Luiza Baldan

A artista visual brasileira Luiza Baldan não se limita a capturar imagens que retratam a cidade e suas complexidades, mas se dedica a mergulhar profundamente nas histórias e nas pessoas que compõem os lugares que fotografa. Na entrevista, a artista enfatiza a importância da experiência pessoal em seu trabalho. Ela destaca como cada projeto é motivado por um interesse ou uma curiosidade pessoal que a leva a pesquisar um local e sua comunidade. Para Luiza, a fotografia tornou-se uma consequência de seus encontros e experiências, um meio de expressar as ricas histórias que descobre através de suas incursões e vivências. Confira:

Luiza, primeiramente obrigado por aceitar nosso convite para essa conversa hoje. Gostaríamos que você se apresentasse, compartilhando as informações que achar relevante para alguém que ainda não conhece você como artista.

Eu sou Luiza Baldan, nasci no Rio de Janeiro em 1980. Não planejava ser artista quando criança, mas, olhando para trás, percebo que algumas sementes foram plantadas sem que eu percebesse. No Brasil, se você não é uma daquelas crianças talentosas que desenham bem, raramente é incentivado a seguir uma carreira artística, seja na família ou na escola. Ao longo da vida, flertei com várias áreas que hoje se entrelaçam na minha prática artística. Entre elas estão a arquitetura, a literatura e as ciências sociais. Comecei meus estudos em ciências sociais, foi a primeira faculdade que escolhi. Tentei estudar comunicação, mas não era bem o que eu queria. Depois, fui para ciências sociais, mas a falta de criatividade me levou a deixar a universidade. Eu sentia muita necessidade de trabalhar com a escrita. Então, quando meu irmão, que mora nos Estados Unidos, ofereceu ajuda, eu aproveitei. Comecei a estudar literatura, mas era tudo em inglês. Por acaso, acabei trabalhando num laboratório de fotografia. Meu trabalho era mais administrativo, como ir ao banco, cuidar da contabilidade, entre outras tarefas. Mas foi nesse ambiente que me aproximei da fotografia. Embora o meu irmão, 20 anos mais velho, seja fotógrafo, eu não sentia atração pela fotografia. Mas tudo mudou quando comecei a trabalhar com desconto nos filmes, a aprender a revelar fotos, a mexer nas máquinas. Isso despertou meu interesse e me levou a comprar minha primeira câmera e, na universidade, acabei migrando para a fotografia. Essa mudança foi algo bem espontâneo, o que é positivo. No entanto, é triste perceber a grande diferença entre as oportunidades educacionais oferecidas nos Estados Unidos e no Brasil, não em termos de qualidade, mas nas oportunidades geradas dentro da universidade. Logo no início da faculdade, me tornei voluntária no laboratório de fotografia preto e branco. Dediquei muitas horas ao trabalho, fui selecionada para um prêmio e ganhei uma bolsa que cobriu grande parte da anuidade da universidade. Então, foi um grande incentivo, não só financeiramente, mas também pelo reconhecimento que veio da própria universidade. Depois de um tempo, deixei os Estados Unidos e vivi em outros países, morei na Espanha e voltei para o Brasil em 2005. Foi quando realmente comecei a me conectar com a arte brasileira. Até então, meu conhecimento sobre ela era praticamente o que a universidade nos Estados Unidos tinha me ensinado. Basicamente, se resumia a Tarsila do Amaral, Hélio Oiticica, Lygia Clark e um pouco mais. Cheguei completamente crua. Durante o período que trabalhei na Espanha e nos Estados Unidos, atuei com produção e assistência de curadoria, colaborando com museus, galerias e livrarias. Era o modo que eu tinha para me sustentar, pois ainda não lucrava com meu trabalho de arte. Cheguei a vender uma obra nos Estados Unidos durante a exposição de conclusão do curso universitário, o que foi emocionante [risos]. Contudo, demorou um bom tempo para que isso ocorresse de maneira mais recorrente. Em 2005, quando fui para o Brasil para trabalhar em produção, acabei trabalhando em uma galeria. Foi quase como fazer uma pós-graduação, pois comecei a estudar todos os artistas da galeria e me conectei com uma cena rica em talentos. Havia artistas incríveis, alguns dos quais se tornaram amigos próximos, como Marcos Chaves, Lúcia Laguna e Amanda Bonan. Foi uma ótima experiência de aprendizado e me ajudou a perceber que eu não queria mais trabalhar com produção. Precisava me dedicar à minha carreira como artista e, possivelmente, como educadora, já que em paralelo também dou cursos e acompanho outros artistas. Desde então, tive a oportunidade de fazer mestrado e doutorado na Escola de Belas Artes da UFRJ, o que foi muito importante pelos contatos e pelas pessoas que ficaram na minha vida.

Refletindo sobre a sua prática artística, percebo que ela tem uma forte base na pesquisa e na fotografia. Desde o princípio, você já tinha interesse em mergulhar fundo nessas histórias antes de criar as imagens ou antes era apenas a fotografia? Como você chegou a essa prática tão focada e engajada na pesquisa?

Tudo começou com a fotografia. Eu tinha uma ideia para um projeto, mas não tinha muita pesquisa, tinha apenas o que hoje entendo como “desculpa geográfica”. Essa “desculpa” era apenas o pretexto inicial, um ponto de partida que despertou meu interesse em investigar mais. Normalmente, eu chamo de “desculpa” porque o projeto não se limita a esse ponto inicial. Ele começa naquele gatilho e depois se expande para lugares imprevisíveis. É o próprio processo que me guia. O primeiro projeto que fiz, ainda na universidade, foi fotografar durante dois anos vários becos em South Beach. Se você fechar os olhos e imaginar South Beach, provavelmente pensará em ruas coloridas, flamingos, lojas de luxo, hotéis, tudo, menos um beco em preto e branco. Naquela época, eu trabalhava no Wolfsonian Museum, na Washington Ave, e morava em South Beach. Fazia sempre o mesmo trajeto de volta do trabalho. Minha entrada era por um beco, na entrada dos fundos do museu. Esse trajeto pelos becos me fez perceber que eu podia desenvolver um grande exercício de observação. Isso se baseia muito na observação do cotidiano, das pequenas transformações que ocorrem todos os dias.

Eu sempre falo sobre isso, sempre uso essa espécie de imagem, de você estar andando, tem aquele caminho quase automatizado, e de repente vem algo que rompe aquela monotonia. E aquilo que rompe, que não necessariamente é visual, pode ser qualquer estímulo, um som, um cheiro, qualquer coisa que faça você parar e olhar para aquela cena que você vê todos os dias de uma forma diferente. O exercício de observação, na verdade, é você ter uma outra atenção para aquilo que parece ser sempre o mesmo. Acredito que é assim que surgem os projetos mais longos. No começo, tudo era fotografia, até que percebi que a fotografia não era o objetivo, mas, sim, um resultado dessa observação. Quando morava em Miami, eu fazia muita coisa de bicicleta, tinha uma mobilidade diferente. Mas quando voltei a morar no Rio de Janeiro, tudo mudou drasticamente. Eu costumava fotografar à noite, sozinha, com um tripé, usando longas exposições e filme. Mas quando cheguei ao Rio, em 2005, tive que lidar com questões de segurança, acesso a equipamentos, entre outras coisas que tornaram a minha prática mais complicada. O primeiro projeto que fiz, além das fotografias avulsas que ia tirando, foi dentro do Jockey do Rio. O Jockey era um local onde eu poderia ficar à noite, cercada e com certa proteção, enquanto andava com minha câmera. Os becos do Jockey tinham características que me atraíam, como a grande cena colorida e toda a parte menos visível, a parte de serviço e invizibilizada, o movimento e a permanência daqueles que trabalham e mantêm o local. Há todo um lado operacional que, embora não esteja à vista do público, não é menos simbólico ou representativo, mas está fora dos holofotes. E era exatamente isso que me interessava. No Jockey, percebi que havia uma série de tribunas. As corridas de cavalos acontecem lá nos fins de semana e em alguns dias da semana, mas não possuem aquele glamour de outros tempos, pelo menos não nos dias de semana, com certeza. E pelo menos naquela época, 2005-06, quando me envolvi com esse projeto, eu fui exatamente para algumas tribunas que estavam semiabandonadas. Era um lugar sombrio e interessante, tanto pela arquitetura quanto pela iluminação. Dentro dele, havia enormes espaços de silêncio, enquanto do lado de fora se ouvia correria e conversas. Eu estava ali como se estivesse em uma bolha, quase suspensa. Então, as fotografias retratavam muito esse estado de suspensão entre coisas. Algumas pessoas diziam “a menina que gosta de fotografar espaços vazios, ruínas”, mas na verdade não é isso. Não é um espaço vazio, mas é para onde estou direcionando a câmera. Busco quase essa lacuna, esse espaço entre coisas, entre atos, entre momentos. Isso é algo que persegui por muito tempo, influenciada também por outras pessoas que trabalhavam com fotografia antes de mim, pelo cinema e pela pintura. Esses espaços despertam a sua imaginação, porque te oferecem poucos elementos. Não ter uma pessoa ali ou grandes acontecimentos, mas, sim, uma insinuação de possibilidades, inclusive com questões formais que eu buscava na imagem, na composição de portas. Isso é evidente na minha série que chama “Sobre umbrais e afins”, que fala sobre possibilidades de atravessamento dentro da própria imagem. É como se houvesse outra imagem insinuada a partir da imagem que eu estou mostrando. É como se eu estivesse comprimindo uma cena, uma história, numa única imagem bidimensional. Mas essa imagem está repleta de sonhos, cheia de coisas. Isso sempre foi o meu grande interesse na fotografia.

Detalhe da obra Sem título (Série “Sobre umbrais e afins”), 2005

Pensando nessas imagens e em espaços arquitetônicos, parece que há sempre um traço humano. Mesmo que não vejamos as pessoas, percebemos que estes não são espaços apenas de contemplação, mas sim locais de transição, movimentação, transporte, vivência e funcionalidade. Eles estão lá porque precisam deste espaço liminar, que é físico, mas que, de certa forma, também se torna social.

Acho que o conceito de ruína é um bom exemplo. Quando comecei a fotografar lugares em ruínas, tinha uma coisa muito clara para mim: não se tratava da ruína romântica. Não era apenas a contemplação de algo em desuso que está lá para ser simplesmente admirado. Me interessava mais os espaços que, mesmo em ruínas, serviam como abrigo. Isso se reflete no projeto “Tugúrios”, no qual pessoas invadem casas e moram lá dentro. Mesmo que o imóvel tenha sido condenado, ele ainda oferece uma possibilidade de abrigo. Parece multifuncional, mas, ao mesmo tempo, sempre vi uma grande beleza nesse reaproveitamento dos espaços. É como se as histórias se sobrepusessem, uma não apaga a outra. Por exemplo, há um projeto, uma série que eu fiz no antigo Carandiru do Rio de Janeiro. Era um galpão abandonado, perto da rodoviária Novo Rio, com conexão com a antiga estação da Leopoldina. Serviu como oficina e estacionamento de trens, mas estava desativado. Escolas de samba que desfilavam em Madureira ocupavam o local. Devido à proximidade com a rodoviária, o local tinha uma variedade de atividades, como comércio informal de pipoca e refrigerante. Algumas famílias até moravam lá. Muitos usavam o lugar como depósito dos adereços das escolas de samba do grupo especial, reciclando o que restava do ano anterior para criar os carros alegóricos do próximo carnaval. Era um lugar fantástico, que infelizmente acabou devido à obra do Porto Maravilha. Mas isso nos mostra que, em qualquer lugar, podemos encontrar histórias diversas e interessantes. E, no mundo da fotografia, quando essas histórias são tão evidentes, elas ganham outra dimensão. Isso sempre foi algo que me despertou interesse.

Você mencionou um ponto interessante, as histórias temáticas. Como você decide quais histórias quer focar e desenvolver? Como é esse processo para você? 

Quando menciono a “desculpa geográfica”, reconheço que existem aspectos macro e micro. Mas só me aprofundo no micro depois de começar pelo macro, investigando.

Para mim, não adianta trabalhar com arquivos puramente. Posso até trabalhar com alguns arquivos, mas, para mim, a experiência de corpo presencial é fundamental. Pode até ser um termo mal gasto hoje em dia, mas eu sou uma pessoa de afetos. Não só me afeto, mas também afeto os outros, enfim, e o trabalho lida muito com isso. Isso fica cada vez mais evidente quando começo a lidar com pessoas. Isso fica cada vez mais evidente quando eu começo a interagir com pessoas. Em 2005, eu fui para o Rio e tive que adaptar meu método de trabalho. Acho que essa adaptação começou com a primeira residência que fiz no Minhocão, no Pedregulho, no Rio de Janeiro. Lá, comecei a trabalhar com a ideia de moradia e tudo o que envolve morar, habitar, estar junto. Todas as concessões, tudo que nos faz viver em sociedade, mas de uma forma micro. E essa percepção vem se estendendo desde então, e acredito que fica ainda mais pungente depois que me tornei mãe.

Porque para mim fica muito claro que, a cada dia que passa, eu me interesso muito mais pelas complexidades e maravilhas do ser humano, apesar de toda essa “maluquice” do mundo. É o que eu tenho para aprender de cada pessoa sobre aquele lugar que me interessa, porque um lugar sem a pessoa, para mim não faz mais sentido. Me interessa muito conhecer o lugar, mas de alguma maneira introduzida ou como eu falo, contaminada, afetada, literalmente, pelas histórias, pelas conversas, pelas fofocas, pelos conflitos, mas muito pelo que as pessoas do lugar têm para dizer sobre o que é aquilo. Claro que existe um ponto de vista que é meu, porque também vivencio experiências que são válidas, independentemente do tempo que passo em um determinado lugar ou da pesquisa que estou realizando. Mas a fotografia não é o objetivo em si, mas, sim, uma consequência. A fotografia acontece como um resultado desses encontros. Então, essa fotografia também vem muito do desejo da pessoa com quem estou falando, do que ela quer expressar, do que ela quer mostrar. Na verdade, é um grande encontro, porque é uma soma de experiências. 

Ouvindo você falar sobre estar lá, observar e interagir me faz pensar sobre o exercício de observação, pensando na arquitetura, na política e no planejamento das cidades. É como se você estivesse testando, entendendo como as pessoas usam o espaço, como a comunidade se organiza e responde às mudanças. É quase uma pesquisa sociológica.

Acredito que um aspecto que me distingue da sociologia ou de qualquer outra disciplina é que não sigo uma agenda predefinida. Quando inicio um trabalho, sei apenas que desejo conhecer determinado lugar. Hoje estou trabalhando num lugar próximo a Lisboa, no encontro do Tejo com o Atlântico, em uma comunidade chamada Cova do Vapor. A história e as particularidades desse local são fascinantes. Para exemplificar, quando conheci na Cova do Vapor, estava morando em Berlim e vinha de uma experiência bastante difícil, marcada pela pandemia e pelas perdas pessoais. Ao chegar a essa praia, senti uma emoção indescritível ao observar aquela paisagem, sentir o vento e ficar sobre aquela pequena duna. Afinal, além das pessoas, o mar sempre foi algo que me fez muita falta enquanto vivia em Berlim. Foi como uma sensação de lar, de conforto. Parecia que eu estava sendo abraçada pelo lugar. Foi uma experiência tão enriquecedora em todos os aspectos que comecei a visitar aquele lugar com frequência. Sempre que eu precisava sentir algo, precisava de um banho de mar, mesmo que eu pudesse ir à praia mais próxima, eu optava por atravessar e ir àquela praia. Essa praia criou uma dimensão dentro de mim que é indescritível. E isso não está ligado à história do lugar ou a questões políticas, nada disso. É a minha conexão pessoal com aquele lugar, e percebo que não estou sozinha nisso. Ao conversar com outras pessoas, vejo que aquele lugar provoca um sentimento de lugar especial. Então, me vejo levada por esse sentimento, começando a me interessar muito pela história do local. Descobri coisas que nunca imaginei. Mas é claro, a pesquisa traz muito mais interesse ao trabalho. Uma coisa é falar sobre o que me atrai para lá, outra é fazer um trabalho porque me arrepiei ao pisar lá pela primeira vez. Então, fui atrás da história desse lugar. E, quando cheguei para realmente trabalhar nesse local e conheci as pessoas que por acaso estavam lá, o trabalho ganhou outra dimensão, uma dimensão afetiva. Hoje, tenho pessoas que me acolhem em suas casas, me oferecem um lugar para dormir, me alimentam, cuidam de mim, querem saber e contar, se encontrar. É tão lindo que costumo dizer que estamos juntos inventando um novo lugar [risos]. Mas como expressar tudo isso? Cada trabalho vai compartilhar um pouco disso. O próprio trabalho são os encontros, que vão determinar como eles irão se resolver enquanto projeto. Não há uma expectativa predefinida, nem a obrigação de um resultado final. É totalmente sobre o processo.

Depois de todas essas pesquisas e conversas, é importante para você que o resultado seja algo tangível para quem vê a obra ou visita a exposição? 

Quando comecei essas residências, também comecei a escrever. Antes, meu trabalho era exclusivamente com fotografia, sem sequer um título. Mas, desde 2009, com o início desses projetos, passei a trabalhar mais com vídeo, som e texto. O projeto foi ganhando novos corpos.

E o texto é onde acabo falando de uma forma polifônica. Porque falo em primeira pessoa, mas falo com outras pessoas, outras pessoas entram no texto. Falamos sobre essa informação sampleada, como se fosse uma grande colagem. E isso é um recurso que me interessa muito, porque de alguma forma representa o que acontece nesses projetos, é uma grande colagem. Diferente talvez de uma disciplina mais rígida, vou desenvolvendo conversas casuais, nas quais alguém me conta uma história que me intriga e acabam conduzindo a novos contatos e a mais histórias. Então, desenvolvo meu trabalho através desses diálogos e descobertas. É como se fosse um novelo, de alguma forma se desenrolando. A fotografia, muitas vezes, possui determinadas características, baseadas no meu olhar. Quando eu me volto para o texto, é a oportunidade para que outras coisas apareçam, como vozes, encontros e desvios. Às vezes, o texto se torna parte de um vídeo. Ou então, um vídeo que na verdade é uma fotografia, mas, com tempo, como um vídeo parado, um frame único, que possui tempo e som, diálogos ao fundo. Ele ganhou uma dimensão maior, que, muitas vezes, apenas pela forma como é apresentado, já transmite o que é necessário.

Pensando nessa dedicação e nesse engajamento e no afeto que você mencionou, quando você consegue decidir se afastar do trabalho? Afinal, já que envolve histórias e pessoas, você poderia dedicar muito tempo só para falar de um tema. Como é esse processo de distanciamento?

Na minha tese de doutorado, “A imagem no fim”, discuto sobre um final que é aberto, um fim que não é necessariamente um fim. Esse conceito de fim é muito ocidental, muito da nossa cultura. Por exemplo, no trabalho do Pedregulho, ainda mantenho contato com as pessoas. Apesar de a residência ter sido encerrada, ainda mantenho um contato afetivo com elas, não apenas profissional. Organizo encontros e, quando retorno ao Brasil, sinto como se um capítulo do projeto estivesse se fechando. Por exemplo, agora, nesse projeto da Cova do Vapor em que estou trabalhando, combinei que vou fazer um encontro no Brasil, o que vai encerrar uma etapa desse projeto. E no ano que vem eu volto. Mas vai ter um esfriamento, literalmente, pois será inverno. A cidade muda muito com as estações. Como é uma cidade de veraneio, quando chega o inverno, há um esfriamento, tanto literal quanto das pessoas, o que acaba esfriando também o trabalho. Quando retorno, sei que há coisas que ainda quero fazer, mas às vezes sinto que algo, apesar de especial naquele momento, está chegando ao fim. É uma mistura de sentimentos e a percepção de que certos assuntos vão se esgotando. A vida nos leva para outras direções e acabamos nos dividindo. Contudo, não costumo colocar prazos nas coisas. Muitas vezes, defino um prazo para terminar um trabalho devido a uma exposição programada ou a uma necessidade específica. No entanto, isso não significa que o projeto termina ali. Ele continua aberto para novas interpretações e possibilidades. Tenho projetos que foram exibidos e documentados em livros, mas ainda existem inúmeros arquivos do mesmo tema que não foram trabalhados. Por exemplo, para a Bienal de Arquitetura em Veneza, eu tinha algumas imagens que nunca havia utilizado e que foram feitas dez anos atrás. Selecionamos seis fotos inéditas desse mesmo tema. Portanto, consigo elaborar uma exposição totalmente diferente usando material da mesma fonte.

Detalhe da obra Angelita (Série “Leituras de um lugar valioso”), 2012

É quase como um antidocumentário. O público geral acredita que documentários clássicos têm um começo, meio e fim definidos. Mas, na realidade, o diretor pode seguir várias histórias, escolhendo apenas aquelas com desfecho ou discussão interessante. É essa tentativa de encaixar a vida real na estrutura de consumo de história que conhecemos. No seu caso, a ideia é capturar o momento, e ainda ter essa abertura de voltar e ver o que mudou, já que as coisas estão constantemente em mudança. Uma história sem fim, como você mencionou.

Sim, essa mudança é não apenas de local, mas também da nossa percepção do lugar, do que nos chama a atenção. No meu trabalho, eu posso chegar num lugar repleta de ideias. Em um projeto em que estou desenvolvendo, o ponto de partida era fotografar casas que haviam sido realocadas mecanicamente, de um ponto a outro, para fugir do avanço do mar. É quase como as palafitas, mas sem a ideia de estar à beira de um rio, e sim à beira de uma praia com mais de 2 km de areia. Com o avanço do mar, algumas casas foram perdidas, enquanto outras foram erguidas e transportadas por pessoas e carroças de bois para outros locais. Ainda há pessoas que vivem nessas casas, que hoje se misturam à paisagem em razão do crescimento urbano. Meu interesse inicial era encontrar e fotografar essas casas. Conheci a pessoa que vive em uma dessas casas e descobri a história de uma senhora de 80 anos que começou a frequentar esse lugar quando tinha apenas 15. Isso me faz pensar: o que é mais fascinante nessa história? Seria a casa onde ela vive agora ou seria toda a incrível história de vida dessa pessoa, que vai muito além desse lugar? Essas múltiplas histórias de vida vão além do que eu poderia imaginar sobre aquele lugar.

Eu não quero ficar presa ao que entendo como interessante quando chego a um lugar que sequer conheço. Quero ser surpreendida pelas coisas que as pessoas têm de melhor para dizer e o que para elas é de fato importante. Então, a partir do que elas acham relevante, nesse contexto histórico, isso entra em cena junto ao que passou a ser interessante para mim, porque elas me mostraram essa possibilidade. É esse cruzamento, esse caldeirão de coisas que vão sendo colocadas e que de alguma forma vão criando um “saborzinho” extra. É a capacidade de juntar pessoas tão bacanas, e eu acho que isso é uma característica do trabalho que eu faço. Não consigo definir se é devido à minha abordagem, dedicação ou ao carinho que coloco no que faço, mas, de alguma forma, conseguimos criar conexão e familiaridade. Tenho o cuidado de devolver as fotos para as pessoas que participaram, pois, sem elas, nada disso aconteceria.

Essa proximidade com o trabalho evita saudosismo. Em trabalhos de pesquisas e documentação, o artista pode se distanciar do tema, levando a saudosismo, talvez por achar que vive uma cultura superior. Podemos considerar isso como armadilhas da distância entre o artista e o assunto local ou a pessoa entrevistada. Como você sabe quando se afastar do tema, temporária ou permanentemente? Ou isso nunca acontece?

Acredito que depende, pois existem situações específicas em que o trabalho terminou. Por exemplo, eu fiz um projeto em São Paulo chamado Perabé, que começou a partir de uma residência artística que fiz no Copan. Essa experiência foi bastante intensa para mim. Passei um mês em uma residência que inventei, dormindo num colchão no chão de um apartamento com as janelas originais do Niemeyer, em pleno frio. Até começar a ser convidada para participar de residências, era assim que eu as inventava. Havia muito desse conceito de construir um lar, de me estabelecer como moradora em um determinado lugar. Durante esse processo, enfrentei alguns desafios, como roubos, coisas que estavam fora do meu controle e que me fizeram questionar até que ponto valia a pena continuar. A residência me dava um prazo para que as coisas acontecessem, pois ficaria lá por um tempo determinado. Esse seria o período para fazer as observações. O Copan foi quase o último projeto desse tipo e lá eu encontrei desculpas geográficas para o próximo projeto que decidi fazer, o Perabé. Um dia alguém me disse que era possível ver o mar dentro da cidade de São Paulo e eu fiquei fascinada. Resolvi que precisava encontrar esse lugar e, nessa busca, acabei descobrindo muito mais. Afinal, o projeto era muito mais do que apenas esse lugar. Consegui comprovar que realmente era possível ver o mar, mas isso ainda não era o trabalho. No fim das contas, o projeto se transformou em um milhão de outras coisas. Foi incrível, em 2015, quando mandei esse projeto ao Centro Cultural São Paulo. Expliquei que estava atravessando de São Paulo até a Baixada Santista em busca dessa paisagem. Deixei claro que não tinha um resultado definido nem um prazo fixo para concluir, mas mesmo assim eles aceitaram. Isso é algo raro, já que geralmente se espera algum resultado de um projeto. Lembro perfeitamente que concluí a última caminhada no dia 7 de setembro, às margens do rio Ipiranga. Já sabia que teria uma exposição no Centro Cultural São Paulo e já tinha bastante material. Foi então que decidi parar. Cada projeto tem a sua própria dinâmica. Tenho outro projeto que iniciei no Chile, onde morei por um tempo. Quando me mudei para Portugal, levei algumas fotografias e vídeos processuais dessas caminhadas. Convidei pessoas que não estiveram presencialmente naquelas paisagens para pegar esse material processual e dar um desfecho para ele. Sem direção, sem roteiro, cada um pegou essas imagens e fez algo único. Criei um piloto aqui em Lisboa com duas versões de vídeo e já mandei o projeto a editais, pois tenho mais de seis colaboradores. Entre eles, Simone Cupello, que editaria as imagens para criar uma escultura, Gisele Camargo, convidada para fazer uma série de pinturas a partir das imagens. Temos também profissionais da dança criando coreografias inspiradas nas imagens. Assim, criamos diversas possibilidades de edição com o mesmo material. 

Detalhe da obra Sem título (Série “Perabé”), 2015

Quando pensamos na sua proposta, sem prazo ou conclusão, talvez possamos ligar isso à poesia presente na obra. Isso talvez até se relacione com a literatura que você mencionou no início. Essa liberdade em não ter um objetivo ou uma razão predefinida.

Sim, ou um resultado esperado. Não precisa necessariamente ser algo. Pode assumir diversas formas, e o que é hoje pode ser revisto e transformado em algo completamente diferente daqui a dois anos. Isso ocorre porque ele possui um repertório amplo e informações suficientes para se desdobrar em diferentes interpretações, dependendo da abordagem. Por exemplo, se olharmos para o Pedregulho, você pode ter uma visão mais voltada para a arquitetura, para os retratos, ou para a moda, levando em conta as roupas que marcam uma determinada época. Ou seja, o trabalho é bastante aberto. E isso destaca esse outro aspecto do trabalho quando se torna de fato uma exposição. Por exemplo, em 2017, realizei uma exposição na galeria Anita Schwartz, no Rio, de um projeto na baía de Guanabara. Esse projeto, que começou em parceria com Jonas Arrabal, era inicialmente editorial, com o objetivo de se tornar um livro. Para isso, tínhamos vários procedimentos planejados. Iríamos lançar um objeto chamado “derivador” (termo usado por oceanógrafos). Esse objeto se desloca com a maré e estuda esse movimento. Normalmente, o derivador tem um GPS dentro, mas nós adaptamos esse aparato para ser uma câmera pinhole. Assim, fotografamos à deriva. O objetivo do livro era justamente isso: fotografar à deriva e falar sobre a baía de Guanabara. Isso resultou em uma conversa entre mim, Jonas e alguns colaboradores convidados. Para realizar isso, tínhamos planejado oito saídas de barco na baía de Guanabara, que estavam incluídas no orçamento. Nesse processo, descobri que uma pessoa conhecida minha, que é oceanógrafa, estava trabalhando em um projeto na baía de Guanabara durante a limpeza e a manutenção feita por conta das Olimpíadas. Consegui com ela a oportunidade de participar de uma visita feita todas as manhãs. Eles seguiam um roteiro fixo na baía de Guanabara, observando e informando sobre a localização do lixo, para que uma equipe pudesse retirá-lo da superfície da baía. Assim, eu saía com essa equipe pelo menos três vezes por semana. Eram sempre as mesmas pessoas, então nos tornamos colegas de trabalho. Passávamos a manhã inteira, das 7h da manhã até 13h da tarde. Comecei a notar lugares que nunca teria visto além do percurso da barca Rio-Niterói. Assim, comecei a realmente conhecer a baía de Guanabara, sentindo que fazia parte daquele lugar. Esse sentimento de pertencer ao local me fazia querer me aproximar mais, me tornava mais interessada e me levava a descobrir coisas que, se estivesse sentada na praia, talvez não notaria. Estar lá no meio fazia tudo começar a fazer sentido. Eu realmente acredito que, quando dedicamos tempo, atenção e cuidado a qualquer assunto na vida, essa coisa ganha um novo significado. O projeto da Baía de Guanabara se transformou em uma exposição individual, que não era mais a obra que eu fiz com o Jonas, mas sim o trabalho que eu realizei na Baía, além do projeto, com o Jonas. E esse foi o momento de juntar todas essas peças do quebra-cabeça. Com tudo isso em mãos, eu me perguntava “o que vou fazer com essa história?”. É necessário dar um contexto a isso, um contorno. Então, criei uma instalação de vídeo, fotogravuras e também havia um texto. Foi uma exposição linda, um projeto muito especial. Quase sem fotografias de pessoas, mas, ao mesmo tempo, estava na baía de Guanabara, onde incríveis 14 municípios do estado do Rio de Janeiro são banhados por aquela água gigantesca. Um universo de histórias, vidas, mortes, tragédias e belezas, porque tudo está ali. Então, esse recorte, que de alguma forma concluí, pelo menos em um projeto expositivo, também é muito interessante, por causa da maneira como costuramos essas pontas.

E, conectando ao começo da nossa conversa, também consideramos que o mar da baía é um “não lugar”, é simplesmente um mar. Pode haver alguma arquitetura no mar, como os barcos ou até as estruturas que eles constroem dentro da baía, mas, no final, é um lugar indefinido. Não existe uma preocupação arquitetônica como na cidade, mas, ao mesmo tempo, é um espaço onde as histórias se desenvolvem e as pessoas se conectam. A vida na cidade ainda é influenciada pela baía, então há uma conexão com esse espaço liminar.

A ideia do “não lugar”, retirada da definição clássica de Marc Augé, refere-se a espaços em que parece faltar identidade, história ou vínculo. Eu sempre questiono: já pensou num lugar comum, como um aeroporto, como um não lugar? Sim, é um local de passagem, as pessoas não ficam. Eles se repetem em vários locais, dando essa falsa sensação de familiaridade quando, na verdade, você não o conhece. Mas agora, vamos mudar para o micro. Pense na pessoa que trabalha no aeroporto. Ela está lá todos os dias, abre e fecha uma loja, tem uma rotina de transporte. Ela conheceu alguém de outra loja e começou a namorar. Isso criou uma história, uma relevância. A forma como ela se relaciona com aquele aeroporto nunca mais será a mesma, pois ela criou uma história ali. Então, o que quero dizer é que, quando falamos sobre lugares com ambiguidade em relação à funcionalidade, sempre existem elementos que contribuem para essa ambiguidade. Eles se apresentam como a possibilidade de um lugar. Estou olhando para uma foto que tirei dentro de uma central elétrica. É um lugar vazio, com linhas paralelas, uma foto bastante ortogonal. Mas me lembro que visitei este lugar porque meu sogro trabalhou lá quase a vida inteira. Quando olho para isso, percebo que não foram as linhas nem a concepção espacial que vejo na fotografia que me levaram a este lugar. Não estou dizendo que seja uma regra ou que acontecerá sempre. Porém, percebo que, em meio a essa explosão de imagens que registramos hoje, uma foto real tem um peso para mim. Uso muito o celular para fotografar, adoro Instagram, mas quando tiro uma foto de verdade, ela tem uma importância. Ela se conecta a um lugar, mesmo quando não parece. Por exemplo, a baía de Guanabara. Cada detalhe ali tem um sentido, um propósito, uma relevância.

Refletindo sobre isso, me lembrei de uma teoria contemporânea sobre imigrantes chamada “imigrante conectado”. Segundo essa teoria, esses imigrantes não estão totalmente ancorados nem em seu país de origem nem no país atual. Existe um espaço intermediário, social, onde eles parecem não pertencer a nenhum dos dois lugares. Mas, ao contrário, ela argumenta que é criado um terceiro lugar. Eles ainda mantêm laços com o lugar de onde vieram, se adaptam ao lugar onde estão e criam esse terceiro espaço.

Que é a sobrevivência [risos]. É basicamente a nossa maneira de continuar vivendo, porque é realmente desafiador se integrar totalmente a uma nova cultura. Alguns conseguem, mas é bem difícil. Aqui em Portugal, convivo com artistas e pessoas que vieram do Brasil, principalmente por conta da mudança política, desde 2013. Muitos dizem que não se veem retornando ao Brasil, pois sentem-se expulsos de casa. Mas também percebem que Portugal não é exatamente o lar deles. Então, ficam nesse meio-termo, que não é bem um lugar. É um “a-lugar”. Uma situação intermediária. E é complicado aceitar que não se pode ter o melhor dos dois mundos. Me arrisco em dizer que esses trabalhos artísticos que faço são um grande passo, especialmente porque este é o primeiro projeto com mais fôlego que desenvolvo desde que saí do Brasil. Mesmo o trabalho que fiz no Chile, comecei quando ainda estava no Brasil. Logo depois, fui para o Chile, mas ainda havia uma certa proximidade que agora não é mais tão forte. Este projeto que estou desenvolvendo agora, acredito, representa esse “terceiro lugar”. E é minha esperança encontrar, através do trabalho, um certo conforto. Não apenas relacionado à criação, que é algo muito importante para mim, mas também porque sou mãe. Minha filha tem 6 anos e agora estou começando a ter um pouco mais de energia para retomar mental e emocionalmente essa conexão com o trabalho. É um período de transição. Estou especialmente feliz porque este projeto me apaixona. Estou muito envolvida e é algo que realmente me preenche de coisas boas. Apesar de enfrentar problemas e lidar com situações extremamente complexas, histórias de vida complicadas e tudo mais, o prazer que sinto em interagir com essas pessoas é imenso. Não se trata apenas de me conectar com imigrantes brasileiros ou identificar-me com o estrangeiro, mas de interagir com pessoas de outra geração, a maioria delas idosas. É maravilhoso poder se conectar com esse tal ser humano que não está totalmente perdido e que ainda existe neste mundo de cão em que vivemos.

Entrevista realizada em 21 de Novembro de 2023 remotamente via Zoom.