Nicole Kouts

Nicole Kouts (São Paulo, 1997) é uma artista que navega entre as artes visuais, audiovisuais, cênicas e a ilustração. Sua pesquisa artística se concentra na intersecção entre tecnologia e memória, explorando a transformação temporal e midiática das imagens. Na entrevista, Nicole discute como seu trabalho multimídia teve início através do desenho e como sua prática se transformou ao descobrir a infinidade de possibilidades criativas que a internet oferece. A artista também relata sobre suas raízes culturais e como elas influenciam seu trabalho. Como neta de imigrantes gregos, a relação com a ancestralidade e a vivência na comunidade grega em São Paulo desempenharam um papel significativo na formação de seu imaginário visual e na maneira como ela aborda seu trabalho. Confira:

Primeiramente, muito obrigado por aceitar falar com a gente e separar um tempo do seu dia para isso. Eu queria começar pedindo para você se apresentar, com qualquer tipo de informação que você ache relevante, pensando num público que talvez ainda não conheça você e o seu trabalho.

Obrigada pelo convite, estou feliz de estar aqui. Meu nome é Nicole Kouts, tenho 26 anos e nasci na cidade de São Paulo. Sou artista multimídia graduada em Artes Visuais e pós-graduada em Cenografia e Figurino pela Belas Artes, em São Paulo. Tenho grande interesse em pesquisar interlocuções entre as artes visuais, cênicas e audiovisuais. Trabalho principalmente vídeo, colagem, performance, fotografia, instalação e net art. Também atuo como ilustradora e com figurino e cenografia no teatro.

De onde veio seu interesse pela linguagem multimídia? E o que é, para você, “multimídia”?

Para começar, vou contar sobre como comecei a me ver como artista. Quando eu era adolescente, curtia muito desenhar e navegar na internet. Criei um blog aos 13 anos e, a partir daí, encontrei outros artistas da mesma faixa etária pelo Brasil que também postavam seus desenhos, e a gente começou conversar, criar amizade e formar coletivos de quadrinhos e ilustração, tudo online. Ficava muito fascinada com as possibilidades que surgiam desses experimentos, chegamos a convidar ilustradores mais conhecidos que topavam contribuir com nossos blogs e davam uma força nos eventos de quadrinhos que participamos, era bem divertido.

Os horizontes foram se ampliando quando vi que era possível compartilhar minhas criações feitas ali na mesa do meu quarto com ajuda da internet. Muito cedo eu percebi que, ao desenhar e escanear, o desenho já virava outra coisa. Então, acho que esse processo da transformação do analógico para o digital ficou muito internalizado em mim. Hoje em dia, percebo que isso é uma das matrizes do meu trabalho. 

Com esse processo de divulgar as ilustrações online, me aproximei também das artes cênicas. Comecei a fazer cartazes para peças a convite de amigos que estavam estudando teatro na época. Eu logo percebi que curtia os bastidores e a ideia de trabalhar em coletivo, me sentia estimulada quando estava em contato com outras visões artísticas. Ilustrei cartazes, livros, capas de álbuns, e nesse percurso decidi estudar artes visuais na faculdade e fazer alguns cursos livres. Aí tudo se transformou ainda mais. A questão da arte multimídia parte desse desejo de abranger técnicas variadas e ver meu trabalho se ramificando por caminhos inesperados. Durante a faculdade, experimentei muito com linguagens, com algumas eu me identifiquei mais, outras, menos. Eu enfrentei um pouco de resistência com a pintura e a materialidade da tinta, continuo achando desafiador. Mas, quando tive contato com as técnicas de gravura, que resultam em imagens mais bidimensionais, eu pensei: “acho que isso é minha praia”. Várias camadas, uma imagem em cima da outra, sedimentos de tempo. De algum jeito, achei que a gravura tinha a ver com o vídeo e com o universo digital, talvez por causa dessa ideia de camadas, dos layers, como nos programas de edição. Foi um momento bem chave para mim quando percebi que o meu trabalho tinha a ver, ao mesmo tempo, com imagem gráfica e com imagem em movimento – às vezes mais para um lado, às vezes para o outro. Acho que o pensamento “multimídia” conversa com esse desejo de misturar e multiplicar, e penso que minha história com as artes também partiu de um entendimento multimídia do processo de criação.

Retrovisão, 2024

Como foi o seu acesso à videoarte, à linguagem multimídia na faculdade? 

Na graduação em artes tive matérias sobre vídeo, ao longo de dois semestres, e sobre arte e tecnologia, que foram incríveis. Algo que achei curioso, e que acabou sendo bastante estimulante, é que as aulas não se apegavam tanto à técnica. Acredito que a intenção não era ensinar a mexer em todos os recursos de edição de um programa específico, mas filmar ideias e usar a plataforma do vídeo para comunicar algo. A partir de meus experimentos e conhecendo trabalhos em vídeo de outros artistas, percebi que esses materiais em um estado mais “cru” também eram potentes e poderiam ser trabalhos em si mesmos. Eu me identifiquei com a ideia de que a videoarte, muitas vezes, não é necessariamente o resultado de uma técnica precisa de edição ou do melhor equipamento de captação. Acho que por isso me entendi com o vídeo. É uma mídia muito maleável e complexa, especialmente nesse tempo em que a gente vive, de computador, celular com câmera, aplicativos de edição, gravação de tela, redes sociais.

Como você vê essa transformação do vídeo em obra de arte, numa tela que vai confrontar o espectador?

Costumo andar com um caderno e, quando tenho uma ideia, eu anoto e desenho. Esse pensamento gráfico, que é por onde eu comecei, está sempre comigo. Mesmo não fazendo tantos trabalhos com desenho diretamente, o lado gráfico de síntese está muito presente. Quando penso em uma imagem ou uma associação de questões para um vídeo, isso vai para o papel e, de algum modo, já consigo visualizar a forma do trabalho final. Só que, às vezes, falta algum elemento para chegar a esse resultado, e esse processo de pesquisa pode levar poucas horas ou vários anos. Quando o trabalho está pronto, na maioria das vezes o resultado é muito parecido com a ideia matriz que estava lá no caderno. O processo de concepção em desenho tem a ver até com o jeito de mostrar a obra depois. No caso de um vídeo filmado como gravação da tela do computador, já levo em conta um aspecto pixelado que resulta de uma captação como essa, com menor resolução, e isso se torna mais um dado da obra quando apresentada em telas, projetores e outros formatos.

Você geralmente usa aparelhos mais modernos, mais antigos?

Eu fiz o meu primeiro trabalho em vídeo em 2016. De lá até hoje, eu passei por um ou dois computadores diferentes, uns três celulares e agora eu tenho uma câmera fotográfica um pouco melhor. Fui me virando e aproveitando as possibilidades desses dispositivos, às vezes pegava uma ou outra coisa emprestada também. Mas sempre de um jeito – acho que isso é um assunto no meu trabalho, seja com colagem, com imagem digital, fotomontagem – em que eu me aproprio dos recursos que encontro e os faço resultar na forma que eu imaginei. Eu gosto de pensar que é como se fosse um truque de mágica. Tem muitos truques envolvidos no meu trabalho que dão a sensação de que uma coisa foi feita de determinado jeito, só que, às vezes, foi de uma maneira muito mais simples e improvisada. Por exemplo, tem um vídeo chamado Monólogo (2021), que é uma chamada de vídeo no Zoom entre orelhas pintadas pelo Hieronymus Bosch, de várias obras dele. Essa colagem foi feita no Photoshop, por meio de imagens estáticas, e editada como um vídeo. Eu simulei uma videochamada que não foi feita no Zoom de fato. A moldura que indica que a pessoa está falando foi criada a partir de contornos que iam mudando em sequência, como se fossem stop motion. Vejo o processo de edição como um playground: como eu posso fazer uma gambiarra que resulte na visualidade que procuro? E, às vezes, não precisa de muito. Gosto de brincar com isso [risos].

Monólogo, 2021 | Video 7’23’

A tecnologia, que é uma coisa que a gente geralmente conecta com o futuro, na verdade ajuda a marcar o passado, na nossa situação atual de avanços tecnológicos rápidos. 

Esse é um assunto que eu curto muito, o resgate de passados, próximos e distantes. Acho que a discussão do tempo é um fio que liga meus trabalhos. A relação do hoje com algum outro tempo. A partir disso, geralmente escolho duas, três coisas, e as combino de um jeito que possa provocar algum estranhamento, um atrito no tempo presente. A maioria dessas questões não se resolve em uma obra. Algumas que se repetem, outras são reformuladas, novidades aparecem e, assim, os trabalhos vão conversando entre si. 

E como funciona essa parte de expandir a sua pesquisa e os seus interesses e fazer esses recortes que se tornam obras? Como é para você fechar um projeto, uma pesquisa para criar um trabalho, mas também continuá-la depois?

Alguns assuntos guiam a minha pesquisa, vão se transformando, e uma recorrência é a relação entre tecnologia, memória, tempo e, de alguma maneira, arqueologia. Só que a arqueologia em um sentido mais poético. Parte disso tem a ver com a minha geração e a ligação com o universo digital. Fico pensando que, nos primeiros anos da minha infância, presenciei um mundo se despedindo do analógico e migrando para o digital. Ainda tive uma infância mais analógica, mas já jogava joguinhos no computador, por exemplo. Quando tinha uns dez anos, via pessoas usando celulares flip. E, na minha adolescência, o smartphone já era comum. Foram transições aceleradas muito marcantes, e esse assunto remete à arqueologia, porque, o que ficou para trás, parece que ficou muito para trás. Isso tudo gera um repertório de imagens bem interessante para explorar. Ao mesmo tempo, outra recorrência nas minhas pesquisas é a relação com a ancestralidade grega. Penso nos trânsitos e deslocamentos dos meus avós, bisavós, que imigraram da Grécia e que lá também já tinham passado por um processo de migração forçada dentro do próprio país, porque eram da região da Ásia Menor. Eles vieram para o Brasil e criaram laços na comunidade grega de São Paulo. Uma comunidade bem pequena, mas que, como toda comunidade de imigrantes, é composta por diversas camadas e aspectos culturais específicos que configuram uma certa identidade. Crescer nesse contexto foi e continua sendo uma grande influência em meu imaginário visual e afetivo, com o idioma, a música, os objetos, tradições, as memórias de um lugar que ficou para trás no tempo, a relação com a igreja ortodoxa, a Grécia clássica, que parece tão distante da história grega recente, mas é tão presente em imagens (e no contexto da arte, principalmente). Então, todo esse processo de resgatar e reinventar passados foi ganhando espaço em meu trabalho.

Eu tento colocar, a partir do meu ponto de vista, como que todas essas coisas se combinam. Como se fosse um jogo de combinações mesmo, um quebra-cabeça. Eu quero falar disso, mas eu também quero falar disso. Será que dá para juntar? Às vezes dá, às vezes não, mas aí eu faço um trabalho sobre a dificuldade de juntar [risos]. 

Como você viu o digital fazendo parte da sua formação cultural? 

Essa é uma questão-chave que gosto de manter em aberto, porque não acho que tenha uma resposta definitiva: qual é a minha relação com o digital? Como isso influencia a minha vida? Parece que a cada vez influencia mais. Quando, por exemplo, eu trabalhava nos coletivos de quadrinhos, com ilustração, a relação era bem orgânica, não era uma metarrelação, “estou trabalhando no computador consciente de que é um computador”. Usar a internet era uma parte das relações sociais, mas eu acho que hoje tem algo que está à frente disso. A gente entende que é uma ferramenta e que essa ferramenta tem um poder, uma força de controle, sabemos que não é imparcial. Quando eu escolhi (porque acaba sendo uma escolha), dentro das linguagens com as quais eu trabalho, trazer a tecnologia e o universo digital também como questões filosóficas – não só a mídia em si, mas também falar da tecnologia como um problema –, aí o trabalho se transformou bastante, porque tudo acaba virando um possível assunto e um possível questionamento. Uma videochamada, uma imagem interessante que aparece na tela, uma imagem que dá um erro, ou um programa novo que é lançado, por exemplo, as relações com inteligência artificial, acabam não sendo só um acontecimento, mas viram algo que eu posso absorver para uma pesquisa mais ampla também. É estimulante, eu acho que talvez essa seja a palavra. É uma relação de estímulo, de vai e volta. 

É interessante pensar na sua obra Doppelgängers (2020) porque, quando você a criou, você dependia de uma resposta vinda de uma pessoa, e agora já tem gente usando inteligência artificial para criar os seus próprios doppelgängers.

Essa obra começou em 2020. É curioso como, em poucos anos, projetos como esse ganham novos sentidos porque, de repente, surge um novo recurso digital que muda totalmente a visão sobre aquilo. Acho isso incrível, surgem mais espaços para discussão, não é uma obra com ponto final no tempo. Esse trabalho é sobre uma busca que um computador não poderia fazer, porque existem nuances próprias da percepção humana envolvidas. A pergunta é: “você já viu alguém que se parece comigo? Ou acha que me pareço com alguém? Se lembrar e/ou por acaso encontrar poderia, por favor, uma foto me enviar?” Algumas das pessoas que me mandaram fotos nunca me viram pessoalmente e só me conhecem pela internet, por foto. E aí, de repente, outra pessoa que me conhece há muitos anos me manda a foto de alguém que me faz pensar: “nossa, não parece comigo, o que essa pessoa viu de semelhança?” São sutilezas de reconhecimento que talvez um programa de computador dificilmente reproduziria. Eu acho que não é nem questão de comparar a capacidade de um computador ou de um grupo de pessoas, mas é sobre o tempo em que o trabalho se prolonga e a percepção do outro. Isso me interessa muito, essas extensões, expansões e contrações do tempo. A maioria dos meus vídeos são longos, se repetem, demandam uma certa atitude de olhar e esperar, e outras imagens são muito rápidas. Trabalhos em que você bate o olho e é aquilo.

Eu queria perguntar se tem algum desafio que você encontrou na sua carreira, ou que você tem encontrado na sua pesquisa, produção.

Essa área é desafiadora mesmo. Os desafios estão sempre aí, em maior ou menor tamanho. Um deles é em relação ao processo de construção de uma trajetória. Eu acho que, no campo das artes, isso não é uma coisa óbvia, não tem um caminho que você deva seguir ou algo que você deva fazer de determinado jeito. Muitas vezes os acessos são indiretos e é difícil saber como e por onde navegar para apresentar seu trabalho. Um desafio também é conciliar mais de um interesse dentro das próprias artes. Acho que existe, em geral, no mercado, ou até quando você se apresenta como artista, uma complexidade ao se situar na interlocução entre mais de um meio nas artes ou entre outras áreas de trabalho. No meu caso, meu trabalho com ilustração e com artes cênicas faz parte da minha pesquisa também, e uma coisa alimenta a outra. São exigências externas de muitas predefinições e resumos que, na maioria das vezes, não condizem com a pluralidade do todo. O trabalho não é cristalizado, não é só aquilo que mais aparece, e são muitas as camadas que podem compor os trajetos de uma pesquisa artística. 

A arte multimídia e digital é desafiadora porque, muitas vezes, os meios utilizados não são os mais tradicionais. O vídeo tem ganhado mais espaço, com mais formatos de arquivamento e preservação, mas tem alguns trabalhos, por exemplo, um happening digital, que é uma imagem, ou uma captura de tela, que não têm muito no que se pautar, onde buscar uma referência. Por exemplo, fiz o site-specific Hestia virtual (2022), que acontece dentro de um jogo online, o Habbo Hotel. O espaço se chama Hestia Virtual, e é o templo da deusa Hestia, do Olimpo, que criei dentro desse jogo. É uma sala aberta para que as pessoas possam entrar com seus avatares, interagir e conversar com a representação da deusa. Até na hora de descrever como funciona o site-specific digital ou encontrar formatos para registrar essa obra existem desafios. Tenho sido cuidadosa em construir os registros dos meus trabalhos de forma organizada. É uma maneira de lidar com esse desafio, printando as telas, registrando exposições digitais, exposições em outros países, projetos diversos. Procuro manter esse arquivo ordenado, com datas, imagens, porque a mídia digital é muito fugaz, a gente nunca sabe o que pode acontecer com uma nuvem ou com um HD. Penso, se eu não fizer com esse cuidado, quem vai fazer? É uma forma de valorizar o meu próprio trabalho. Isso exige certa disciplina e eu acredito que, com o tempo, vai ter valido a pena.

Hestia virtual, 2022

Documentação é realmente um desafio para todo mundo, mas, para a arte multimídia, é um desafio maior porque se relaciona com o trabalho em si, por exemplo, um arquivo. Qual arquivo usar, como atualizar esse arquivo, como converter para uma próxima mídia? 

Isso vira parte do trabalho, às vezes o trabalho é isso. Tenho um trabalho que se chama Como perguntar tudo?. É um print de tela que eu fiz em 2021, quando foi anunciado que o Yahoo Respostas ia acabar. Logo que fiquei sabendo, fiz uma conta no Yahoo Respostas. Usei muito a plataforma, mas percebi que não tinha um perfil lá. Então eu fiz uma pergunta no último dia do Yahoo Respostas, que é: “Como perguntar tudo?”. E aí, três pessoas me responderam. Uma disse assim: “Faça as perguntas até antes das 21h”. A outra disse: “Nível 1 só faz 5 perguntas por dia”. E a última resposta foi: “é tempo perdido”. Se eu tivesse ensaiado, as respostas não teriam ficado tão boas. Eu printei essa tela da pergunta com as respostas e o trabalho é essa imagem, porque o Yahoo Respostas não existe mais, sumiu tudo. Então, o registro do trabalho é o trabalho. É um happening digital em texto. E o happening é também o print da tela, que é uma ação. A documentação acaba dialogando com o trabalho quando ele é multimídia.

É muito fácil pensar no digital como permanente, porque é tão simples salvar esses arquivos em algum lugar, mas é diferente pensar num serviço, num prédio que foi destruído, numa empresa que deixou de existir. O Yahoo é um site que deixa de existir e marcar esse fim, que geralmente pode passar despercebido, é interessante.

São essas arqueologias recentes que eu comentei. Também tenho um vídeo chamado Jogos da minha infância (2021), um memorial que fiz porque o Adobe Flash Player também acabou. Eu gravei uma gameplay jogando aqueles joguinhos de sites que na época eram categorizados como “jogos para meninas”, de pintar a unha da boneca, da Barbie, da Polly, escolher as roupas, meus jogos de computador favoritos quando era criança. Era uma coisa no meu imaginário, estar online e jogar esses joguinhos, que eram bem simples, mas eram coloridos, cheios de barulhinhos. Quando vi que o Adobe Flash Player ia acabar, busquei esses jogos e, durante algum tempo, fui gravando a tela enquanto jogava. Depois, fiz esse vídeo, que é uma composição desses materiais e de uma foto do computador onde eu jogava. É uma documentação que também é um trabalho sobre construção de memória em uma plataforma que agora não existe mais. 

Jogos da minha infância, 2021 | Video 1’00’04

O processo de pesquisa é bastante importante na sua prática. Como as residências artísticas funcionam para você na hora de desenvolver trabalhos? Como é, para você, se ver fisicamente num ambiente que é diferente do lugar familiar? 

Para mim é bem instigante, é algo que tensiona mais ainda processos que estão em andamento. O que mais se transforma, quando me proponho a trabalhar em um ambiente diferente, acredito que seja para onde estou olhando, para onde eu posso apontar. São muitos estímulos novos. Só que as questões, em geral, eu trago e levo comigo. Assim como comentei sobre meus vídeos que se prolongam, que se repetem, eu acho que a pesquisa artística tem um pouco disso também. Por exemplo, tem dois trabalhos novos que eu expus na Dinamarca, na exposição individual “Enigmas” (2023). Eu estive lá, numa cidade pequena, bem ao norte, foi uma residência de três, quatro meses, em que eu tentei entender como aquele lugar era tão diferente do que eu estou acostumada, eu senti isso muito intensamente. Porque lá era tudo muito ordenado e visualmente muito mais geométrico, uma geometria dura, um clima frio, e aí fui observando e anotando tudo isso e fui atrás de alguns sebos, porque outra coisa que eu adoro é encontrar revistas antigas e recortar material de arquivo. 

Eu achei algumas revistas locais, lá dos anos 1950, quase todas meio sépia e com uma textura de papel quase se desfazendo. Peguei esse material e comecei a recortar e fazer junções milimétricas de uma foto com outra. Fiz uma série de 14 colagens, cada uma são três imagens juntas, só que de uma maneira que parece uma fusão mesmo. Eu falo colagem, mas o que eu mais tenho trabalhado ultimamente é uma ideia de fusão de imagens, para parecer que uma imagem está imersa na outra, de forma que a colagem em si não é tão marcada. Isso de fundir uma imagem na outra eu faço no papel mesmo, mas, em outros casos, utilizo o próprio recurso digital, o Photoshop. É também um truque. Essa série de imagens, que são os enigmas, eu juntei e transformei em novas histórias, que conversam com o mistério que permeava minhas observações desse lugar.

Eu também fiz um vídeo, Espelhos para olhos cansados (2023), a partir de óculos que eu encontrei numa loja de 1,99, que se chama óculos preguiçosos. Eles têm um recurso de espelho que você consegue ler ou mexer no celular sentado ou deitado, o que eu achei muito engraçado. Eu pensei: “nossa, preciso comprar isso, que com certeza vou usar para alguma coisa”. Isso é praxe no meu trabalho. Eu vejo alguma coisa, deixo ali guardada e, nem que demore cinco anos, dez anos para usar, eu sei que vai virar alguma outra coisa. Eu os deixei ali [os óculos] e fiz um desenho, estruturei uma ideia de vídeo e coloquei em prática. É um vídeo em que eu performo utilizando esses óculos para observar paisagens da natureza e cenas bem silenciosas dessa cidade dinamarquesa, o mar, o céu ensolarado, um gramado bem verdinho. Esse vídeo conversa com a ficção científica também, tem um quê de se colocar em outro espaço-tempo, e a imagem dos óculos grandes no rosto causa um estranhamento e cria um diálogo com as imagens de pessoas utilizando óculos de realidade virtual hoje em dia.

Você mencionou a sua conexão com a sua ancestralidade, como isso se apresenta no trabalho?

Está presente em muitos trabalhos, mais ou menos diretamente, mas o principal acaba aparecendo não como um tema, mas no processo de pensar a visualidade, a repetição. Vou dar um exemplo. Eu cresci frequentando uma pequena igreja ortodoxa grega no centro de São Paulo, que, conforme a tradição, é totalmente preenchida por imagens, os ícones bizantinos. Essas pinturas têm um aspecto chapado e uma padronização visual. O próprio princípio é de que essa tradição milenar não mude, que os ícones sejam pintados da mesma maneira, que as histórias sejam representadas da mesma forma, e que esse processo em si também é parte do ritual. E aí, eu, pequenininha, ali, ouvindo os cantos em grego arcaico e olhando para todas aquelas imagens, isso foi marcando uma percepção visual, em um ambiente forrado por imagens que se comunicam entre si e com quem as observa. Essas imagens têm um poder, porque elas são colocadas num ambiente sagrado, são feitas para devoção. Os mesmos ícones, em menor formato, também estão presentes em altares domésticos nas casas de familiares e de outras pessoas da comunidade. Eu acho que todo esse conjunto, mesmo que na época eu não entendesse muito bem o que significava, de algum jeito ligou alguns pontos na minha cabeça sobre possíveis relações entre imagem e tempo. Sobre o poder das imagens.

Hoje eu percebo que o meu trabalho tem algum lastro que tem a ver com a vontade de criar colagens, de fazer fusões de imagens que são chapadas, que são bidimensionais e em que, a partir daí, tempos vão se sobrepondo. É uma forma de usar esse repertório visual que traz muita força de ritual, mas está em um contexto totalmente diferente. O meu trabalho tem isso de colagem de tempos, mesmo nos vídeos, uma vontade de juntar uma coisa com a outra e fazer daquilo uma fusão, tornar uma coisa só.

Espelhos para olhos cansados, 2023 | Video 4’19’

Entrevista realizada em 6 de dezembro de 2023 remotamente via Zoom.