OSGEMEOS
Nesta conversa, OSGEMEOS revelam como dois irmãos gêmeos (Gustavo e Otavio Pandolfo) de São Paulo construíram um universo paralelo, um mundo que eles acessam “24 horas por dia” e que transforma paredes brancas em portais, prédios de 60 andares em janelas para outras dimensões.
Da rua como universidade ao reconhecimento em museus por todo o mundo, os irmãos falam sobre resistência, sobre manter portas abertas para novas gerações e sobre o poder da arte de derrubar muros. Como eles dizem: “A arte é mais forte que isso.” Além de sua prática como artistas, podemos também discutir suas ações com música e seu trabalho com curadoria – de si mesmos e de outros artistas –, em que tudo converge para um imaginário realmente único e coletivo.

Obrigado, OSGEMEOS, por aceitarem estar aqui com a gente hoje. É um grande prazer conversar com vocês. Eu queria começar pedindo para vocês dividirem com a gente um pouco sobre o processo de criação das suas obras. Como esse processo começa? E como é a decisão de qual suporte vai receber cada obra?
Gustavo: Uma coisa que acontece na nossa vida desde muito pequeno é que, em vez de cada um ter um papel para desenhar, a gente escolhe desenhar no mesmo papel – ou, se fosse transformar um brinquedo numa escultura, como a gente fazia, fazíamos com o mesmo brinquedo.
Esse processo criativo acontece muito cedo na nossa vida, de uma forma muito natural, com essa necessidade que a gente sempre teve de materializar esses sonhos, essas ideias que a gente tinha juntos. Era um complementando o outro para poder materializar, com a mais pura essência, aquele desenho que a gente fazia.
Otavio: A gente descobriu esse universo em que a gente desenha junto. E, quando achamos a chave e abrimos essa porta, a gente mergulhou junto dentro desse universo. Então, tudo isso que a gente desenha e pinta vem desse lugar.
Pensando na inversão das obras, das instalações que vocês criam, como é essa transformação?
Otavio: A maneira como a gente brincava na casa dos nossos pais já tinha esse aspecto de instalação, de transformar o ambiente, de fazer com que a gente se sentisse bem dentro do nosso quarto, da maneira como enxergávamos esse universo que a gente desenhava. Sempre gostamos muito de desafios, de pegar um ambiente, uma sala branca, e a gente não a enxergava branca, enxergávamos da maneira que a gente enxerga o nosso universo. Também é uma oportunidade de trazer as pessoas para dentro desse mundo. Por isso que exploramos outras técnicas, não só pintura, mas escultura, instalação, videoarte, música. Acho que tudo isso para ajudar também a ilustrar cada vez mais.
Gustavo: Acho que também partia muito daquela coisa de você fazer arte sem saber que você estava fazendo arte. Depois outras pessoas falam “Eles são artistas, eles gostam de desenhar, eles gostam de pintar”, mas para nós era um caminho que a gente encontrou de se sentir bem, de estar confortável com aquilo e de se comunicar entre nós, entre as pessoas, entre a família, entre os amigos.

Como é o processo de ter esse encontro – pensando na exposição institucional, mas também aqui na feira –, como é esse encontro com essa parede branca e começar a pensar na exposição?
Otavio: Cada lugar é um lugar. E também vai muito daquilo que a gente quer falar naquele momento. A gente enxerga o mundo dessa maneira. A gente não enxerga uma árvore, talvez, do jeito que se enxerga. A gente enxerga a nossa árvore lúdica, diferente. Tudo tentamos transformar para o nosso universo. É essa necessidade que a gente sempre teve de materializar isso que a gente está vivendo junto, em sonho, em imaginação, a gente vive isso 24 horas por dia.
Gustavo: É como abrir janelas. Quando você está pintando uma tela, um quadro, ou você está pintando uma lateral de um prédio de 60 andares, a gente enxerga como um portal mesmo. Você abre um portal para uma outra dimensão. É uma dimensão com que convivemos há muitos anos. E, como a gente acessou isso muito cedo, a nossa maior vontade era mostrar isso para as pessoas. Como se você visse uma coisa tão especial que você não pode guardar aquilo para você. Você tem que dividir. E isso vai trabalhando o imaginário da gente, e vamos encontrando novos caminhos, novas técnicas, novas linguagens para o trabalho.
Otavio: E é sobre acreditar e gostar do que você faz. A gente começou a desenhar no final dos anos 70, 80, desde os três, quatro anos de idade. Então, desde essa época, a gente já sabia o que queríamos fazer, que era desenhar junto. Independente se um dia a gente fosse ser artista ou dar certo. A gente nunca pensou nisso, na real.
O mundo que vocês dois criaram e que depois tiveram que ampliar tem pessoas com quem vocês trabalharam para realizar esses trabalhos. Como foi dividir esse sonho?
Gustavo: Na década de 80, década de 90, era tudo muito nós. A gente sempre colocou muito a mão na massa. E a gente foi entendendo que, a partir do convite de fazer uma exposição num museu, era possível transformar aquele espaço num universo imersivo para as pessoas. Podíamos usar luz, som, criar quartos novos, transformar realmente o espaço.
Otavio: Eu acho que, antes disso, também teve um momento de a gente entender que precisávamos ampliar esse nosso universo. E a maneira com que fizemos isso foi indo para a rua, pintando na rua. A gente dividia o mesmo quarto, que se transformou em ateliê. Começamos a estudar desenho no quarto, a pintar o quintal de casa, só que entendemos que era muito pequeno ali. A gente precisava ampliar isso e também aprimorar o estilo, estudar desenho, estudar pintura.
Fomos aprender isso tudo na rua, usando a rua como suporte. Nós crescemos no bairro do Cambuci, na região central de São Paulo. Começamos a fazer muita coisa na rua para primeiro entender as técnicas, desenvolver o nosso estilo de desenho. Perante vários outros artistas que já estavam fazendo coisas, a gente quis focar em estudar um estilo. Preferimos não fazer faculdade na época, foi melhor se trancar em um quarto, ficar quatro anos estudando.
Gustavo: É louco pensar que, naquela época, a gente não tinha uma visão ampla da cena de arte contemporânea. Para nós, era um universo paralelo e distante. E outra que, na real, não tinha porta aberta para artistas que vinham da rua. Era um negócio fechado mesmo. Por isso que a gente usou muito a rua como forma de expansão do ateliê.
Nós descobrimos São Paulo através do graffiti e queríamos pintar o máximo que a gente pudesse. E foi – e ainda é – um aprendizado. Todo grafiteiro ou grafiteira sabe que a rua é uma universidade: é um lugar onde você não pode vacilar, onde precisa ter respeito pelos outros artistas.
Otavio: E é uma das melhores galerias que existem, porque é pública, é de graça. Você acaba levando o trabalho para pessoas que, de repente, moram na rua – isso aqui é a casa de muita gente.
Gustavo: Quando você tem toda essa formação artística, a gente não fazia ideia de como levar o nosso trabalho para uma galeria ou para um museu – nem passava pela nossa cabeça que isso fosse possível. Esse reconhecimento foi acontecendo muito naturalmente na nossa vida. Dependeu muito do nosso esforço. Nós somos muito dedicados naquilo que fazemos, principalmente em termos de estudo. Mas as coisas acontecem dentro do tempo – e o tempo é muito importante para a formação de um artista. A gente entendeu muito cedo que o que a gente queria era estar junto, desenhando, independentemente de onde isso fosse chegar. A gente estava feliz ali, desenhando num papel, na rua, num trem, numa parede de prédio. E isso foi tomando outros caminhos. Foi muito bacana, porque foi algo que a gente não esperava.
Essa energia que vocês desenvolveram e criaram em todos esses anos de experiência, ela está muito presente nas exibições. Acho que isso é muito potente. Talvez até esse tempo que levou ajude a manter essa energia, e não totalmente mudar o estilo ou se adequar às expectativas que, talvez, uma instituição tenha.
Otavio: Primeiro partiu essa vontade de ter um estilo autêntico, algo que, ao olhar, as pessoas pudessem reconhecer como um trabalho nosso. Isso vem da rua, vem do graffiti, dessa exigência de quem pinta graffiti: quando você passa por um muro, você sabe de quem é aquele desenho.
A gente fazia inúmeros trabalhos para poder tentar ganhar uma grana, mas viver do noss o trabalho na década de 80, 90 era difícil, porque não tinha muita porta aberta. Essas portas foram abrindo pouco a pouco. Tanto que a gente começou a trabalhar fora do Brasil, depois veio para cá.

Como foi compartilhar esse mundo pessoal, que tem muita coisa popular dentro do imaginário brasileiro, como foi dividir isso com públicos internacionais e ganhar esse reconhecimento?
Otavio: Tudo começou por causa da quantidade de coisas que a gente estava fazendo nas ruas nos anos 90. Artistas de fora já estavam percebendo o que acontecia aqui. Depois que uma revista de Miami publicou uma matéria sobre o nosso trabalho, isso despertou a curiosidade de um artista de São Francisco chamado Barry McGee – também vindo do universo do graffiti, com várias exposições em museus e muito reconhecido no campo da arte contemporânea. Ele veio a São Paulo em 1994 e viu o nosso trabalho. A partir dali, começou a chamar atenção para o que fazíamos fora do Brasil.
Gustavo: Quando a gente conheceu o Barry, ele contou que vinha de São Francisco para fazer uma exposição e viver de arte. E nós, na época, trabalhávamos em banco – nada a ver com arte. Tínhamos que trabalhar para ajudar em casa. Pensamos: “Olha só, o cara vem pra cá pra fazer uma exposição… que incrível! Ele vive do trabalho dele.” Mas um dos primeiros artistas que realmente nos despertou para essa possibilidade foi o Speto, de São Paulo – uma figura importantíssima na nossa formação. Ele sempre viveu da própria arte, e nos dava muitos conselhos. Ele vivia de desenho, fazia ilustrações para jornais e revistas, e acabou abrindo muitas portas para a gente – deu oportunidades para fazermos um trabalho aqui, outro ali, sempre com desenho. Isso nos mostrou que talvez um dia a gente pudesse deixar o emprego e viver do que realmente amava. Quando vimos o Barry McGee, se não me engano em uma exposição no Museu Lasar Segall, entendemos algo essencial: é possível pegar um espaço – um cubo fechado, uma sala – e transformá-lo completamente. Essa ideia da transformação que fez a gente ficar ligado nisso.
Otavio: A gente já estava fazendo isso sem saber. E o Barry trabalhava com o Jeffrey Deitch em Nova York. Então, quando ele voltou pra lá, acabou comentando sobre o nosso trabalho com o Jeffrey – e foi aí que surgiu também a curiosidade dele em nos conhecer. Naquela época, a gente nunca tinha saído do Brasil. Em 2005, fizemos nossa primeira exposição em Nova York. E, em 2006, fizemos aqui com a Fortes. Você vê quanto tempo leva? A primeira exposição fora foi em 2005, e a gente já tinha feito muita coisa em São Paulo antes disso. Depois disso, não paramos mais.

Vocês já encontraram algum tipo de resistência? Vocês já pensaram “Quero fazer algo que eu não posso”?
Otavio:É louco, porque até hoje existe resistência. E acho que essa resistência precisa ser quebrada. Sempre acreditamos no talento das pessoas, no talento que cada um tem, independente de formação. Acredito que a gente tem uma certa responsabilidade nisso: o fato de ter conseguido entrar nesse universo significa também deixar a porta aberta para as próximas gerações. A gente sempre acreditou que o reconhecimento de um artista é uma porta aberta para outro. E é importante mantê-la assim. A resistência faz parte. A gente encontrou resistência em tudo. Só que a arte é mais forte que isso.
Quando você acredita no que faz, supera essas dificuldades, você está tão focado no seu trabalho, no que quer transmitir através dele, no que quer materializar através dele, que essas paredes acabam caindo. Essas portas acabam abrindo e as chaves se perdem, elas ficam abertas, porque acessam outro paralelo nas pessoas. A arte tem esse poder de acessar isso.
Pensando na quebra dessas paredes, a obra de vocês tem um reconhecimento global e acho que vários públicos respondem de forma muito similar. Vocês acreditam que essa resposta do público é realmente uma aproximação ao mundo de vocês?
Otavio: Acho que todo mundo tem um lado lúdico, um universo dentro de si. Cabe a cada um acessar isso – ou não. E acho que é isso que a gente proporciona. A gente vive dentro desse nosso universo 24 horas por dia – e pinta esse universo. Muita gente se identifica, às vezes, só de olhar um trabalho nosso e dizer: “Isso tem a ver comigo. Não sei exatamente o que é, mas tem a ver.“
Gustavo: É também uma coisa de energia, de sentir. A gente já passou por várias experiências em que as pessoas se identificam com o trabalho, sem saber explicar, e se emocionam. O que a gente faz é muito puro, muito transparente. Quando a gente pinta, estamos muito entregues ao trabalho.
Acho que, quando você coloca algo de forma pura, as pessoas sentem. É uma troca – de alguma forma, você está compartilhando isso com elas. É 100% amor ali. E acho que a forma mais pura de representar o que é o amor, para nós, é pintando.
As esculturas flutuantes, muitas vezes, criam um encontro inusitado. A pessoa foi lá para ver uma outra exposição, ter uma outra experiência, mas, de repente, ela tem esse encontro com a escultura. Como vocês veem esses encontros inesperados, como é criar essas esculturas flutuantes?
Otavio: Quando a gente está montando uma exposição ou está colocando as instalações, inflando o gigante, a gente está tão ali dentro que acabamos nem parando para enxergar esse outro lado. A gente só quer entregar aquilo que a gente quer materializar.
Gustavo: A gente enxerga nossos personagens assim, em 3D. Eles têm vida própria, falam, andam, dançam. São tridimensionais na nossa cabeça.

E isso conecta com todos os suportes possíveis que vocês usam. Fala um pouco para a gente da obra Zoetrope.
Otavio: Esse trabalho foi desafiador, porque a gente tinha essa ideia de construir algo que remetesse um pouco ao início do processo da animação. Um zoetrope é um disco que, antigamente, se fazia pequeno, com esculturinhas, e quando você gira e coloca uma luz, piscando no mesmo BPM do disco, ele anima aquelas imagens. Só que a gente nunca tinha feito um negócio desse. E resolvemos fazer, só que em tamanho família. Então, precisava de alguns espaços para poder fazer isso.
Gustavo: A gente tinha ido para o Burning Man, um festival que tem no deserto de Nevada, e a gente viu uma coisa parecida. E foi um quebra-cabeça no ateliê, junto com o Arnaldo, com o Coió, com o Isaac, todo mundo junto tentando resolver o trabalho. Como alinhar o movimento, a velocidade do disco com a piscada da luz do estroboscópio para poder animar? A gente chegou a fazer uma maquete pequena – e ela deu certo. Então pensamos: se deu certo na maquete, no grande também vai funcionar. Fomos testar tudo um dia antes da abertura da exposição. Montamos toda a mostra, com a escultura pronta, sem saber ao certo se aquilo realmente iria funcionar.
Gustavo: Todas as exposições que a gente faz, a gente faz uma maquete antes. Para poder entender o espaço, de que forma dividir as coisas, de que forma a gente pode criar, até que ponto dá para transformar o lugar.
Otavio: Mas tudo parte do desenho. A primeira ideia é o desenho, é rabiscar no papel.

Uma curiosidade: vocês mantêm as maquetes?
Gustavo: Sim, a gente tem as maquetes.
E, pensando na exibição, eu queria que vocês falassem um pouco para a gente sobre o papel de vocês como curadores do próprio trabalho de vocês.
Gustavo: A gente sempre foi curador do nosso trabalho, desde pequeno.
Otavio: Curador e crítico. Eu, dele e ele, de mim. Mas acho que, depois que a gente fez a retrospectiva do nosso trabalho na Pinacoteca, que o Jochen era o curador, acho que ele passou essa responsabilidade para a gente.
Gustavo: E ele falou: “Ninguém melhor do que vocês mesmos para fazer essa curadoria. Vocês conhecem essa exposição muito bem, os itens todos, a itinerância, vocês vão fazer”. A gente falou: “Tá bom, vamos fazer”. Aí começou esse gosto também pela curadoria.
Otavio: A exposição da Pinacoteca com o Jochen foi muito importante, porque ele fez a gente parar e ver o que a gente estava fazendo, e ver o que a gente já tinha feito até então. Eu lembro de ele ir no estúdio e falar: “Cara, vocês já voltaram para trás e abriram os baús dos desenhos? Vamos ver isso, vamos ver o que vocês têm aí.” E a gente começou a abrir coisas de 82, 83.
Gustavo: E a gente não tinha essa preocupação de parar e voltar para os anos 80. A gente quer fazer o próximo desenho, o próximo mural, o próximo projeto, a próxima exposição. Isso foi bom, parar e até falar para a gente o que é importante mostrar em uma exposição, nesse caráter retrospectivo, o que não é importante, quais são os segredos que são legais revelar. Para chegar a um estilo desse a gente passou por mais de 20 estilos.
E, também, parece que foi uma escola. O processo de pesquisa, de redescobrir o trabalho.
Otavio: E acumular, é importante você guardar o trabalho. A nossa família guardou algumas coisas. Minha mãe, meu pai, minha irmã. O Arnaldo, tio, tia, avó. Então, a gente teve que ir buscar essas coisas nas casas das pessoas.
Gustavo: Nossa mãe guardava muita coisa – ela também foi muito responsável por tudo isso, por a gente estar aqui hoje. Ela, nosso pai, nossa irmã Adriana e o Arnaldo. Estar próximo, entender o que a gente queria desde cedo e nos dar liberdade para produzir e criar.
Pensando na ideia de vocês como curadores, eu queria perguntar como foi o processo de curar a mostra HIP-HOP 80’sp – São Paulo na Onda do Break com outros curadores também.
Gustavo: Na década de 1980, a gente conheceu a cultura hip-hop muito cedo. Fizemos parte de toda a cultura – dançando break, pintando graffiti. E, quando fizemos a exposição na Pinacoteca, tinha uma parede dedicada justamente a contar a nossa transição pela cultura hip-hop, com elementos da cultura hip-hop, com fotografias, desenhos, roupas pintadas à mão. Ali começamos a pensar e a desenhar esse projeto, e perceber que precisávamos fazer uma exposição que contasse o que foi viver a cultura hip-hop na década de 1980, em São Paulo – e como ela chegou até aqui. Então, começamos a estudar, a rabiscar a ideia: “Primeiro, vamos contar como tudo começou em Nova York, e depois como isso chegou ao Brasil nos anos 1980 – uma época difícil, de ditadura militar – e como a gente absorveu tudo isso.” É engraçado, porque a exposição aconteceu no Sesc 24 de maio, que é onde começou a cultura hip-hop em São Paulo, praticamente. Então tem essa ligação também.
A gente vem colecionando muitas coisas desde aquela época. Roupa, toda memorabilia ligada à cultura hip-hop, muito jornal, revista, livros. E fui encontrando amigos que também tinham acervos em casa.
Otavio: A gente sentiu a necessidade de fazer essa exposição e juntou um time bacana de curadores, que têm também um acervo e viveram a história desde o comecinho. A ideia principal nasceu por nós e pelo Rooney, que é um artista também da época, que dançava break, é DJ, rapper e grafiteiro. Já a curadoria, nós três começamos, e depois entrou o ALAM Beat, que é também um personagem da old school de São Paulo. A Rose MC, a Sharylaine, que são duas MCs. O KL Jay, do grupo Racionais, e o Thaíde.
Gustavo: E tem uma curiosidade: a mostra tem mais de 3 mil itens da época dos anos 80 relacionados à cultura hip-hop. É muito interessante de ver.

A exposição é super envolvente, tem muita informação que eu não imaginava, e tem novas conexões. É muito importante de se aprender.
Otavio: Principalmente para a geração de hoje, que, às vezes, não faz ideia de como eram os anos 80. Quem viveu os anos 80, como era fazer graffiti naquela época, como era pôr um papelão de geladeira na rua e ligar o rádio-gravador e dançar, como eram os primeiros raps, como foram feitos. Tem essa coisa de despertar esse lado lúdico dessa época.
E também o mix dessas culturas, porque, às vezes, a gente pensa muito em cultura brasileira, cultura americana, mas, na verdade, principalmente depois da televisão, tudo ficou muito misturado.
Gustavo: A exposição é focada em São Paulo, mas em uma parte a gente fala do Rio, de Curitiba, do Amazonas, que tinham tribos que dançavam um break na época. E o interessante é ver como a gente absorve essas informações, que são informações norte-americanas, mas como a gente faz de uma forma abrasileirada, original nossa. Você vê Nelson Triunfo, que vem da cidade de Triunfo, que já tem no sangue o frevo ali, o maracatu, e o cara vem para cá nos anos 70, misturou com soul music, misturou com funk, o funk antigo ali, e depois o break. Então, o brasileiro tem esse talento de misturar as culturas e fazer de uma forma nossa, que acaba sendo valorizada no mundo inteiro depois. E queríamos mostrar isso também, como a gente absorve uma cultura que nasceu nos Estados Unidos, mas que a gente fez do nosso jeito.
Otavio: É um projeto de pesquisa de mais de 40 anos. Pesquisando, colhendo material, guardando coisas, e esses últimos três anos foi full time montar essa exposição.
A música tem um papel muito importante na vida de vocês. Fala um pouco para a gente sobre essa nova exploração de vocês no campo da música.
Otavio: A gente sempre esteve muito conectado com música, sempre escutamos música para desenhar. De forma bem eclética. Escutava ópera com o vô, rock progressivo com nosso irmão, new wave com a irmã. Riscava todos os discos dela, pegava pra fazer scratch, estragava todos os discos. E hip–hop na rua. A gente sempre enxergou o nosso trabalho com um fundo musical também. A gente sempre enxergou tudo com música, e transformávamos num videoclipe na nossa cabeça.
Aí vem o lance da produção, de começar a produzir música. A gente também é DJ, gosta de tocar. Tocamos juntos e produzimos música para poder tocar. A gente brincava no estúdio, por diversão. Começamos tocando aqui e ali, e sempre teve essa ligação com a discotecagem. E agora estamos fazendo isso de forma mais constante – misturando som e imagem também.
Entrevista realizada em 11 de setembro de 2025 durante o talk Mediando linguagens na ArtRio.

Foto: Filipe Berndt
2023

Foto: OSGEMEOS

Photo: Martha Cooper
2017

Foto: Filipe Berndt
Sesc 24 de Maio, em São Paulo, 2025

Foto:Filipe Berndt
2020

Photo: Rick Coulby
2024

Foto: OSGEMEOS