Leticia Lopes
Leticia Lopes (Campo Bom, 1988) é uma artista visual brasileira nascida no Sul do país. Desenvolveu sua linguagem em pintura a partir da colagem e da influência do cinema e da fotografia. Hoje, seu interesse permeia um campo de inquietação na pintura. Nesta entrevista, ela nos leva a explorar o caráter ambíguo por trás de suas composições, por meio de uma investigação de suas inspirações em locais, objetos e realidades que a assombram. Leticia enfrenta o desafio de trazer essas imagens para a pintura, revelando um processo criativo fluido e aberto, no qual segue as imagens que sussurram em sua mente e as transforma em pinturas. Confira:

Leticia, muito obrigado por aceitar esse convite. É um prazer conversar com você e tê-la como parte desse projeto. Para a gente começar, eu gostaria de pedir para você se apresentar. Fazer uma introdução e se apresentar para quem ainda não é familiar com a sua prática.
Eu também te agradeço pelo convite! Meu nome é Leticia Lopes, eu nasci em Campo Bom, interior do Rio Grande do Sul, perto de Porto Alegre. E às vezes as pessoas perguntam: “Você sempre quis pintar? Sempre quis ser artista?”. E eu sempre quis, sem saber exatamente o que era. No entanto, foi quando comecei a estudar um pouco de cinema e história que a minha trajetória, a minha linguagem se desdobrou em pintura. Mas ela vem muito da colagem também. Eu diria que me apresentar dentro da profissão que eu exerço, que é artista visual com ênfase em pintura, é entender que ela [a pintura] nunca está isolada. Está sempre em diálogo principalmente com cinema e fotografia, embora não fique aparente. Eu me formei em Porto Alegre e agora estou morando em São Paulo e tive algumas experiências fora do país que foram bem importantes. A pintura para mim é muito aberta. Tenho a visão de algo inquietante, como se o mundo se expandisse conforme vou pesquisando pintura.
E qual foi o caminho para você chegar na pintura como mídia para você se expressar como artista?
Isso foi engraçado, porque fiz dois anos e meio de design e ali não tive esse contato. Foi o convívio que eu tive com pessoas que me mostraram como o cinema se desenvolvia como linguagem. Um amigo meu que gostava muito de filmes trash me apresentou Tarantino, e comecei a entender algumas coisas sobre a sutileza de saber cortar, colocar um diálogo de certa maneira e comunicar por imagem, sem necessariamente precisar traduzir depois. A imagem e o som vêm para mim muito juntos, e nesses primeiros entendimentos percebi que a imagem não precisava de som, era como se a ideia de imagem regredisse na minha percepção. Nesse momento eu entendi que, na pintura, mesmo ela sendo muito antiga, ainda existe alguma coisa. Essa coisa é feita à mão, uma matéria aplicada sobre um tecido como suporte. Embora eu ache o cinema fascinante, eu acredito que não seria uma boa cineasta, mesmo sendo uma entusiasta, por achá-lo tão complexo e rico. Na pintura eu consegui entender que meu olhar é muito condizente com aquela linguagem. E a maneira como eu cruzo as coisas na vida também.
É interessante ouvir sobre essa sua inspiração no cinema, porque acredito que as suas pinturas têm uma história e imagem próprias, que vão além do figurativo. Quando pensamos, por exemplo, no começo do cinema, filmes como Nosferatu – o primeiro filme de terror já feito –, o seu trabalho tem uma obscuridade que desafia a pintura como mídia, pois a produção da pintura é tangível, e o seu resultado não é tangível, embora ainda seja figurativo. Conta um pouquinho para a gente sobre essa sua inspiração e a manipulação com a pintura.
Na primeira vez que eu vi uma foto sendo revelada, no químico, era um retrato, e o processo foi muito assombroso de se assistir. A imagem para mim era a grande incógnita. Eu consegui isolar o meu campo de interesse: primeiro, a camada visual; depois, o som; depois, o tempo, que é a essência do cinema. Eu ficava pensando: o que está entre eles? O que eu estou vendo? Foi então que eu percebi o que era uma imagem. Quando eu vi essa imagem sendo revelada pela primeira vez, saindo da água de maneira analógica, aquilo me deu um estalo. Eu sinto que foi revelador, literalmente – perdão pela metáfora (risos). Naquele momento, parece que algo se juntou com o que eu tinha eventualmente visto e lidado em relação à pintura ao longo da minha vida, e isso que se juntou era uma coisa muito íntima e engraçada; acho que foi porque quando vi a transfiguração de um conceito tão objetivo para mim no meu campo de estudo, ou seja, aquela imagem se mostrando, se expondo, algo lá atrás bateu, e esse algo era de uma reprodução de uma pintura da casa de uma pessoa de afeto. Depois disso, quando fui pintar, comecei a perceber que algumas coisas se desenvolviam muito rapidamente. Sempre fui uma pessoa que prestava atenção em sonhos, não porque sou mística, mas por causa das imagens. Por exemplo, sonho que estou segurando uma raposa ou um arminho. De manhã, enquanto faço minhas coisas, de repente vem um flash, como se eu quisesse entender o que sonhei, e a primeira coisa que me vem à mente é a pintura de Leonardo da Vinci Dama com arminho. Percebi que fazia isso muitas vezes com memórias e sonhos, e a primeira coisa que me vinha à mente geralmente era relacionada à pintura. E isso não era porque eu vinha de uma família de artistas, nunca tive muita convivência com a pintura, e foi só quando vi uma foto revelada que me dei conta de que estava me lembrando de uma pintura que tinha visto em algum lugar.
Eu entendi que a pintura é esse lugar entre as coisas. Entre a minha memória e as coisas que imagino, como se imaginasse algumas imagens de coisas. Criar uma imagem é uma responsabilidade muito grande e é um lugar muito interessante. Algumas coisas (quando consigo entender o que são) consigo também passar essa imagem adiante, e fazer dela, ou com ela, uma pintura. Aí, penso, eventualmente alguém no futuro vai ter um sonho e talvez vai se lembrar dessa mesma pintura que consegui fazer, como já aconteceu várias vezes comigo. Os lustres são sempre fatais; alguns amigos já me disseram: “Tive um sonho que parecia com o seu lustre”.



Pra mim são os cachorros, é uma imagem que sempre retorna na minha mente. A pintura, quando ela se conecta com quem está olhando, quase queima dentro do seu cérebro, e você nunca mais consegue esquecer. Você mencionou alguns exemplos que se conectam com a nossa próxima pergunta: onde você encontra inspiração?
Acredito que a inspiração vem mais como uma procura do rebatimento de algo. Na época dos lustres, por exemplo, o que estava me assombrando eram lustres. Eu não necessariamente visitava lugares ou ia atrás de imagens de lustre, para me inspirar, mas tinham algumas coisas muito prosaicas, como a fala de uma pessoa no interfone no meu prédio, a voz da pessoa no hall de entrada, que me transportavam para um lugar, um ambiente com uma espécie de lustre. Uma espécie de obsessão é que vem primeiro, e depois eu vou indo atrás. A minha inspiração pode ser múltipla e atualmente tem sido muito povoada por lobos e leões. Um dia eu estava na Paulista e tinha diversos cartazes e imagens de bichos, muitos leões e leoas, e eu não me lembro de ter visto isso antes, ou talvez estivessem ali, mas não tinha percebido. Então, a inspiração é como se fosse um reforço, é sempre uma conversa entre as coisas que eu vejo, leio e procuro.
Me parece que você encontra essas inspirações e conexões em diversas fontes, mas como tudo isso converge numa imagem? Como funciona esse processo de realizar a pintura?
Comecei com foto de cinema e costumava isolar alguns frames de filme ou eventualmente pegar esses mesmos frames e impressões em algum catálogo, para fazer uma colagem. Fazia uma investigação no ateliê, que consistia em um pouco mais de recorte e colagem de alguma enciclopédia, pinturas que tinham alguma cor, e as juntava com aquela impressão. Gosto da maneira como a tinta fica em alguns papéis, e por serem papéis antigos, a impressão malfeita foi algo que me interessou muito. Eu procurava por algo que pudesse ter um espaço para entrar, como se eu tivesse que olhar para aquilo e não ver mais a figura impressa. Embora eu seja uma pessoa que precise da figura, pois gosto disso. Preciso ter aquele momento em que não parece que a foto que estou vendo é transparente. Preciso lembrar que eu estou vendo uma foto e que vim da colagem. Meu trabalho de ateliê era pegar todas as imagens que encontrava em algum lugar na rua ou de alguém que me mandava, e então colar na parede e traçar esses caminhos. Às vezes, nem sempre eu precisava colar uma coisa na outra, o que estava na parede já ia falando e eu começava alguma coisa na tela. O movimento de alguma pincelada que fiz me fazia refletir e encontrar uma similaridade em algo. Isso me guiava, e eu acabava seguindo aquele caminho. Sempre gostei de desenhar e escrever. Nesse processo de escrita, eu percebi que a maneira que eu estava escrevendo invocava imagens mais específicas, e foi quando me arrisquei a tentar desenhá-las que as coisas começaram a funcionar. Há trabalhos que eu posso parar no desenho mesmo, pois sinto que não precisam ser necessariamente pintados. E embora eu goste de desenhar, nunca tive essa percepção que tenho agora, de não precisar necessariamente transformar o desenho em uma pintura.
Eu sempre vou para o lugar onde me sinto assombrada mesmo. Não é algo em que estou inspirada, é diferente, é uma coisa que fica atrás do olho. Por isso também a minha visão tem uma paleta mais reduzida. É algo que sussurra. É o jeito que eu ouço as coisas que eu quero trazer para a pintura. Para mim, a pintura é como se estivesse vindo de trás da orelha e se projetando para a frente. Trazê-la para a frente seria colocá-la em evidência, gritar, clarear, dar luz. Eu não quero trazer toda a luz, mas, ao mesmo tempo, quero trazer a pintura com muito respeito. Por isso, acredito que vou adicionando a cor devagar.

E pensando nisso, como funciona para você a conclusão da pintura? O processo de olhar a obra e dizer “acabei”?
Eu acho que há algo no caminhar da noite, quando você dobra uma rua sem luz e precisa fazer algo diferente, e depois volta. Para mim, a pintura tem algo parecido quando ela termina. Enquanto estou fazendo, me sinto super consciente, como em uma conversa. Mas, em um momento, parece que há um apagão e, quando volto a mim, olho para a imagem e digo “está pronta!”. É como se houvesse um momento em que a imagem deveria ter falado algo. A imagem está pronta quando percebo que ela me respondeu enquanto conversávamos e, de repente, não erámos mais eu e ela. Era a pintura.
É fascinante como andar por um lugar à noite pode mudar nossa relação com o espaço da cidade. Embora você possa conhecer uma rua por transitar por ela diariamente, caminhar à noite, especialmente entre as 5 e 6 horas da manhã, quando está escuro, faz com que você veja o lugar de uma forma diferente. Isso me lembra da fotografia alemã dos anos 90, que capturava as cidades em momentos raros às 5 horas da manhã, quando havia menos carros e ninguém nas ruas. É uma experiência real, mas surreal ao mesmo tempo.
Exatamente, e eu acho que até em nossa própria casa, quando falta luz, você descobre a casa de novo. Cada detalhe, cada cantinho, tudo. Você se lembra que quase não vive ali, porque é uma coisa esquisitíssima. É esse momento que me interessa muito. O Unheimliche – termo em alemão atribuído a alguma coisa infamiliar – é “algo que eu quase conheço, mas por algum motivo esquisito eu não conheço”. E talvez um dos primeiros lugares dessa esquisitice seja a luz, e o outro é o som quando tudo fica em silêncio. A pintura é silenciosa, ela está pairando.

Qual foi o desafio que você enfrentou ao longo da sua carreira como artista, seja em uma situação específica ou de forma geral?
Uma parte do que me faz ser uma artista é me colocar em situação de desafio ou ser interpelada por algum desafio proposto. Eu sou muito afeita a esse tipo de teste, porque impõe um certo ritmo e me faz repensar certos lugares que a gente às vezes subestima. Vou citar o primeiro desafio que tive como sendo o maior, porque me trouxe uma parte da minha linguagem a que eu não teria conseguido chegar se não estivesse diante de algo que realmente na época tinha me intimidado. Eu estava me formando, ainda sem conseguir elaborar propriamente um trabalho de conclusão, e fui chamada para fazer a exposição no Santander Cultural, em Porto Alegre. O prédio tem um grande espaço expositivo. Era esticado como uma espécie de corredor, quase como uma das laterais do átrio de uma catedral, mas quando fui chamada sabia perfeitamente que tinha energia para dar conta daquele espaço. Naquela época, aquela exposição era muito definitiva para mim. Eu tinha recentemente vindo da colagem e, apesar de já ter uma familiaridade com a poética da pintura, tive que elaborar uma estratégia para capturar uma certa atmosfera, uma poesia em um lugar que eu tinha recém-descoberto. No fundo, nós nos conhecemos a ponto de saber se trabalhamos bem ou não sob pressão, e eu já tinha entendido que trabalhava bem. Quando consegui desenvolver algo – do meio para o fim daquela produção –, pensei: “acho que vai ser assim ao longo do tempo”, porque eu faria tudo de novo, eu compraria aquele desafio de novo para chegar aonde eu cheguei. O título da exposição, “Presença Sinistra”, se referia à presença real. Entendi que estava falando sobre fazer-se presente através da pintura.
Foi uma forma de você compreender a sua linguagem, mas também explorar esse aspecto instalativo e expositivo da pintura. A pintura, por definição, é um processo longo e muito pessoal, que geralmente ocorre no ateliê. É uma negociação solitária e prolongada com a pintura. Nesse caso, é interessante ouvir que você já tinha em mente que seria uma produção para o externo desde a concepção.
Sempre foi assim, essa é a minha maneira de pensar a pintura. Eu preciso colocá-la, pois a forma como ela é montada e o modo como está ali mudam tudo para mim. Se eu a colocar de um jeito, um pouco mais para cima ou um pouco mais para baixo, dependendo de quem está do lado, parte do assunto se resolve ali mesmo.
Como é o processo criativo que você segue na criação das suas obras e como decide quais materiais e técnicas utilizar?
Quando comecei a fazer colagens, estava muito ligada ao tipo de papel em que as imagens estavam impressas para escolher as minhas composições. No entanto, naquela época, não havia percebido que havia três fatores a serem considerados: o material presente, o que é citado, e certas imagens que, na minha opinião, se estiverem ali e eu puder observá-las em uma foto ou impressão, dão conta. Por que algo em uma foto já está completo? Às vezes, olho para uma foto e penso que não precisa de uma pintura, a coisa é a foto. Comecei a trabalhar com isso e percebi, de maneira inconsciente, quanto a materialidade me interessava, embora não fosse uma questão frontal para o meu trabalho na época. Entendi isso de uma maneira um pouco enviesada, como se eu sempre enxergasse as coisas de canto de olho e, ao tentar olhá-las de frente, elas fugiam. Na colagem, eu juntava determinadas imagens e tinha uma necessidade de ampliá-las. No caso, como entendi na exposição do Santander, tinha intenção de torná-las mais presentes e talvez transformá-las em objetos ou em uma zona fronteiriça entre o objeto e algo além. Comecei então com acrílica, em telas que na época não eram muito profundas e alternando entre umas com o bastidor mais protuberante da parede e outro mais fino. Naqueles conjuntos, onde alguns ficavam um pouco mais atrás para o olho e alguns para a frente, eu comecei a perceber que eu queria trazer todos para a frente, mas ainda estava trabalhando com acrílica e com pouca matéria. Nessa exposição, criei uma das maiores pinturas que eu tinha feito até então: uma palmeira quase com tamanho real, com 1,80 por 1,20, feita de acrílica. Quando percebi, fiz o meu primeiro tríptico, de três telas de 2 metros por 1,50 cada, encerrando a exposição com um tríptico de seis metros. Nesse tríptico eu entendi que tinha ainda uma outra camada que a pintura poderia me provocar e me tornar presente. E pensar no material que é feito, e o tipo de efeito que determinados pigmentos e faturas poderiam esticar – para provocar uma espécie de “gostosura” do olhar. Na época eu trabalhava somente com acrílica, e não me aventurava na pintura a óleo por achá-la um tanto quanto burocrática e até arcaica. Para ir ao meu ateliê antigo em Porto Alegre, sempre passava pelo Mercado Público, que tem lojas de flora e de objetos de candomblé e umbanda. E, um dia, passando pelo mercado, vi uma escultura de São Jorge, que, para mim, sempre foi uma imagem de que gostei muito. Decidi comprar uma das esculturas e depois de pedir permissão com todo respeito para manuseá-la e trazê-la para a frente, percebi que, por meio da acrílica, a pintura não parecia estar presente o suficiente, e foi quando decidi — por volta de 2018 — que era hora de encarar o óleo, que desde então é a minha principal técnica.
Eu sempre digo que é como se eu tivesse uma desculpa para ficar mais tempo olhando para as imagens que me dão tesão de olho e de cabeça. Pintar tem isso para mim também. É uma boa desculpa para ficar horas e horas na presença de um conjunto de imagens, uma atmosfera que se cria quando elas estão juntas. Em 2019, fiz uma residência em La Rochelle, na França, em decorrência do Prêmio de Arte Contemporânea da Aliança Francesa, e fiz uma pintura de uma Hécate, a deusa dos caminhos que possui três cabeças: uma leoa, uma ovelha e uma loba. Estava em uma tela de algodão preparada, e a partir daquele momento parece que houve um descompasso, e uma vez que a gente vê, não tem como desver. Desde então comecei a trabalhar com linho, desenvolvendo a técnica de maneira mais clara e entendendo que, quanto mais eu pintava, mais me sentia em um embate “corpo a corpo” com a pintura. O gesto me chamava para isso. Em algumas estratégias pictóricas, opto por usar tinta acrílica em algumas áreas, pois às vezes eu preciso dar um banho de aguada em acrílica numa tela de linho primeiro, para que alguns vapores se solidifiquem e algumas formas apareçam. Mas a técnica que uso mais frequentemente é o óleo sobre o linho.

Estou feliz por ouvir suas ideias sobre o material e entender melhor como você pensa em relação a temas como o sublime, essa zona fronteiriça e o espaço entre eles. Você explora esse espaço nas suas obras não só como inspiração, mas também em como você lida com esses materiais e raciocina sobre eles. Muitos artistas tendem a tomar posições extremas em relação à estética ou temas, mas eu aprecio como você se afasta dessas definições rígidas em relação aos objetos e aos materiais com que trabalha, permitindo que a pintura – e o raciocínio sobre a pintura – se desdobre de maneira inusitada.
Ir em direção a um lugar desconhecido é o que me traz ao meu ateliê todos os dias. Não posso ter nada definido. Eu tenho algumas preferências como minhas leituras do momento, e acredito que elas possam fundamentar as minhas escolhas, pois frequentemente me pergunto “Mas e aí?”. Essa pergunta é a minha primeira resposta, pois busco sempre respeitar um tipo de conhecimento que parte da memória corporal. Não imponho minhas opiniões sobre pintura e como acho que ela deva satisfazer meus anseios cerebrais. Afinal, minha mão tem memória e meu olho também.
Às vezes, alguém diz “‘mas deve ser muito divertido”. Claro, só que, na minha definição de diversão, estão englobados o desafio, o desconforto, alguma frustração e, depois, algum êxito. É isso que me dá prazer, me diverte. E não só transitar de maneira leve em algum lugar. Isso pode até ser fácil e divertido, e claro que é necessário, mas prazer mesmo para mim é uma coisa que tem muito mais a ver com a definição de prazer sexual. Tem a ver com se colocar diante de uma coisa que você não conhece muito bem, e entender como seu corpo responde àquilo. Se eu viesse com uma prática fechada, estaria apenas replicando um tipo de legitimação que talvez já exista, o que não me interessa em nenhum sentido. É na exploração meio às cegas que as coisas vão se construindo. Não gosto de insistir naquilo que não funciona assim, mesmo quando por razões como mercado etc. Tudo vem de algo que li [em texto, em imagem ou que meu corpo leu sem os olhos] e gostei, mas também tem a ver com o respeito que tenho pelo trabalho e pelo processo. Sou muito obcecada por linguagem artística e acho esse lugar muito intrigante e atraente.
Entrevista realizada em 8 e 23 de maio de 2023 remotamente via Zoom.

Tríptico I Óleo sobre telas I 20 x 60 cm
2016

Tríptico I Óleo sobre telas I 20 x 60 cm
2016

Tríptico I Óleo sobre telas I 20 x 60 cm
2016

Óleo sobre tela
2016

Óleo sobre tela I 200 × 150 cm
2019

Óleo sobre tela I 50 × 40 cm
2019

Óleo sobre tela I 50 × 40 cm
2019