u00e1s da imagem idealizada do <em>Folkhemmet<\/em> desde seu in\u00edcio at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao adentrar a sala expositiva, as pessoas viam algo muito similar a grandes proje\u00e7\u00f5es, mas, ao passar para o outro lado, encontravam a cole\u00e7\u00e3o de objetos. Junto com isso, havia um texto, mas tamb\u00e9m era poss\u00edvel escutar, em toda a sala, um \u00e1udio: a fala do \u201csuposto\u201d colecionador contando sua hist\u00f3ria e o que ele pensava sobre a import\u00e2ncia e pertin\u00eancia desses objetos ao longo do tempo. Procur\u00e1vamos refletir sobre as quest\u00f5es por detr\u00e1s dessa forma quase perfeita com que o design sueco moldou a sociedade e os costumes.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped has-lightbox wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1920\" data-id=\"3120\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0091-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3120\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0091-scaled.jpg 2560w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0091-300x225.jpg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0091-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0091-768x576.jpg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0091-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0091-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1920\" data-id=\"3118\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0189-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3118\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0189-scaled.jpg 2560w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0189-300x225.jpg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0189-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0189-768x576.jpg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0189-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0189-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1920\" data-id=\"3116\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0244-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3116\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0244-scaled.jpg 2560w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0244-300x225.jpg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0244-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0244-768x576.jpg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0244-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/DSF0244-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption wp-element-caption\">A Cole\u00e7\u00e3o Fantasma, 2021 \u2014 Cr\u00e9dito da foto: Jean-Baptiste Be\u0301ranger<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como \u00e9 para voc\u00ea, sendo um artista com acesso a diversos espa\u00e7os e pesquisas que acontecem em diferentes pa\u00edses, desenvolver sua pr\u00e1tica art\u00edstica e de pesquisa entre esses diferentes contextos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 um grande desafio. Quando falo sobre modernismo sueco na Su\u00e9cia, isso tem um peso diferente. Como \u00e9 poss\u00edvel falar de outros lugares, que n\u00e3o s\u00e3o nosso lugar de origem, sem cair num lugar-comum? \u00c9 preciso estar muito atento a essa quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse caso espec\u00edfico do trabalho sobre o modernismo sueco, foi um pouco mais simples, j\u00e1 que conhe\u00e7o a hist\u00f3ria e o lugar e colaborei com Birger Lipinski, que \u00e9 sueco. Isso nos dava uma chave de entrada \u2013 eu n\u00e3o estava sozinho, falando sobre um lugar onde estou de passagem. Creio que conhe\u00e7o a temperatura da Su\u00e9cia. \u00c9 desafiador, mas, ao mesmo tempo, \u00e9 uma prova com muitos riscos, porque voc\u00ea se coloca em uma situa\u00e7\u00e3o de confronto com c\u00f3digos culturais muito evidentes. Uma coisa \u00e9 eu pedir, no Brasil, que voc\u00ea pense comigo qual \u00e9 a pergunta por tr\u00e1s do meu trabalho. Outra coisa \u00e9, num contexto europeu, algu\u00e9m que vem da Am\u00e9rica do Sul tentar entrar nesse espa\u00e7o e trazer essa quest\u00e3o como central no trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tamb\u00e9m fiz uma exposi\u00e7\u00e3o no Pavilh\u00e3o Mies van der Rohe [exposi\u00e7\u00e3o individual \u201cO mais simples \u00e9 o mais dif\u00edcil de fazer\u201d, apresentada no Pavilh\u00e3o Barcelona, Fundaci\u00f3 Mies van der Rohe, de 16 de setembro a 12 de outubro de 2020], que \u00e9 um espa\u00e7o quase sagrado do Modernismo. Enquanto artista interessado em como o p\u00fablico se relaciona com essa imers\u00e3o na hist\u00f3ria que estou propondo, isso \u00e9 um grande desafio.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, na constru\u00e7\u00e3o e idealiza\u00e7\u00e3o do Pavilh\u00e3o Barcelona, existe a figura de Lilly Reich (1885\u20131947), que foi uma designer de interiores, tecidos e espa\u00e7os expositivos important\u00edssima no seu tempo. Mies foi, por um per\u00edodo, seu colaborador, e, pessoalmente, acho que muito do requinte das escolhas est\u00e9ticas do Mies vem do que ele aprendeu com ela. S\u00f3 que, logo ap\u00f3s a guerra, ela morre e acontece um apagamento: Lilly Reich desaparece da hist\u00f3ria oficial. Claro, muitos de n\u00f3s que trabalhamos com cultura e estamos interessados nesse assunto poder\u00edamos saber um pouco sobre ela, mas o fato curioso \u00e9 que, durante a exposi\u00e7\u00e3o, v\u00e1rias pessoas do mundo da cultura em Barcelona me diziam: &#8220;eu n\u00e3o tinha a menor ideia de que a Lilly Reich existiu e de v\u00e1rios pontos que voc\u00ea revela e conecta com a hist\u00f3ria desse pavilh\u00e3o.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 interessante, pois a reconstru\u00e7\u00e3o do Pavilh\u00e3o Barcelona \u00e9 muito mais complexa do que parece. No fim, o pavilh\u00e3o que existe hoje \u00e9 um pastiche, uma c\u00f3pia \u2013 por\u00e9m uma c\u00f3pia dentro do que \u00e9 poss\u00edvel, porque n\u00e3o foi poss\u00edvel localizar todas as plantas ou documentos originais com muitos detalhes construtivos do edif\u00edcio. Assim, em v\u00e1rios aspectos, essa reconstru\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas uma aproxima\u00e7\u00e3o do que era, na realidade, o pavilh\u00e3o original. No m\u00ednimo, \u00e9 interessante perguntar por que Barcelona decide reconstruir o Pavilh\u00e3o Mies no per\u00edodo em que foi reconstru\u00eddo?<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, o que significou para a Alemanha, em 1929, construir esse pavilh\u00e3o ainda durante a Rep\u00fablica de Weimar? N\u00e3o podemos esquecer que 1929 \u00e9 o ano da quebra da Bolsa de Nova York, e esse fato gera uma crise mundial econ\u00f4mica, mas, mais gravemente, pol\u00edtica. A Alemanha, claro, vai ser atingida por esse acontecimento, e sua hist\u00f3ria tomar\u00e1 um rumo muito mais severo dali por diante.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tantas camadas de hist\u00f3ria e interrela\u00e7\u00f5es para se pensar. Para mim, como artista, nunca saio o mesmo depois desses projetos, aprendo muita coisa. Mas, sim, \u00e9 um grande desafio, e tamb\u00e9m um privil\u00e9gio entrar com meu trabalho em um dos pr\u00e9dios mais ic\u00f4nicos da hist\u00f3ria da arquitetura moderna.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped has-lightbox wp-block-gallery-3 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1707\" data-id=\"3124\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A8853-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3124\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A8853-scaled.jpg 2560w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A8853-300x200.jpg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A8853-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A8853-768x512.jpg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A8853-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A8853-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1707\" data-id=\"3123\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A9008-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3123\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A9008-scaled.jpg 2560w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A9008-300x200.jpg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A9008-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A9008-768x512.jpg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A9008-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A9008-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1707\" data-id=\"3126\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A8946-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3126\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A8946-scaled.jpg 2560w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A8946-300x200.jpg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A8946-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A8946-768x512.jpg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A8946-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Laercio-@annamasphoto-_72A8946-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption wp-element-caption\">O mais simples e\u0301 o mais dificil de fazer, 2020 \u2014 Cr\u00e9dito da foto: Anna mas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Essas fissuras e apagamentos da hist\u00f3ria acontecem tanto dentro de pa\u00edses quanto entre eles. Para quem trabalha com arte, essas quest\u00f5es j\u00e1 s\u00e3o mais conhecidas, mas, para o p\u00fablico em geral, a ideia de um artista n\u00e3o se limitar a uma nacionalidade n\u00e3o \u00e9 nova. Por\u00e9m, a falta de classifica\u00e7\u00e3o prejudicou muitos artistas. Jannis Kounellis, por exemplo, foi marginalizado na <em>arte povera<\/em> da It\u00e1lia por ser grego, embora hoje seja reconhecido como uma das maiores figuras do movimento.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o acho que mudamos tanto assim; ainda estamos nesse lugar de certo desconforto. Apesar de hoje os artistas terem uma mobilidade maior (por conta da internacionaliza\u00e7\u00e3o da arte e dos programas de bolsas e resid\u00eancias) \u2013 sem d\u00favida aumentamos as nossas &#8220;chances de exposi\u00e7\u00e3o&#8221; \u2013, ao mesmo tempo, quantas das nossas quest\u00f5es fazem sentido em outro lugar? Quanto da perspectiva sobre a narrativa da constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria ainda \u00e9, de certa forma, hegem\u00f4nica, dependendo de quem fala e de onde fala?<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, \u00e9 interessante pensar na Bienal de Veneza (2024), com a curadoria de Adriano Pedrosa. N\u00e3o quero entrar no m\u00e9rito do que acho da Bienal, mas falar sobre a resist\u00eancia que percebi em algumas pessoas da \u00e1rea, pelo fato de ser um curador do Sul Global abordando assuntos de outros lugares que n\u00e3o necessariamente utilizam uma \u201cr\u00e9gua ocidental\u201d. Ou seja, o lugar de onde viemos, sempre e em qualquer caso, tem relev\u00e2ncia, nunca \u00e9 neutro.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Laercio, conta para a gente um pouco sobre a exposi\u00e7\u00e3o \u201cRelance\u201d, na Pinacoteca, em 2018?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Essa foi uma exposi\u00e7\u00e3o muito complexa. Quando me convidaram para realiz\u00e1-la no Oct\u00f3gono, fiquei feliz, mas disse que gostaria de poder entrar tamb\u00e9m nas outras salas da cole\u00e7\u00e3o da Pinacoteca. E assim aconteceu. Nessa exposi\u00e7\u00e3o, havia um percurso aberto e, \u00e0 medida que os visitantes entravam no Oct\u00f3gono, podiam ver uma grande releitura de uma reprodu\u00e7\u00e3o de uma natureza-morta de Est\u00eav\u00e3o Silva (1845-1891), o primeiro negro a ingressar na academia no Rio de Janeiro, no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa releitura era uma gravura negra, um grande monocromo, \u00e0 primeira vista. Desenvolvi essa t\u00e9cnica das gravuras pretas com serigrafia, inspirada nas imagens produzidas pelo daguerre\u00f3tipo, que foi o primeiro processo fotogr\u00e1fico, descoberto e difundido na primeira metade do s\u00e9culo XIX. Mas, enquanto no daguerre\u00f3tipo a imagem \u00e9 prateada, na t\u00e9cnica que desenvolvi, a imagem se apresenta inicialmente preta, quase um monocromo, e se revela aos olhos do espectador \u00e0 medida que ele move seu corpo em torno da obra para observ\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio, o que me interessava era a figura de Est\u00eav\u00e3o Silva, que at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s era lembrado nos livros no Brasil apenas como um pintor de naturezas-mortas. No entanto, existe uma anedota de que Est\u00eav\u00e3o n\u00e3o apenas pintava naturezas-mortas, mas criava uma esp\u00e9cie de instala\u00e7\u00e3o. Com tecidos, ele montava uma parede para expor suas pinturas; por\u00e9m, atr\u00e1s dessas paredes, ele posicionava as flores e frutas reais que haviam sido retratadas. Ou seja, tamb\u00e9m havia o elemento olfativo. Isso \u00e9 extremamente inovador e muito \u00e0 frente de seu tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao entrar na cole\u00e7\u00e3o da Pinacoteca, os visitantes recebiam um pequeno livro gratuito e, ao longo da visita \u00e0s salas, iam colecionando cart\u00f5es com a nova narrativa que propus sobre as obras escolhidas do acervo. A exposi\u00e7\u00e3o, para mim, foi como se Estev\u00e3o me pegasse pela m\u00e3o e me apontasse aus\u00eancias na narrativa da nossa hist\u00f3ria coletiva, representadas pelas lacunas na pr\u00f3pria cole\u00e7\u00e3o da Pinacoteca. Para refor\u00e7ar essa abordagem, pensei que, novamente, o uso de cheiros faria muito sentido. Ao todo, foram 15 interven\u00e7\u00f5es, mas vou citar duas: existe uma interpreta\u00e7\u00e3o de que os bandeirantes conseguiram adentrar o interior do territ\u00f3rio brasileiro gra\u00e7as ao conhecimento ind\u00edgena sobre as trilhas e caminhos na floresta, j\u00e1 que os europeus, por conta pr\u00f3pria, dificilmente teriam superado os desafios impostos pela mata densa e todos os perigos que ela apresentava. O fato terr\u00edvel \u00e9 que as grandes rodovias brasileiras foram constru\u00eddas sobre esses mesmos caminhos que os ind\u00edgenas abriram, e essas rodovias levam os nomes dos bandeirantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na interven\u00e7\u00e3o que eu propus, quando o espectador se posicionava diante de uma pintura representando um bandeirante e abria o cart\u00e3o, sentia o cheiro de piche e de mata e podia ler isso que acabo de contar. Em outro exemplo, relacionado \u00e0 obra <em>Amola\u00e7\u00e3o interrompida<\/em>, de Almeida J\u00fanior (1850-1899), trago a liga\u00e7\u00e3o entre os bandeirantes e a popula\u00e7\u00e3o do interior. \u00c0 medida que os bandeirantes perdiam import\u00e2ncia, ap\u00f3s abrirem caminho para a explora\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio \u2013 afinal, j\u00e1 haviam conclu\u00eddo a tarefa de abrir os caminhos \u2013, os integrantes dessas expedi\u00e7\u00f5es ficavam pelo caminho sem trabalho, mantendo, no entanto, a mem\u00f3ria da viol\u00eancia hist\u00f3rica que viveram. Creio que da\u00ed nasceu a figura do caipira, longe da imagem pacata que nos foi contada in\u00fameras vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sala onde estava a obra <em>Amola\u00e7\u00e3o interrompida<\/em>, havia tamb\u00e9m um cart\u00e3o com essa narrativa impressa e, ao abri-lo, o cheiro que se desprendia havia sido fabricado em laborat\u00f3rio para evocar no p\u00fablico o odor de faca amolada. Assim, essa exposi\u00e7\u00e3o, por meio da cunhagem de uma nova mem\u00f3ria olfativa e re-escritas hist\u00f3ricas, buscava oferecer outras narrativas para compreender imagens que fazem parte do nosso imagin\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2500\" height=\"1668\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/levifanan_20181124_pina_laercioredondo-17.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3147\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/levifanan_20181124_pina_laercioredondo-17.jpg 2500w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/levifanan_20181124_pina_laercioredondo-17-300x200.jpg 300w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/levifanan_20181124_pina_laercioredondo-17-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/levifanan_20181124_pina_laercioredondo-17-768x512.jpg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/levifanan_20181124_pina_laercioredondo-17-1536x1025.jpg 1536w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/levifanan_20181124_pina_laercioredondo-17-2048x1366.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2500px) 100vw, 2500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Amola\u00e7\u00e3o interrompida, 2018 \u2014 Cr\u00e9dito da foto: Levi Fanan<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como \u00e9 essa negocia\u00e7\u00e3o entre decidir a quantidade de informa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica a ser entregue ao p\u00fablico junto com a imagem e o risco de n\u00e3o tornar o trabalho excessivamente did\u00e1tico?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Eu trabalho bastante com colabora\u00e7\u00f5es e jamais realizo uma obra sozinho. Todos os textos dessas grandes exposi\u00e7\u00f5es, por exemplo, t\u00eam coautores que me ajudam a encontrar esse equil\u00edbrio para n\u00e3o tornar o trabalho excessivamente did\u00e1tico. Pessoas como Soraya Guimar\u00e3es Hoepfner, Alecsandra Mathias, Laura Erber, Daniel Jablonski e tantas outras fizeram ou fazem parte desse momento de constru\u00e7\u00e3o dos trabalhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 importante dizer que procuro sempre me ater aos aspectos formais da obra e \u00e0 maneira como gostaria que o p\u00fablico se aproximasse dela. Por exemplo, os m\u00f3biles, mas tamb\u00e9m as outras obras, funcionam mesmo que voc\u00ea n\u00e3o saiba nada sobre eles. Se voc\u00ea souber, isso vai lhe oferecer uma compreens\u00e3o diferente. Existem muitas formas de se aproximar de uma obra, e eu gostaria de pensar que, apesar de toda essa pesquisa, a obra ainda \u00e9 totalmente aberta e n\u00e3o determinada, e que o p\u00fablico pode acess\u00e1-la de diferentes maneiras, at\u00e9 mesmo ou apenas pelo aspecto visual.<\/p>\n\n\n\n<p>Costumo dizer que a arte \u00e9 uma linguagem. Eu n\u00e3o sairia por a\u00ed construindo pr\u00e9dios, porque n\u00e3o sou engenheiro e nem arquiteto. Da mesma forma, acredito que as artes pl\u00e1sticas t\u00eam uma linguagem pr\u00f3pria e uma hist\u00f3ria que est\u00e1 nas bibliotecas para quem se interessar. Mas n\u00e3o espero que os espectadores, em princ\u00edpio, tenham que refletir sobre isso. Gosto de pensar que eles aceitam meu convite de simplesmente ver o trabalho. Sei que h\u00e1 um limite para tudo, mas espero sinceramente poder dialogar com quem olha para minha obra. O quanto cada um se aprofunda \u00e9 algo que n\u00e3o posso controlar.<\/p>\n\n\n\n<p>Para mim, as obras de arte s\u00e3o como um Cavalo de Troia: elas podem carregar dentro de si muitas quest\u00f5es e reflex\u00f5es, mesmo que possam permanecer como o que vemos \u00e0 primeira vista, ou seja, apenas o que vemos externamente. Demorou um tempo para que algumas obras que eu admirava realmente ganhassem mais sentido. Compreender o contexto hist\u00f3rico, a inten\u00e7\u00e3o de cada artista e o lugar ocupado por quem criou a obra pode at\u00e9 ajudar, mas, \u00e0s vezes, basta olhar para a superf\u00edcie da obra e, naquele momento, algo ali j\u00e1 acontece. Tamb\u00e9m, quando vejo obras de per\u00edodos t\u00e3o diferentes, parece que algo importante emana dali e ganha sentido. A arte talvez esteja nesse instante em que ela nos faz lembrar da nossa fragilidade, do que temos de mais humano (e, por isso mesmo, mais inexplic\u00e1vel) dentro de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Entrevista realizada em 18 de julho de 2024 remotamente via Zoom.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-4 is-cropped has-lightbox wp-block-gallery-4 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"783\" height=\"1181\" data-id=\"3157\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/carmen-01-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3157\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/carmen-01-1.jpg 783w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/carmen-01-1-199x300.jpg 199w, 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class=\"wp-element-caption\"><br>Carmen MIranda<br>V\u00e1rias dimens\u00f5es<br>2010<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1707\" height=\"2560\" data-id=\"3168\" src=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero50-1-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3168\" srcset=\"https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero50-1-scaled.jpg 1707w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero50-1-200x300.jpg 200w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero50-1-683x1024.jpg 683w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero50-1-768x1152.jpg 768w, https:\/\/art100.in\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/As-Maravilhas-LR-BL-Foto-Elaine-Maziero50-1-1024x1536.jpg 1024w, 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