Felipe Cama
Felipe Cama é artista visual e designer. Suas obras investigam temas como consumo, percepção e distribuição de imagens, explorando a influência da tecnologia nesses processos, de forma bem ampla Felipe observa o mundo contemporâneo e busca modos de representar ações e ideias de formas inesperadas, dando caminhos diversos para descobrir processos sociais e eventos. Na entrevista, Cama oferece uma visão fascinante de seu processo criativo e das ideias que o impulsionam. Confira a entrevista.

Felipe, obrigado por reservar este tempo para conversar conosco. Para começar, poderia se apresentar?
Eu sou o Felipe Cama, moro em São Paulo e sou um artista plástico de 53 anos. Já trabalho com artes plásticas há algumas décadas (risos). Também atuo como designer gráfico, numa carreira paralela com a arte. Percebi isso recentemente, pois costumava separar bem as duas profissões. Mas, ao pensar de uma maneira gráfica e plástica, percebo que um pouco de cada profissão se reflete na outra, algo que eu costumava negar.
Considerando a relação entre o design gráfico e as artes plásticas, diria que é uma influência mais conceitual ou material? Como você percebe essa conexão?
Eu pesquiso imagens. Como consumimos imagens, como produzimos imagens, como a nossa cultura produz e consome imagens, como acontece essa distribuição de imagem e, principalmente, eu nasci em 1970, então eu vivenciei essa transição do analógico para o digital e, como ocorria antes, através das mecânicas, dos meios impressos, pela TV, vídeo, e como essa transição para o digital e principalmente você ter primeiro num computador o desktop e depois na palma da mão, como ocorre esse consumo diferente, essa percepção diferente. Tudo isso me fascina muito, e muito do meu trabalho é uma pesquisa a respeito desse tema. Do ponto de vista das artes plásticas, meu trabalho envolve muita geometria e desenho, e eu gosto de explorar a questão da abstração e figuração. Isso está muito ligado ao que faço no design gráfico, e vice-versa, já que meu trabalho em design gráfico também é influenciado pela arte, com muitas referências artísticas. Pode-se dizer que existe uma maneira de pensar em termos estéticos e simbólicos e uma escolha de temas que permeia tudo o que faço, nas duas áreas.
Na sua produção artística, você usa uma variedade de materiais para apresentar suas ideias e conceitos. O que vem primeiro pra você, a ideia ou o interesse no material?
A ideia vem primeiro, depois eu penso no melhor meio para transmiti-la. Para mim, tudo tem um conceito. Se você escolher apresentar uma imagem como uma fotografia ou como um bordado, já está inserindo significado ali, na escolha do suporte. Está comunicando e expressando a ideia não só através da imagem, mas também através do meio que você escolheu. Então, quando tenho uma ideia, costumo passar um tempo refletindo sobre ela. Esse tempo pode levar anos, às vezes. Tenho projetos e ideias que vou pensando e, às vezes, elas perdem a validade, tornam-se irrelevantes, e eu não continuo. Mas, para outros, chega um momento em que é hora de materializar a ideia. Começo a pensar sobre como vou expressá-la artisticamente e qual suporte vou usar, seja um vídeo, em uma marchetaria, em uma impressão em metacrilato, em uma pintura, ou até mesmo contratar alguém para realizar essa pintura. Tudo isso faz parte do trabalho. Contribuí para a minha mensagem. Entretanto, expressar claramente o que pretendo dizer é um grande desafio, pois a interpretação das pessoas pode variar e mudar ao longo do tempo. Mas, em suma, é parte do que busco expressar.

E, pensando na conexão com o design gráfico, acredito que a arte exige essa abertura para interpretação, essa ausência de um ponto final.
Embora existam semelhanças entre arte e design gráfico, como a presença da geometria e de escolhas estéticas, acredito que são coisas distintas. No design gráfico, minha tarefa é criar identidades visuais para empreendedores, empresas de todos os tamanhos, embalagens e assim por diante. Aqui, estou solucionando um problema. Existe sempre uma demanda específica a ser atendida. Por outro lado, na arte, a demanda vem de mim. É sobre o que eu sinto a necessidade de expressar. Atualmente, estou realmente interessado em inteligência artificial. Tenho um pressentimento de que vou desenvolver um trabalho envolvendo isso, talvez usando IA ou questionando, por exemplo. Nada saiu ainda, leva um tempo para materializar, mas é algo que estou incorporando no meu trabalho de design gráfico. Isso me faz refletir justamente sobre o que mencionei antes, que é a base do trabalho: como consumimos e produzimos imagens. Sabe, quando surgiram as redes sociais, começamos a produzir e consumir imagens com um simples deslizar do dedo, algo que eu brinco sobre. Aquilo era novo e eu trazia essa novidade para o meu trabalho. Eu fiquei pensando que precisava comentar sobre aquilo. Hoje, a inteligência artificial é uma realidade do dia a dia. Eu a utilizo bastante, dependendo do projeto em que estou trabalhando. Então, essa ideia toda de ser uma imagem fabricada ou uma imagem, digamos, original da natureza, acho um pouco ingênua. Isso porque, quando você faz uma pintura, na história da arte, você sempre escolhe um recorte. O pintor coloca uma luz, uma expressão, seja em um retrato ou uma paisagem. Isso já é uma manipulação da realidade. O mesmo vale para a fotografia. O fotógrafo vai escolher um enquadramento que lhe interesse, que ele quer, e vai colocar um “filtro”. Dessa forma, você já está fazendo uma escolha, uma opção. Hoje, tem uma função interessante do Photoshop que utiliza a tecnologia de imagem generativa e inteligência artificial. Em vez de o fotógrafo fazer um corte em uma imagem, o Photoshop faz o contrário: pega essa mesma imagem e reconstrói o que estaria ao seu redor. Você pode usar uma foto produzida por você ou até mesmo uma foto encontrada na internet, e o Photoshop vai reconstruir o ambiente ao redor. Mas de onde vem esse entorno que ele reconstrói? Vem de uma gigantesca biblioteca de imagens disponíveis na internet.
Sim, é interessante observar que, mesmo no início da fotografia, montagens já eram comuns, na quais fotógrafos escolhiam as melhores “partes” de diferente negativos.
Sim, existem muitos exemplos como esse. No modernismo brasileiro, porém mais recente, temos Geraldo de Barros, que recortava imagens e fazia colagens com as obras de seus recortes. Ele pegava recortes como o rosto de uma pessoa e o que estava ao redor, e então reconstruía aquilo, criando uma terceira imagem. Essa nova imagem não é o que ele fotografou inicialmente nem o que usou de imediato, mas algo que ele buscou anos depois, essas sobras, e reconstruiu.
Quando pensamos na manipulação de imagens para criar algo, as pinturas clássicas são um ótimo exemplo. Tudo é cuidadosamente escolhido e editado. Hoje vemos um trabalho de produção similar no conteúdo digital criado “com um dedão”, mas, na verdade, há muitos criadores e uma equipe por trás para criar aquela imagem ou vídeo que vemos.
Acho que essa discussão sobre originalidade e produção de imagem é um pouco ingênua. Afinal, isso já faz parte da história da arte desde o início. Acredito que a IA é apenas mais uma ferramenta, e, com o tempo, vamos começar a reconhecer isso. Recentemente, me enviaram um texto que, ao ler, percebi que parecia algo escrito pelo ChatGPT. A pessoa mandou como se fosse de autoria dela. Mas, como eu uso o ChatGPT bastante, já consigo reconhecer a linguagem. Portanto, acredito que, com o tempo, as pessoas vão começar a perceber quando um texto foi produzido por um programa ou sistema, e não por um ser humano.
Quando falamos de resistência à mudança tecnológica na arte, é natural. Como quando os impressionistas começaram a pintar ao ar livre, imagino que os artistas no estúdio ficaram confusos. Costumo dizer que as maiores mudanças de geração ou de estilo ocorrem por conta da tecnologia. Na arte, podemos pensar na pop art com a xilografia, a videoarte e a fotografia como exemplos. A questão é como os artistas lidam com essas mudanças.
Concordo totalmente. Os avanços tecnológicos andam em paralelo com a arte. Hoje, observamos uma tendência de retorno às técnicas clássicas de produção, como a fotografia, numa espécie de resgate nostálgico de uma época que não vivemos. Fiz um trabalho durante uma viagem à China, onde fiquei impressionado com a cultura, a população, o consumo e a ética de trabalho. O projeto se chama “Notícias de lugar nenhum” e aborda tecnologia, métodos de produção e questões artísticas como originalidade, autoria e apropriação. Tirei várias fotos do portão da Cidade Proibida. Por si só, o local é muito interessante. Já foi um império, passou por uma revolução e hoje é quase um parque de diversões que simboliza tudo isso. Fotografei pessoas tirando suas próprias fotos, cada uma buscando levar consigo uma lembrança daquele lugar. Quando voltei ao Brasil e comecei a procurar por esse tipo de imagem na internet, encontrei centenas de fotos idênticas às que eu tinha tirado. Comecei a reunir as minhas imagens e as fotos dos outros turistas num fôlder. Chegou a um ponto que já não dava para distinguir quais fotos eu mesmo tirei e quais foram as de que eu me apropriei. Então, o desafio da produção surgiu, porque eu queria trabalhar nisso e contar a história, mas não queria que fossem apenas fotos impressas. Eu queria adicionar outra camada. Foi quando descobri um site de um vilarejo chinês que reproduz obras de arte. Realizei esse trabalho há cerca de 15 anos. Depois, em 2013, um documentário sobre essa cidade apareceu na Netflix. No início, eu estava em contato via e-mail com um representante comercial de uma espécie de cooperativa chinesa. Eles possuem um centro que recebe pedidos, e você pode encomendar qualquer tipo de pintura, de qualquer artista que quiser, desde uma imitação de Picasso, Van Gogh, Monet até um retrato de um familiar ou uma paisagem. Eu enviei as imagens para eles e consegui perceber, através das diferenças sutis nos traços e nas pinceladas, que foram feitas por vários artistas. Alguns com traços mais refinados, outros nem tanto, e cada um tinha um modo próprio de entender a luz. Mas a pintura era bastante homogênea e próxima das fotos originais que eu mandei. E tudo isso, fiz questão de incluir no trabalho, porque, afinal, isso é o trabalho. Estou discutindo a produção dessas pinturas, falando da China, do consumo e produção de imagens. Então, estou abordando os mesmos temas através de suportes tão diversos como uma impressão em metacrilato, de pinturas feitas na China, através de vídeo, fotografia.
Felipe, sobre o seu processo criativo, percebemos que há um forte peso conceitual no seu trabalho. Mas, depois que você desenvolve uma série como a “Notícias de lugar nenhum”, como você lida com essa ideia? Você volta a revisitar a ideia depois? As séries terminam e, uma vez concluído o trabalho, você se move para o próximo projeto?
Sim, fica resolvido daquele jeito. Apesar de ser praticamente o mesmo tema, estamos falando de aspectos diferentes que mudam com o tempo. Com 30 anos de carreira, tudo muda: o jeito que você é, o lugar em que vive. Por isso, não falo mais sobre e-mail como fazia antes, nem sobre a novidade da imagem digital. O que me interessava era entender a natureza da imagem. Tenho outro trabalho, por exemplo, na época que a rede social Orkut estava em alta e o Facebook estava apenas começando. Eu queria entender como a internet podia contar a história de uma vida. Hoje em dia, isso já tem conexão com o conceito de fake news, que nem existia naquela época. Passei um ano pesquisando, lendo, foi quando comecei a coletar informações sobre a vida de pessoas que conhecia ou com quem já tive contato, mas perdi. Durante dois anos, quando acumulei informações suficientes para contar uma história, ou seja, quando a internet me proporcionou uma narrativa sobre essa vida, foi aí que fiz a pintura. Nesse caso, escolhi pintar. Queria que isso viesse do não digital, e a pintura seria a opção menos digital. A obra se chama “Search Ericka”, uma pessoa com quem tive contato 20 anos atrás. Tinha perdido o contato, mas encontrei um papel com o nome e o endereço dela, o que foi ideal. Ela morava no Havaí, um lugar pequeno onde tudo vira notícia, portanto era fácil encontrar muitas informações sobre essa pessoa. Então, encontrei diversas notícias, de obituários a casamentos, informações sobre escolaridade e profissão. Estava tudo documentado na internet. Passei quase dois anos colecionando essas informações e, novamente, me deparei com a questão: como usar isso para contar uma história? Não me considero pintor, mas decidi abordar isso de maneira simples e despretensiosa. O que me interessava neste trabalho era justamente isso: construir uma narrativa sem ter contato direto com a pessoa, me baseando apenas nas informações que consegui encontrar na internet. Mais uma vez, falando sobre consumo de imagem, produção de imagem, distribuição de imagem.


O interessante é que, de certa forma, dá para notar que as pinturas foram feitas com base em fotografias ou outros materiais. Isso porque há uma distância, uma certa desconexão com o que é observado.
Foi proposital, eu tirei print screen do conteúdo e reproduzi os textos e os detalhes das páginas e fotos do jeito que encontrei. Eu queria que as pessoas vissem o formato e a proporção da tela do computador.
Imagino que essa pergunta já foi feita um milhão de vezes, mas a Ericka descobriu o trabalho? (risos)
Sim, ela sabe (risos). A primeira vez que expus esse trabalho foi na Galeria Leme – hoje, faz parte da coleção do MAM do Ibirapuera, em São Paulo. A obra permaneceu em exposição na galeria por mais de um mês, quando recebi uma ligação de uma pessoa que trabalhava lá. Ela me disse: “Recebemos uma ligação de alguém, que aparentava ser uma colecionadora estrangeira, perguntando sobre o trabalho da Ericka. E, pensando que ela fosse uma colecionadora, mencionei que o trabalho estava disponível. Mas, na verdade, ela se identificou como Ericka”. Fiquei surpreso, mas sabia que isso poderia acontecer. Inclusive, estava até esperando por isso, mas não tão rapidamente. Não queria entrar em contato depois de 20 anos para fazer perguntas ou esclarecimentos. Se fosse explicar toda a história, acabaria descobrindo coisas sobre essa pessoa durante a conversa com ela própria. De fato, a pesquisa do trabalho terminou quando descobri que ela abriu uma conta no Facebook, que naquela época ainda era uma novidade, e comecei a planejar os próximos passos. Depois de descobrir o trabalho, ela me enviou uma mensagem pelo Facebook, disse que ficou assustada, pois não entendia muito do assunto, e achou até que eu era louco (risos). Mas, com o tempo, ela entendeu que, se eu tivesse contado para ela desde o início, teria arruinado o trabalho. Trocamos algumas outras mensagens, mas já faz mais de 15 anos que não temos contato. Existem artistas que fazem residências para criar um trabalho, que viajam, que entrevistam um cientista ou que fazem um doutorado em um assunto botânico, por exemplo. Eu estava pesquisando, mas meu interesse principal não era naquela pessoa específica, mas na história que estava sendo contada.



Em relação a uma obra mais recente, sua série “Corrompidas”, de 2019, ela faz o oposto. Ela se aproxima da abstração para nos fazer refletir sobre os discursos do Bolsonaro de uma perspectiva diferente.
Tenho alguns trabalhos que vão no limite entre a abstração e a figuração. Esse é um trabalho que vai por esse caminho, a imagem em si acaba virando quase uma abstração. Essa questão do digital me interessa bastante. Comecei esse trabalho logo quando Bolsonaro assumiu o governo em janeiro. Após perceber as questões de manipulação de informações, decidi criar algo. Durante o Carnaval de 2019, houve o caso do vídeo envolvendo o golden shower, quando resgataram esse vídeo e o divulgaram nas suas redes sociais, afirmando que isso representava o Carnaval brasileiro. Eu já tinha um trabalho em que eu usava o código da imagem antes, então abri o código dessa imagem e trabalhei com o código binário. Peguei o texto desse post do Bolsonaro e o inseri aleatoriamente no código da imagem. Depois, salvei e pedi para o Photoshop abrir o arquivo, e veio essa imagem truncada, quase uma abstração. Eu e um grupo de 20 amigos fundamos um bloco de carnaval, conhecido como Acadêmicos do Baixo Augusta, que completou 15 anos. Sou responsável pela identidade visual do bloco, que sempre tem um tema específico. Então, o carnaval é um assunto muito importante para mim. E ver um indivíduo manipulando toda essa história, essa cultura, isso me deixou indignado. Decidi então escolher algumas imagens marcantes do carnaval daquele ano. Tínhamos cinco imagens, cinco histórias que acabaram se tornando abstratas. As imagens, que naquela época eram quase icônicas e muito vistas dessas histórias, amplamente divulgadas, tornaram-se abstrações. Me apropriei dessas fotos e nelas inseri esse texto, quase como um vírus, corrompendo. Uma corrupção, não necessariamente no sentido financeiro, mas no sentido de corromper uma ideia, como o carnaval foi usurpado e desvalorizado.

Felipe, percebo que muitas de suas obras têm uma forte presença de performance. Mesmo que não seja óbvio, sua performance influencia bastante o resultado final. Na obra da Ericka, por exemplo, o processo de pesquisa e acompanhamento já é performático. O mesmo ocorre quando você insere a fala do Bolsonaro numa imagem. A performance não é só para construir a imagem, ela é um evento por si só. Você concorda?
Eu já fiz algumas coisas “mirabolantes” para alcançar determinados resultados. No entanto, essas ações permanecem em silêncio. A história que contei sobre a Ericka, por exemplo, toda a pesquisa, não faz parte do texto da obra, é uma história paralela. Não entreguei essa parte junto com a obra, diferente do que fiz com a obra sobre a da China. Eu não considero como parte da obra em si. É como um pintor. Ele está no seu estúdio, pintando, realizando sua performance, mas, diferentemente de Pollock, cujo processo de pintura é importante ser visto. Tenho um outro trabalho que subverte essa noção de performance, levando a pessoa para um lugar completamente diferente. São essas paisagens brasileiras, trabalhos feitos para parecerem marchetaria. Representam simbolicamente Brasília, tudo o que ela significa para nós, um Brasil que deveria ser uma coisa, mas se tornou outra ou talvez ainda seja o que era antes. Há uma história que nos contaram na escola sobre Brasília, sobre um movimento rumo ao modernismo, um Brasil que estava evoluindo de uma economia rural e extrativista, com o ciclo do café e da borracha, para a industrialização. Isso envolveu a construção de uma cidade planejada e racional, “obra de comunistas”. Quando estive em Berlim, especialmente na parte oriental, parecia que eu estava em Brasília. Os blocos de prédios planejados seguem a mesma lógica. No entanto, isso durou pouco tempo, ocorreu o golpe militar e Brasília se tornou uma cidade dos militares. Ou seja, o plano inicial não se concretizou como esperado. Se você conhece Brasília, provavelmente sabe como funcionam as superquadras, eles projetaram os blocos e cada grupo de blocos contava com uma rua de comércio. No plano original, essa rua de comércio deveria ter diferentes negócios para que as pessoas pudessem fazer suas atividades cotidianas, como comprar pão, ir à farmácia ou ao açougue, sem precisar de um carro. Mas, o que realmente aconteceu foi que, se você precisa comprar material elétrico, você vai até a superquadra específica, pois lá a rua é toda dedicada a materiais elétricos. Cada rua tem sua característica, mas nem todas possuem tudo – algumas não têm nenhuma farmácia. Para mim, isso é uma metáfora de como construímos nosso país, refletindo o que está no papel desde a colonização. Em uma ocasião, fotografei Brasília e fiquei muito impressionado com todas essas histórias. Fiquei lá alguns dias fazendo o trabalho, tirando fotos, fazendo vídeos. Usei essas imagens de Brasília, das superquadras, dos prédios públicos incríveis, geométricos, comunistas que acabaram nas mãos da direita militar para um projeto. Da mesma forma que fiz com o trabalho sobre Bolsonaro, corrompi o código da imagem. Por isso, se você olhar as imagens dos ministérios, verá esses encaixes, esses erros. Naquela época, nos anos 1950 e 1960, em Brasília, eram comuns os trabalhos em marchetaria. Havia marchetaria com imagens de Araucária, do Paraná, do Rio de Janeiro, montanhas, praias, Pão de Açúcar. Havia uma tradição. Mas na minha marchetaria não se usa madeira natural, mas, sim, fórmica com estampa de madeira. Usei a foto que mencionei, a detonei em um programa vetorial. Em seguida, levei para um local que faz corte a laser. Fui ao marceneiro e fiz a moldura, que é uma caixa. Adicionei até uma dobradiça para parecer que são aquelas caixas de marchetaria que você compra. Mas essa caixa, que é a moldura, não abre. Fiz o corte para parecer que ela abre, mas é uma caixa falsa. Portanto, é uma marchetaria falsa feita na máquina, no computador e no corte a laser, e não no estilete do artesão, cortado à mão e colado. É totalmente “falsa”.

É interessante considerar essas construções e ideais. A ideia de Brasília, por exemplo, representa objetivos que às vezes não atingem o resultado, mas, ainda assim, houve uma tentativa. Na arte, também existe um anseio por alcançar esse ideal. Isso é visível nas obras com o corte perfeito do laser, na caixa bem-feita pelo marceneiro que não abre – não atende às expectativas de uma caixa, assim como Brasília enquanto cidade.
Sim, contém ironia. Essa busca pela perfeição. A imagem original é detonada. A reação das pessoas é muito interessante. Não é uma visão ingênua, pelo contrário, é um comentário sobre esse desejo de parecer perfeito, mesmo sabendo que não é. Com a consciência de que é difícil de alcançar.
Discutimos sobre o trabalho em design gráfico e os pontos de conexão com a arte, me lembrei de uma história de Dan Flavin. Ele dizia que jamais colocaria uma de suas luzes no teto, pois assim seria apenas uma luz comum. O ato de tirá-la do teto é o ato artístico. No design gráfico, a ação do artista é justamente esse deslocamento.
Eu tenho uma outra série chamada “Autorretratos estatísticos”, e que flerta bastante com design gráfico, porque são gráficos, e com o limite entre abstração e figuração que falamos, uma arte mais abstrata, geométrica. Essa série dos gráficos, tem alguns deles que eu simplesmente me apropriei dos meus exames de sangue ao longo de 10 anos. Se está no site do laboratório é um gráfico de hemoglobina, de triglicérides. Eu retiro aquilo do contexto, e vira uma obra que está falando sobre a minha vida, um autorretrato, abstrato, figurativo. Isso tem um pouco de Duchamp, que talvez tenha sido o primeiro a fazer algo assim.

Isso é um dos grandes triunfos da arte contemporânea: ela nos permite ver informações e fatos de uma perspectiva diferente.
Eu estava refletindo sobre isso enquanto falava. Estou envolvido em vários projetos atualmente, trabalhando com percepção de cores e digitalização. Estou explorando como percebemos as cores e nosso desejo de controle. Estou trabalhando em uma série de pinturas chamada “Ledo engano”, que aborda esse desejo de controle e nossas dificuldades de comunicação. A série também fala um pouco sobre o tema das fake news, da cor, que envolve diversos campos: psicologia, história da arte, percepção, saúde, medicina. No Photoshop, por exemplo, há um botão que reduz milhares de cores para apenas 256, conhecidas como safe colors (cores seguras). É um nome curioso, pois essas cores não necessariamente passam uma sensação de segurança. Elas são chamadas assim porque supostamente qualquer aparelho pode reproduzi-las perfeitamente, em vista que cada aparelho reproduz a cor de um jeito diferente. A ideia das safe colors surgiu na época dos PCs, quando ainda era difícil conseguir ter precisão com cores. Hoje em dia, com a tecnologia avançada e monitores sofisticados, isso não é mais uma preocupação. Eu pego um gradiente de cores com todas as especificações, variando do azul ao rosa, do amarelo ao que for, aperto um botão e ele me dá um desenho super geométrico. É um trabalho bastante performático. Eu pinto todas essas cores tentando reproduzir como uma máquina, uma impressora, exatamente como eu vejo, sabendo que nunca vou conseguir replicar perfeitamente. Se eu pintar com a luz natural, vou ver uma cor, mas, se utilizar uma luz artificial, vou ver outra. Além disso, se a luz for fria ou quente, vai alterar a percepção, assim como a hora do dia pode afetar como meu olho percebe as cores. Estou lidando com tudo isso e quase contando uma mentira, um ledo engano. Sem perceber, reproduzo essa mentira, como se fosse um faz de conta. Isso me lembra a nossa conversa sobre o controle, essa vontade iludida de controlar, mesmo sabendo que é impossível. Falamos de pintura, de cor, mas, na verdade, estou tratando do mesmo assunto que discuti no trabalho de Brasília, por exemplo.

Mesmo tentando controlar e reduzir as cores para as safe colors, elas não são tão seguras ou fáceis de manipular. É como tentar capturar um azul simples, mas é impossível. Isso me lembra do trabalho Perfect lovers de Félix González-Torres, no qual dois relógios sincronizados acabam perdendo a sincronia com o tempo.
Eu gosto muito de todo o trabalho dele. Esse projeto dos relógios é de uma simplicidade e uma economia estética minimalista incrível. E toda a história, tudo o que está por trás disso que estamos discutindo. Há essa tentativa de alcançar a perfeição, essa segurança. No entanto, às vezes, pode haver um pequeno defeito mecânico que faz o relógio atrasar.
E talvez disso a gente possa chegar ao oposto, que é observar a pintura e apreciá-la esteticamente, tornando-se próximo dessas cores pelo que elas representam para você, em vez de tentar identificar ou controlar. Isso se aplica à pintura, e permite apreciá-los pelo que são, trazendo também uma certa liberdade.
É um ledo engano achar que as pessoas vão interpretar o trabalho do jeito que você quer ou imaginou. Na verdade, o trabalho vai para o mundo e já não é do artista. Depende do contexto, da pessoa que o aprecia, depende de como ela recebeu. E é interessante ver também esse desapego do artista com a ética do trabalho.
Entrevista realizada em 17 de Novembrode 2023 remotamente via Zoom.

40 óleos sobre tela
37 x 50 cm (cada)
Fotos: Rogério Miranda
2010

Laminado Melamínico (Fórmica) cortado à laser
85 x 140,5 cm
Fotos: Ding Musa
2013/2014

Imagem digital corrompida impressa sobre papel algodão
45 cm x 45 cm
2019

Jato de tinta sobre papel de algodão + livro de artista
0,70 x 0,65 m (cada)
2012

12 acrílicas sobre tela + livro de artista
0,60 x 0,70 m (cada)
2012

Acrílica sobre tela
160 cm x 100 cm
Foto: Lucas Cimino
2020

35 pinturas a óleo
30 x 40 cm (cada)
Fotos: Rogério Miranda
2009

Impressão em metacrilato e impressão em papel algodão
Dimensões variáveis
2010/2015