Goia Mujalli
Goia Mujalli (Rio de Janeiro, 1985) é uma artista plástica brasileira radicada em Londres. Nos últimos 12 anos, ela se dedicou à prática da pintura, explorando uma variedade de técnicas e materiais. Na entrevista, Goia relata sua jornada na pintura, explorando do figurativo ao abstrato, com técnicas e materiais em constante evolução. Ela também apresenta sua influência, que parte da botânica, e ilustra sua abordagem intuitiva. Em mais uma vertente criativa, a artista vem explorando produção musical e como os ritmos e as sequências musicais se conectam com seus trabalhos. Confira a entrevista completa:

Goia, eu gostaria de começar pedindo para você se apresentar. Como você descreveria seu trabalho e sua prática para pessoas que talvez ainda não a conheçam?
Sou artista plástica e moro em Londres há 12 anos. Cresci no Rio de Janeiro. Estudei desenho industrial no Rio, depois fiz outra faculdade de pintura e mestrado em pintura em Londres. Hoje dou aula de pintura em duas universidades na Inglaterra. Sigo nessa jornada com a pintura há 12 anos ou mais, se considerar os cursos que fiz de pintura no Parque Lage durante a escola. Foi lá que descobri que amava pintura, meu ponto de partida. Vim para Londres com o objetivo de me distanciar da própria cultura, me colocar em uma zona de desconforto, no desconhecido, e me expor a uma outra cultura da qual eu não tinha noção. Isso também me motivava bastante na produção artística. Aqui, descobri uma paixão pela pintura e mergulhei legal durante o meu estudo na faculdade Slade School of Fine Art, onde produzi bastante e, com isso, aprendi muito. O meu trabalho foi do figurativo ao abstrato. Teve um período em que usei muito a serigrafia. Através do apagamento, a pintura parecia serigrafia e, através da serigrafia, eu tinha uma imagem que parecia costura, e comecei a costurar. O meu processo me leva ao próximo passo, e sempre gosto de inserir novos técnicas. Agora estou desenvolvendo bastante o bordado, máquina de costura com tecido e pintura. Estou voltando a inserir alguns elementos figurativos que há uns 10 anos existiam no trabalho e, aos poucos, estão retornando de outra forma no processo. É tão legal ver isso, porque fiquei querendo voltar a este elemento, mas não sabia como.
E, falando do processo, pensando nas técnicas e no material, no começo você já pensava em trazer esses outros elementos? Ou foi algo que foi desenvolvendo ao longo desses 12 anos?
Venho desenvolvendo ao longo dos anos. Sempre houve repetição de símbolos, como sequência e repetição. Antes eu usava a pincelada como repetição. Comecei a achar que não era suficiente, que precisava usar formas que viessem de algum lugar, que contasse uma história. Essas formas vieram da botânica. Durante a pandemia, lembrei que já havia incorporado formas da botânica em algumas pinturas que havia feito, principalmente da flora brasileira, e, durante a pandemia, desenvolvi um arquivo de símbolos extraídos de plantas. Para mim, o legal do processo da pintura é não saber o que vai acontecer. Ela vai me guiando, às vezes leva um ano, às vezes uma semana, três meses, a pintura tem seu próprio tempo. E às vezes a pintura nunca termina. No entanto, eu sempre vou adicionando elementos. A complexidade e a profundidade das camadas e texturas são elementos que venho desenvolvendo. E esse vocabulário de formas, esse arquivo começou a se expandir. Novas formas começaram a entrar no processo, como formas aquáticas. Portanto, não só o tropical faz parte do trabalho, como também outras formas da natureza.

Você tem interesse específico no Brasil ou na Amazônia em relação ao desenvolvimento dos arquivos? Ou é em qualquer lugar que você esteja incluindo a Inglaterra? Como funciona esse interesse geográfico do arquivo?
Por um tempo, me concentrei nas plantas tropicais, especificamente do Brasil. Fiz uma conexão com o desmatamento, como a extração da terra, então essa ideia de abstração estava relacionada a isso. E até a costura é uma forma de reparo, de consertar, costurar e corrigir os buracos e os erros. Durante uma residência que fiz na Itália, por acaso, fui atraída por flores e formas tropicais. Em paralelo a isso, há uma pesquisa sobre migração, colonialismo, que venho investigando no trabalho, estudando a origem da planta, de onde ela veio, por curiosidade. Às vezes, essa pesquisa fica apenas como uma pesquisa, não necessariamente incorporada ao trabalho. Mas, no caso dessa residência, eu utilizei as pétalas como pigmento da Bougainville. E isso se tornou um projeto que venho desenvolvendo. Fui para o Rio, fiz mais uma série desse trabalho, que está guardado e continua em andamento.
E é interessante pensar também que a flora, as plantas, têm uma característica quase abstrata. Especialmente quando você as vê em conjunto, observando as cores e as formas. Acredito que há um caminho da forma para o abstrato que podemos observar no seu trabalho. Você realiza algum tipo de planejamento prévio ou depende da tela e do espaço para fazer desenhos? Como funciona esse processo?
Faço desenhos como estudos. Uso uns marker pens e stencils pequenos. A partir desses desenhos, desenvolvo um processo de camada e sobreposição. Sigo um plano inicial, mas esse plano se transforma. No entanto, já tentei reproduzir desenhos, mas a aura do trabalho está no desenho e a pintura se torna uma reprodução daquele momento. Gosto de manter uma espontaneidade no trabalho. Deixo o processo aberto ao acaso e às surpresas. Acredito que isso tenha uma relação com a vida. Por mais que planejamos, existem coisas que estão fora do nosso controle.
Você mencionou que experimentou na Itália usando flores como pigmento também. Como você desenvolve essa pesquisa?
Na época, a flor Bougainville fez muito sentido, porque tem toda uma história. Ela foi encontrada no Rio de Janeiro por Jeanne Baret, uma mulher que embarcou em uma expedição francesa vestida de homem. Mulheres não podiam embarcar em expedições. Achavam que ela tinha um caso com um dos homens que estava no barco. Jeanne Baret descobriu a flor no Rio, mas o nome foi dado ao chefe da expedição, Louis Bougainville. E ela não foi lembrada. Suponho que não ficou muito bom para ela depois que descobriram que ela era mulher. Mas essa flor carrega essa história para mim, então fazia sentido usá-la como referência.


Como você vê sua pesquisa influenciando, talvez formando, ou não, a pintura? Como você traz a pesquisa que faz para a tela?
O feminino está presente no trabalho. Não necessariamente é evidente de uma forma literal, mas através da costura, do bordado e através da representação de formas de plantas que podem parecer eróticas. Esses materiais de costura carregam uma história do feminismo. Mulheres se reuniam para conversar e costurar, pois não eram aceitas no meio artístico, entre outros trabalhos. Acredito que o feminino está presente ali, contando essas histórias. Com relação às histórias de migração e colonização, são transmitidas por meio das formas das plantas. Não é algo direto ou evidente, mas está codificado nesse âmbito dos símbolos.
A interpretação da arte abstrata pode variar, dependendo dos pontos de referência de cada pessoa. Alguns podem até reconhecer algumas formas, enquanto outros podem não perceber ou interpretar de forma diferente. A percepção da pintura abstrata acaba sendo influenciada pela pessoa que a está confrontando.
Pois é, e tem formas que são quase reconhecíveis também.
Agora, passando para a próxima pergunta, gostaria de saber quais foram os principais desafios que você enfrentou ao longo da sua carreira como artista. Há alguma situação específica que você gostaria de compartilhar?
Nossa, pergunta difícil (risos). Na verdade, quando se trata de trabalho, estou sempre em busca de algo. Essa busca se torna um desejo de encontrar algo significativo. No entanto, é uma busca eterna e um desejo constante de descobrir algo novo. Tenho essa necessidade de manter o trabalho sempre fresco (fresh). Introduzindo elementos novos para me manter motivada.
Estou sempre construindo o trabalho. Vou desenvolvendo, sempre inserindo elementos novos e tentando complicar cada vez mais o trabalho. As respostas e essa busca… Se um dia encontrar as respostas, acabou (risos). Me mantenho nesse desejo e nessa busca. O não saber é o que me leva a produzir.
É muito interessante pensar nisso, porque, da forma como você descreve, é de uma maneira bem viva, mutável, e não se trata apenas de desenvolver, mas de continuar mudando, continuando a se tornar a próxima coisa que é. É muito interessante pensar como alguns artistas são o exato oposto.
É mais sobre usar a pintura como uma forma de investigação de ideias. Existem pintores que usam a pintura como uma ideia, apenas executando uma ideia, aplicando uma camada e pronto.
Existe a pintura que você vai descobrindo através do processo, e não se sabe muito o que vai acontecer. É uma pintura intuitiva. A minha pintura, no caso, ela reflete muito essa questão de estar em constante movimento e mudando. Sempre coisas novas vão acontecendo, e estamos em constante mudança com a nossa pessoa.
O seu trabalho também possui um ritmo, assim como a forma como você dispõe os elementos dentro do espaço da pintura. Como a música está entrando ou já faz parte da sua vida e como ela influencia o seu trabalho?
Durante o meu mestrado, tive um professor que me aconselhou a usar a linguagem da música para descrever o meu trabalho, pois havia essa questão de ritmo, repetição e sequência. Neste ano, decidi entrar em um curso de DJ e produção musical. Não esperava me dedicar à produção musical, mas, para minha surpresa, acabei gostando mais dessa área do que da parte de DJ. Percebi que a produção musical é semelhante à minha pintura, pois utiliza a mesma linguagem de sequência, ritmo, transparência e profundidade que a música eletrônica, por exemplo. Quanto maior o espaço, mais eco e profundidade o som possui. Também existem camadas de som relacionadas com as camadas da pintura, o sequenciamento das batidas e as formas que utilizo também têm um certo sequenciamento. Me apaixonei pela produção musical, venho desenvolvendo e não sei ainda o que vai acontecer.


Goia, onde você encontra inspiração? Quais são seus pontos de partida para continuar sua pesquisa e criar seus trabalhos?
Uso livros de botânica, visito parques botânicos e tenho muitas plantas no estúdio. Fui ao parque do Burle Marx, no Rio, onde descobri que há uma árvore que demora 30 anos para florescer e, assim que floresce, morre. Fiquei pensando “Quando isso vai acontecer? Preciso estar lá, preciso pegar a semente dessa flor!” (risos). Também tem a bromélia, com texturas que, quando vistas de perto, parecem pixeladas, quase como uma impressão digital. Percebo muito uma conexão entre a natureza e o mundo digital. Assim, me alimento disso e da vivência com os livros e a literatura. O meio presente de produzir é quando existe a magia no processo, que acontece quando estou muito imersa no processo e começo a conectar tudo no mundo, por exemplo, com a literatura. Ano passado, estava lendo o livro Uma aprendizagem e o livro dos prazeres, da Clarice Lispector, e havia uma parte do texto que falava sobre a personagem Lori, que se considerava escolhida pelas árvores para as folhas caírem sobre ela. Nesse trecho, ela pegava uma folha mórbida que tinha guardado – porque um dia caiu sobre ela – e decidia jogá-la fora, pois não queria carregar nada mórbido, sabendo que mais folhas iriam cair. No momento que ela joga a folha fora, outra folha cai em seu rosto, nos cílios. Logo após ler esse trecho, saí de casa. Fui ao mercado e, quando estava voltando, uma folha caiu em meu rosto. Então, eu pensei: “Clarice? É você que está falando comigo?” (risos). Voltei para casa e fiquei pensando e lamentando por não ter levado aquela folha para casa. Quando olhei para o trabalho que estava no meu estúdio, percebi que eram folhas caindo. Estava ali o tempo todo, não precisava buscar nada. Esse momento se tornou o nome da exposição “A carne das folhas”, que faz parte do texto da Clarice e fala da parte interna da folha, que é como uma carninha verde. O trabalho são formas vermelhas caindo. Utilizei novamente esse stencil em uma exposição que tive este ano na Kupfer Projects, eram essas formas voando.

E hoje em dia é difícil, porque cada vez mais, nós, como sociedade, estamos focados na produção. Qual é a próxima coisa que você vai fazer? Qual é a próxima coisa que você vai atingir? E isso realmente atrapalha o processo criativo. Na realidade, todos nós somos criativos.
Sim! Acho que todo mundo é criativo, basta apenas desenvolver.
Entrevista realizada em 6 de outubro de 2023 remotamente via Zoom.

Acrílico, tecidos e bordados sobre tela I 140 x 175 cm
2022

Acrílico, tecido, bordado e costura sobre tela I 81,5 x 61 cm
2022

Acrílico, tecido, bordado e costura sobre tela I 81,5 x 61 cm
2022

Acrílico e bordado sobre tela I 40,5 x 36 cm
2022

Acrílico e bordado sobre tela I 40,5 x 36 cm
2022

Acrílico sobre tela I 167,5 x 137,5 cm
2022